Informes Paroquiais, Notícias › 22/01/2015

Fraternidade: Igreja e sociedade – uma perspectiva bíblico-teológica

Cartaz-da-CF-2015-alta-resoluçãoFraternidade: Igreja e sociedade – uma perspectiva bíblico-teológica

Por Celso Loraschi (publicado na revista Vida Pastoral)

A obra de Lucas (Evangelho e Atos dos Apóstolos) oferece elementos inspiradores para o tema proposto pela Campanha da Fraternidade neste ano de 2015. A proposta de Jesus de Nazaré assumida pelas comunidades cristãs primitivas precisa ser permanentemente resgatada pela Igreja, tendo em vista a sua missão evangelizadora em cada contexto histórico-cultural.

O que mais falta aos homens da Igreja é o Espírito de Cristo, a humildade, o despojamento de si mesmo, a acolhida desinteressada, a capacidade de ver o melhor do outro. Nós temos medo, queremos manter o que caducou, porque disso temos o hábito, queremos ter razão contra os outros. Dissimulamos, sob o vocabulário de humildade estereotipada, o espírito de orgulho e de poder. Brincamos de pôr a vida à parte. Da Igreja fizemos uma organização como as outras. Empregamos todas as nossas forças para organizá-la e agora as empregamos para fazê-la funcionar. E ela caminha mais ou menos, menos do que mais, mas caminha. O problema é que ela caminha como uma máquina, e não como a vida.

Essa afirmação do patriarca ecumênico de Constantinopla, Atenágoras, feita há mais de quatro décadas, possui caráter exortativo também para a Igreja na atualidade. Por aquela mesma época, o Concílio Vaticano II, por meio da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, formulou princípios orientadores para a missão da Igreja num mundo em acelerada transformação. De lá para cá, foram inúmeras as iniciativas, em todos os âmbitos, para organizar uma Igreja mais humana e solidária, respondendo aos clamores da sociedade, especialmente das pessoas abandonadas.

Peregrina neste mundo, a Igreja precisa avançar sempre mais, rompendo com a tentação de acomodar-se. E para avançar com liberdade evangélica, há necessidade de abandono de tudo o que a impede de ser verdadeiramente discípula missionária do Senhor. O documento da CNBB n. 100 – Comunidade de comunidades: uma nova paróquia –chama-nos à conversão pastoral e nos orienta a sair “de uma Igreja distante, burocrática e sancionadora” para uma Igreja mais evangélica, comunitária, participativa, realista e mística (n. 37). O papa Francisco, atento às demandas que emergem das comunidades pelo mundo afora, abraçou essa causa com determinação. Seus ensinamentos, corroborados por seu testemunho, inspiram-se na prática da Igreja das origens, seguidora de Jesus Cristo, servidora do seu evangelho e, por isso mesmo, promotora da vida digna sem exclusão. A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium apresenta o caminho a ser seguido pela Igreja em sua obra evangelizadora no mundo atual. É a proposta do evangelho que precisa ser retomada com coragem. “A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4,43); trata-se de amar a Deus que reina no mundo. À medida que ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos” (EG 180).

Nesse sentido, propõe-se aqui uma reflexão sobre o tema da Campanha da Fraternidade numa perspectiva bíblico-teológica, buscando compreender a dimensão social da fé cristã assumida pelas primeiras comunidades cristãs. Para isso, toma-se a obra de Lucas como referência, pontuando alguns aspectos.

1. A tradição do Êxodo e da profecia

Segundo Lucas, o Primeiro Testamento culmina com a vinda de João Batista. Com Jesus, inicia-se o tempo do anúncio do Reino de Deus: “A Lei e os Profetas chegaram até João. Daí em diante, o Reino de Deus é anunciado, e todos se esforçam para entrar nele a qualquer custo” (Lc 16,16).

A pregação de João Batista se dá no deserto. Preparando o caminho do Senhor, oferece ao povo um batismo de arrependimento. Também Jesus chegou da Galileia para ser batizado (Mc 1,2-11). O pano de fundo dessa apresentação é a tradição do Êxodo, acontecimento fundador do povo de Israel e paradigma para as comunidades em permanente caminhada rumo à terra sem males. Fome e sede marcam essa caminhada: fome e sede de pão, de justiça, de fraternidade e de paz; fome de Deus. O deserto é o lugar teológico aonde Deus leva seu povo para seduzi-lo e falar-lhe ao coração (Os 2,16). Êxodo, deserto, entrada na terra constituem o itinerário da pessoa e da comunidade.

