Destaque, Notícias › 09/01/2019

Festa do Batismo do Senhor

O único e fundamental privilégio do Batismo

Frei Gustavo Medella

A morte no campo e a perseguição aos movimentos sociais, o desmantelamento das políticas de proteção e promoção da cultura indígena e da vida dos índios, o olhar preconceituoso em relação a quilombolas, ribeirinhos, aos pobres em geral, revelam a postura anticristã, justificada em nome de Cristo, que vem tomando conta de um dos maiores países cristãos do mundo, o Brasil. A proposta de extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), por exemplo, pode ser indiferente para quem sabe que hoje, amanhã e depois fará todas as refeições do dia, mas é um golpe de desesperança e até desespero para os 55 milhões de brasileiros que estão na faixa de extrema pobreza segundo o IBGE, vivendo com menos de R$ 406,00 por mês. Assunto espinhoso para um início de ano, mas o incômodo do tema não chega nem aos pés da dor que assola o estômago vazio daqueles que não encontram o que comer.

A dinâmica do Evangelho, no entanto, deve colocar o verdadeiro cristão na direção oposta de todo e qualquer discurso que venha a se pautar na acepção de pessoas e na exclusão dos pobres. Ao contrário, quem se diz seguidor do Mestre Jesus deve chegar à mesma conclusão a que São Pedro chega na segunda leitura deste domingo, quando se celebra o Batismo do Senhor: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção de pessoas” (At 10,34). Lapidar também é a descrição do modus operandi do Messias, do Ungido de Deus, descrito pelo profeta Isaías na primeira leitura: “Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade” (Is 42,2-4). É justamente o modo inverso de agir daqueles que se julgam “donos da verdade” e, com truculência e arrogância, vociferam soluções medíocres, parciais e insuficientes para problemas complexos.

Ao celebrar o Batismo do Senhor, é mais do que importante recordar que receber este Sacramento só traz um privilégio, suficiente e fundamental para o ser humano: perceber-se como Filho amado de Deus e caminhar neste Amor gratuito, doando-se gratuitamente na construção de uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna. O que foge desta compreensão facilmente transforma-se em discurso vazio e hipócrita, encomendado para sustentar situações de exclusão, desrespeito e morte.


Leituras bíblicas para esta solenidade

Primeira Leitura: Is 42,1-4.6-7

Assim fala o Senhor: 1”Eis o meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito – nele se compraz minh’alma; pus meu espírito sobre ele, ele promoverá o julgamento das nações.

2Ele não clama nem levanta a voz, nem se faz ouvir pelas ruas. 3Não quebra uma cana rachada nem apaga um pavio que ainda fumega; mas promoverá o julgamento para obter a verdade. 4Não esmorecerá nem se deixará abater, enquanto não estabelecer a justiça na terra; os países distantes esperam seus ensinamentos.

6Eu, o Senhor, te chamei para a justiça e te tomei pela mão; eu te formei e te constituí como o centro de aliança do povo, luz das nações, 7para abrires os olhos dos cegos, tirares os cativos da prisão, livrares do cárcere os que vivem nas trevas”.


Responsório (Sl 28)

— Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!
— Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!
— Filhos de Deus, tributai ao Senhor,/ tributai-lhe a glória e o poder!/ Dai-lhe a glória devida ao seu nome;/ adorai-o com santo ornamento!
— Eis a voz do Senhor sobre as águas,/ sua voz sobre as águas imensas!/ Eis a voz do Senhor com poder!/ Eis a voz do Senhor majestosa.
— Sua voz no trovão reboando!/ No seu templo os fiéis bradam: “Glória!”/ É o Senhor que domina os dilúvios,/ o Senhor reinará para sempre!


Segunda Leitura: At 10,34-38

Naqueles dias, 34Pedro tomou a palavra e disse: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. 35Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença.

36Deus enviou sua palavra aos israelitas e lhes anunciou a Boa-nova da paz, por meio de Jesus Cristo, que é o Senhor de todos.

37Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus estava com ele”.


Evangelho: Lc 3,15-16.21-22

15 O povo estava esperando o Messias. E todos perguntavam a si mesmos se João não seria o Messias. 16 Por isso, João declarou a todos: «Eu batizo vocês com água. Mas vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo.

* 21 Todo o povo foi batizado. Jesus, depois de batizado, estava rezando. Então o céu se abriu, 22 e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como pomba. E do céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho amado! Em ti encontro o meu agrado.»


* 3,1-20: A datação histórica (vv. 1-2) mostra que Lucas coloca os reis terrestres e as autoridades religiosas em contraste com a soberania e a autoridade de Jesus: o movimento profundo da história não se desenvolve no plano das aparências da história oficial. É Jesus quem realiza o destino do mundo, dando à história o verdadeiro sentido.

João Batista convida todos à mudança radical de vida, porque a nova história vai transformar pela raiz as relações entre os homens. É o tempo do julgamento, e nada vale ter fé teórica, pois o julgamento se baseia sobre as opções e atitudes concretas que cada um assume.

* 21-22: Para Lucas, o batismo de Jesus é um episódio em meio ao batismo de todo o povo. Solidarizando-se com o povo, Jesus começa o tempo do batismo no Espírito, isto é, a formação do povo de Deus que vai construir a nova história. Cf. também nota em Mc 1,9-11.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Comentários de Frei Ludovico Garmus


Batismo do Senhor

Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: Deus eterno e todo-poderoso, que, sendo o Cristo batizado no Jordão, e pairando sobre ele o Espírito Santo, o declarastes solenemente vosso Filho, concedei aos vossos filhos adotivos, renascidos da água e do Espírito Santo, perseverar

Constantemente em vosso amor.

1. Primeira leitura: Is 42,1-4.6-7

Eis o meu servo: nele se compraz minha alma.

A segunda parte do livro de Isaías (Is 40–55), inclui quatro poemas, chamados Cânticos do Servo Sofredor. Para a primeira leitura da festa do Batismo do Senhor foi escolhido o primeiro Cântico. É uma escolha bem apropriada porque ilumina o sentido do batismo de Jesus por João Batista. Os primeiros cristãos começaram a ler o Antigo Testamento à luz da fé em Cristo morto e ressuscitado. Usaram os Cânticos de Isaías para interpretar a vida de Jesus e sua missão (ver At 8,26-40: conversão do camareiro etíope).

Na leitura de hoje, o profeta diz em nome de Deus: “Eis meu servo – eu o recebo; eis o meu eleito. Nele se compraz a minha alma”. Deus põe sobre o servo o seu espírito, para cumprir uma missão universal, “o julgamento das nações”. O servo é um ungido pelo espírito do Senhor. Ele não anunciará um julgamento punitivo, pois os exilados pagaram em dobro pelos seus crimes (Is 40,2). O julgamento das nações é para salvar o povo eleito. O servo virá com a mansidão de um pastor para cuidar de suas ovelhas, sobretudo, das mais fracas: Não quebrará a cana rachada, nem apagará o pavio que ainda fumega. Não descansará enquanto não estabelecer os seus ensinamentos e a justiça na terra. O servo é escolhido a dedo – “eu te tomei pela mão”. Por fim, o servo recebe uma missão: abrir os olhos dos cegos, tirar os cativos da prisão, livrá-los do cárcere (cf. Lc 4,16-19). O Servo Sofredor é alguém que se compadece e sofre com os injustiçados. Jesus se identifica com o Servo de Deus quando apresenta sua missão na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16-22).

Salmo responsorial: Sl 28 (29

Que o Senhor abençoe, com a paz, o seu povo!

2. Segunda leitura: At 10,34-38

Foi ungido por Deus com o Espírito Santo.

A pedido de Cornélio, comandante de um batalhão romano, Pedro foi a Cesareia Marítima para falar sobre Jesus. Cornélio queria conhecer melhor quem era Jesus de Nazaré. Sabia que Jesus tinha sido condenado à morte por Pilatos, mas agora diziam que Jesus havia ressuscitado dos mortos. Até então Pedro pregava o evangelho apenas para os judeus. Relutava em aceitar o convite de uma família pagã. Mas, na véspera da vinda dos mensageiros de Cornélio foi convencido por uma visão celeste a aceitar o convite (cf. At 10,1-33). Depois das explicações dadas por Cornélio e da visão que teve, Pedro diz: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção de pessoas”. Reconhece na casa de Cornélio e de sua família que os pagãos não precisam tornar-se judeus para, só então, se tornarem cristãos: Quem pratica a justiça e teme a Deus é bem acolhido por Ele. Como Cornélio já conhecia bastante sobre Jesus, Pedro apenas diz: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, começando pela Galileia, depois do batismo pregado por João” (v. 37). Os estudiosos reconhecem neste verso o esquema básico dos três primeiros evangelhos. Invertendo a frase, temos: batismo de Jesus, missão na Galileia, viagem a Jerusalém, morte e ressurreição do Senhor. Marcos adotou este esquema geográfico para seu evangelho, seguido depois por Mateus e Lucas. O primeiro anúncio (querigma) se resume à fé em Jesus como o Messias, ungido por Deus pelo Espírito Santo e com poder. O Espírito assim se manifestou na vida de Jesus: Ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele. Pedro fez o melhor elogio de Jesus, Filho de Deus, que passou por este mundo só fazendo o bem. Jesus manifestou o amor misericordioso de Deus, o sumo Bem. – Esta é a missão que todos recebemos quando fomos batizados. Possamos também nós manifestar pela nossa vida e ação a bondade e misericórdia de Deus.

Aclamação ao Evangelho

Abriram-se os céus e fez-se ouvir a voz do Pai:
Eis meu filho muito amado; escutai-o, todos vós!

3. Evangelho: Lc 3,15-16.21-22

Jesus recebeu o batismo. E, enquanto rezava, o céu se abriu.

A Igreja celebra hoje a festa do Batismo do Senhor. Encerra-se assim o tempo do Advento e do Natal. No próximo domingo já teremos o 2º domingo do Tempo Comum, ano C. Quando João Batista pregava o Batismo de conversão e anunciava que o reino de Deus estava próximo, muitos se perguntavam se não seria João o Messias esperado. Mas João deixou claro que ele não era o Messias. Ele batizava apenas com água, em sinal do perdão dos pecados. Depois dele viria alguém com mais poder do que ele, isto é, Jesus de Nazaré. Esse, sim, purificará o povo de todos os pecados, porque “batizará no Espírito Santo e no fogo” (evangelho, 3º domingo do Advento, ano C).

Lucas segue o evangelho de Marcos, como pequenas, mas importantes, modificações. No Evangelho e nos Atos dos Apóstolos, ele divide a “história da salvação” em três tempos: 1. Tempo da promessa: o Antigo Testamento até o batismo de João; 2. O tempo do cumprimento da promessa, em Jesus de Nazaré, até sua ascensão ao céu; 3. E o tempo da Igreja, animado pela ação do Espírito Santo. Por isso, segundo Lucas, Jesus está no meio do povo e “entra na fila” para se batizar. Depois de batizado, já fora da água, põem-se em oração, o Espírito Santo repousa sobre ele como uma pomba e uma voz do céu se faz ouvir: “Tu és o meu Filho, em ti ponho o meu bem-querer”. Terminada a missão de Jesus aqui na terra (Ascensão), o Espírito Santo repousará sobre os apóstolos e umas 120 pessoas no dia de Pentecostes (At 2), dando início ao terceiro tempo, o da Igreja. Esse é o nosso tempo, tempo de evangelizar e testemunhar nossa fé, numa “Igreja em saída”.


O Filho amado nas águas do Jordão

Frei Almir Guimarães

O Senhor vem se fazer  batizar junto com os servos, o juiz junto com os réus.  Que isso não te perturbe, pois é justamente em tais humilhações que a grandeza dele  mais resplandece. Por que te surpreenderias com o fato de  ele consentir em receber o batismo e se aproximar de seu servidor com os outros, visto que ficou tanto tempo no seio virginal, saiu dele revestido de nossa natureza, deixou-se esbofetear e crucificar, e se submeteu a tantos outros sofrimentos?  O mais estupendo é que ele, sendo Deus, tenha desejado se fazer homem; o resto é apenas  consequência lógica disso.

São João Crisóstomo

> Lá estava ele, esse João, conhecido como o batizador, João Batista.  Estava às margens do Jordão.  Costumava administrar um rito de purificação e de  expressão de mudança do coração, de conversão. Levava as pessoas a celebraram nas águas a vontade de mudar. Houve até  quem pensasse que João fosse o Messias.  Havia uma expectativa do povo nesse sentido.  O evangelista procurará  colocar as coisas claras.  João não é Messias e nem é digno de desamarrar as correias de suas sandálias.

> João contemplava os que vinham. Iam se adentrando nas águas, molhando os pés, as pernas, o corpo todo e chegando a purificar o ser inteiro, o corpo e o espírito.  Nesse momento o filho da velhice de Isabel e Zacarias prefigurava,  de alguma maneira,  o estilo de pregação de  Jesus: a urgência da conversão,  do doce se transformar em amargo e o amargo, em doce.  Seu batismo era um batismo de conversão.

> De repente,  Jesus se associa ao cortejo dos pecadores.  João acha estranho. Não quer aceitar de colocar o gesto de batizar Jesus.  Jesus insiste.  É preciso que tudo se cumpra. Aquele seria o rito e momento de inauguração da  missão do Messias.  Mais tarde o batismo de Jesus seria na água e no Espírito.  Mas agora Jesus queria se associar visivelmente ao cortejo dos pecadores.

> Santo Efrém  escreve  como que um diálogo entre João e Jesus. Assim fala  Jesus: “Pelo meu batismo é que as águas serão santificadas recebendo de mim  o fogo e o Espirito. Se eu não receber o batismo elas  não terão o poder de gerar  filhos imortais. É absolutamente   necessário que me batizes, sem discussão, como te ordenei.  Eu te batizei no seio materno;  batiza-me no Jordão”.  Belas, da mesma maneira, as palavras que Efrém coloca nos lábios do Batista:  “Sou um servo totalmente indigente. Tu, que a todos libertas, tem piedade de mim. Não sou digno sequer de desatar as correias de tuas sandálias. Quem me tornará digno de tocar tua sublime cabeça?  Obedeço  Senhor, segundo a tua palavra; vem, pois, ao batismo ao qual o teu amor te impele. Com suma veneração, o homem pó se vê chegar ao extremo de impor a mão àquele que o plasmou”.

“Quando todo o povo  estava sendo batizado, Jesus também recebeu o batismo. E enquanto rezava o céu se abriu e o Espírito  Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem querer”.

> A partir desse momento Jesus começará sua vida pública, seu ministério. Os céus se rasgam e o Pai  unge o  Filho amado.  Nele  o Pai coloca todo o seu agrado e a partir desse momento  Jesus haverá de falar.  O Filho amado do Pai vai começar a falar e felizes os que ouvirem a sua palavra ungida.  Os discípulos de Jesus haverão de colocar como ponto de honra de seu viver escutar o Filho amado do Pai.

> “A experiência  vivida  por Jesus  ao ser batizado  é modelo de toda experiência  cristã de Deus. Quando em algum momento de nossa vida  – cada qual sabe o seu  –  “o céu se rasga” e as trevas nos permitem ver algo do mistério que nos envolve, o cristão,  da mesma forma  que Jesus, só ouve uma voz que pode transformar  sua vida inteira; “Tu és o meu filho amado”. No futuro   será difícil haver cristãos que  não tenham tido a  experiência  pessoal  de sentir-se filhos amados de Deus”  (Pagola, Lucas p.  66).

> Quanta profundidade  nessas reflexões de  Pedro Crisólogo  sobre a festa do batismo do Senhor: “ Hoje o Espírito Santo, em forma de pomba, paira sobre as águas:  assim como uma pomba anunciou a Noé o fim do dilúvio, por sua presença os homens saberiam que havia terminado o ininterrupto naufrágio do mundo. Esta pomba não trouxe, como a outra, um ramo da antiga oliveira, mas derramou sobre a cabeça do Senhor, toda a riqueza do novo óleo,   cumprindo assim  o que o profeta anunciara:  “É por isso  que  Deus te ungiu  com seu óleo, deu-vos mais alegria que aos vossos amigos (Sl 44,8)”  (Lecionário Monástico I, p. 458).

>A partir desse momento Jesus não voltará mais para  Nazaré, nem permanecerá com os discípulos do Batista.  Ele é o  Filho Amado do Pai que vai realizar sua missão evangelizadora.  Ninguém poderá segura-lo.

Textos para a reflexão

Que batismo é este?

Hoje o Cristo é batizado no Jordão. Que batismo é este, em que o batizado é mais puro do que que a fonte?  Onde a água que lava o corpo não se torna impura, mas enriquecida de bênçãos?  Que batismo é este o do Salvador, no qual as águas, em vez de purificar, são purificadas?  Num novo gênero de santificação,  a água não lava,  mas é lavada.  Desde o momento em que imergiu na água, o Salvador  consagrou todas as fontes no mistério do batismo, para que todo aquele que desejar ser batizado  em nome do Senhor seja lavado não pela água do mundo, mas purificado pela água de Cristo.  Assim,  o Salvador  quis ser batizado não visando adquirir pureza para si, mas a fim de purificar as águas para nós.

São Máximo de Turim
Lecionário Monástico  I, p.526-527

Confirmação do batismo da do a crianças

Nas primeiras comunidades  cristãs  fala-se do “batismo de água”  praticado pelo  Batista e do  “batismo do Espírito” introduzido por  Jesus.  Por isso, ao batizar-se, não o faziam para converter-se em discípulos  de João  Batista, mas para significar sua adesão ao Evangelho, sua abertura ao espírito de Jesus e sua entrada na comunidade cristã.

Naturalmente o batismo era a culminação  de todo um  processo de conversão e vinha expressar, de maneira viva, a aceitação consciente e   responsável da fé cristã.  Hoje não é mais assim. Nós fomos batizados uns poucos dias depois de nosso nascimento,  sem possibilidade alguma que o batismo fosse um gesto pessoal  nascido de nossa própria decisão. Esta prática de batizar as criancinhas  foi introduzida bem cedo  nas comunidades  cristãs, e, sem dúvida, tem um significado profundo na família cristã que deseja ver seu filho integrado na comunidade cristã.  Não obstante,  e por legítimo que seja este costume multissecular, é evidente que implica graves riscos, se não adotamos uma postura  responsável. O batismo de criancinhas não pode ser entendido não pode ser entendido como culminância de um processo de conversão. Só terá sentido  se o considerarmos com início de uma vida  que deverá ser ratificada mais tarde.  O batismo que recebemos como  crianças está exigindo de nós, adultos, uma ratificação  pessoal.  Sem ela nosso batismo continua incompleto, como sinal vazio de conteúdo responsável, como chamado sem eco sem resposta verdadeira.


Para que crer?

José Antonio Pagola

São muitos os homens e as mulheres que um dia foram batizados por seus pais e hoje não saberiam definir exatamente qual é sua postura diante da fé. Talvez a primeira pergunta que surge em seu interior seja muito simples: Para que crer? A vida muda alguma coisa pelo fato de crer ou não crer? Serve a fé realmente para alguma coisa?

Estas perguntas nascem de sua própria experiência. São pessoas que, pouco a pouco, foram empurrando Deus para um canto de sua vida. Hoje Deus não conta absolutamente para elas na hora de orientar e dar sentido à sua existência.

Quase sem elas se darem conta, um ateísmo prático foi se instalando no fundo de seu ser. Essas pessoas não preocupam que Deus exista ou deixe de existir. Tudo isso lhes parece um problema estranho que é melhor deixar de lado para assentar a vida sobre bases mais realistas.

Deus não lhes diz nada. Acostumaram-se a viver sem ele. Não experimentam nostalgia ou vazio algum por sua ausência. Abandonaram a fé e tudo em sua vida corre bem, ou melhor do que antes. Para que crer?

Esta pergunta só é possível quando alguém “foi batizado com água”, mas não descobriu o que significa “ser batizado com o Espírito de Jesus Cristo”. Quando alguém continua pensando erroneamente que ter fé é crer uma série de coisas muito estranhas, que nada têm a ver com a vida, e não conhece ainda a experiência viva de Deus.

Encontrar-nos com Deus significa saber-nos acolhidos por Ele no meio da solidão, sentir-nos consolados na dor e na depressão, reconhecer-nos perdoados do pecado e da mediocridade, sentir-nos fortalecidos na impotência e na caducidade, ver-nos impulsionados a amar e criar vida no meio da fragilidade.

Para que crer? Para viver a vida com mais plenitude, para situar tudo em sua verdadeira perspectiva e dimensão, para viver inclusive os acontecimentos mais triviais e insignificantes com mais profundidade.

Para que crer? Para atrever-nos a ser humanos até o fim; para não sufocar nosso desejo de vida até o infinito; para defender nossa liberdade sem entregar nosso ser a qualquer ídolo; para permanecer abertos a todo o amor, a toda a verdade, a toda a ternura que existe em nós. Para não perder nunca a esperança no ser humano, nem a vida.


Tomado do meio do povo e enviado por Deus

Pe. Johan Konings

Às vezes se percebe, na Igreja, certo conflito entre os agentes de evangelização que procuram inserir-se nas lutas do povo e os que tentam puxar o povo para a igreja, para rezar. Será que, necessariamente, essas duas coisas são incompatíveis?

Com trinta anos de idade, Jesus se deixou batizar por João Batista (evangelho). Ele aderiu ao movimento de conversão lançado por João. Nem todos os judeus aderiam a esse movimento. Os fariseus e os sacerdotes o criticavam. Mas os pecadores, os publicanos, os soldados e as prostitutas, estes se deixavam purificar por João, para poderem participar do Reino de Deus. E também Jesus, solidário com os que se queriam converter, se deixou batizar. Batizado assim junto com todo o povo e encontrando-se em oração – encontrando-se junto a Deus no meio do povo – Jesus ouviu a voz: “Tu és o meu filho amado, em ti encontro o meu agrado”. E recebeu o Espírito de Deus, para cumprir a sua missão, para anunciar a boa-nova do Reino aos pobres e libertar os oprimidos (1ª leitura). Deus o chamou e o enviou, exatamente, no momento em que ele vivia em total solidariedade com o povo e com Deus mesmo. Por isso, enviado por Deus do meio do povo, ele podia ser o libertador desse povo.

Houve um tempo em que a Igreja não entendia bem essas coisas. Considerava o povo como mero objeto de evangelização. Mandava evangelizadores que não viviam em solidariedade com o povo; havia até padres que sentiam nojo, não só do pecado como também do pecador … Nossa Igreja redescobriu a importância de seus evangelizadores viverem solidários com os que devem ser evangelizados, sentirem seus problemas e dificuldades … e sua boa vontade. Mas, para poderem transmitir a sua mensagem evangelizadora, é preciso também que estejam perto de Deus e, na oração, escutem a sua voz. E isso vale não só para os padres e os religiosos, mas para todos os que Deus quiser enviar para levar sua palavra a seus irmãos: catequistas, ministros leigos, líderes, pessoas que ocasionalmente têm que transmitir um recado de Deus … Têm de ser solidários com o povo e unidos a Deus. Então, seu batismo – ao modelo do batismo de Jesus – será realmente a base de sua missão.

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