Jesus optou por esse caminho exodal. Não fugiu do mundo. Pelo contrário, “crescendo no meio de uma realidade conflitante de exploração econômica, de convulsões sociais, de desintegração crescente das instituições, de explosões messiânicas, Jesus, unido ao Pai, torna-se aluno dos fatos, descobre dentro deles a chegada da hora de Deus” (MESTERS, [1985?]). Desde o início de seu ministério público, rompe com o poder que escraviza, em sua tríplice dimensão – econômica, política e religiosa (Lc 4,1-13) –, e assume a causa da libertação dos pobres, presos, cegos e oprimidos (Lc 4,18-19).

É o início de uma grande caminhada, na qual Jesus, fiel à tradição profética, se posiciona com convicção e coragem a favor do próximo necessitado. A parábola do samaritano solidário (Lc 10,25-37) ilustra bem a opção feita pelo próprio Jesus, modelo para todos os que o seguem. Diante da preocupação do doutor da lei a respeito da “vida eterna”, ele indica o caminho que promove a vida sem exclusão já neste mundo. O centro da parábola é “um homem”, uma pessoa sem nome, na qual se identificam todas as pessoas em situações de necessidade. Um homem vítima de assalto, semimorto, abandonado… Jesus revela, nessa parábola, aguda percepção da realidade social. Denuncia o sistema de exclusão e subverte os valores estabelecidos pelos senhores do Templo, aqui representados pelo sacerdote e pelo levita. Ambos “viram” o homem abandonado e ambos “passaram adiante”. Contrariamente age o samaritano, pertencente a um povo odiado pela elite religiosa judaica, idealizadora do sistema do puro e do impuro.

A parábola reflete a prática cotidiana de Jesus de Nazaré. A sua vida foi pautada por atitudes de amor e solidariedade. Movimenta-se segundo o Espírito que se desdobra em sensibilidade, carinho, acolhida, perdão, cuidado e indignação. Em todos os lugares, suas palavras e ações são portadoras de liberdade e vida para os possessos das ideologias dominantes, para os doentes e enfermos; constituem proposta de inclusão dos marginalizados: pobres, mulheres, pecadores, estrangeiros…

Jesus não é um ser etéreo, que se movimenta a igual distância de todos os grupos e conflitos e exigências da época. Participa e toma posição, e o faz a partir de um “lugar social” bem preciso, tendo em conta os interesses contrapostos, discernindo as necessidades autênticas e, sobretudo, definindo-se diante da questão vital: a instauração de sociedade outra, diferente… (ECHEGARAY, 1984).

Com essa opção definida, Jesus vai às sinagogas (de Cafarnaum: 4,31; a outras sinagogas da Galileia: 4,44; 6,6; no caminho para Jerusalém: 13,10); entra nas cidades e aldeias: 5,12; 8,1; 10,38; 13,22 (de Cafarnaum: 4,31; 7,1; dirige-se a Naim: 7,11; decide resolutamente ir a Jerusalém: 9,51; entra em Jericó: 19,1; em Betfagé e Betânia: 19,29; em Jerusalém: 19,41); nas casas (de Pedro: 4,38; de Levi: 5,29; de fariseus: 7,36; 11,37; 14,1; de Jairo: 8,41; de Marta e Maria; de Zaqueu: 19,1); caminha pelas ruas: 5,27; pelos campos: 6,1; pelas planícies: 6,17; 9,37; à margem do lago de Genesaré: 5,1; sobe a uma barca: 8,22; atravessa para a outra margem: 8,26; realiza uma viagem pedagógica da Galileia para Jerusalém: 9,51.57; 10,38; 11,1; sempre a caminho: 13,22; 17,11; envia os discípulos, adiante de si, por todas as cidades e lugares: 10,1; entra no Templo: 19,45.47; 20,1. Retira-se frequentemente para rezar no deserto: 4,1; na montanha: 6,12; 9,28; no monte das Oliveiras: 22,39; em certo lugar: 11,1; reza a sós com os discípulos: 9,18; ensina os discípulos a rezar: 11,2…

2. Movido pela misericórdia

O levita e o sacerdote, na fidelidade às leis de pureza impostas pelo sistema religioso oficial, fazem-se estranhos à pessoa abandonada à beira do caminho. O samaritano, porém, movido por compaixão, faz-se próximo dela e lhe dedica seu tempo, suas habilidades e seus bens.

Jesus propõe um caminho para além do legalismo excludente. A religião vivida por Jesus expressa-se efetiva e afetivamente pelo amor incondicional ao próximo, seja ele desta ou daquela tradição cultural. A misericórdia derruba preconceitos, encurta as distâncias, aproxima os diferentes, vê a necessidade do outro, vence o ódio, promove a reconciliação, cura e liberta. A misericórdia é o princípio pelo qual a Igreja deve pautar sua missão como promotora de fraternidade e vida no mundo.

Movido pela misericórdia, Jesus vai ao encontro também dos ricos e os acolhe, oferecendo-lhes a oportunidade de um novo caminho. Muitos não conseguem abandonar suas seguranças econômicas, especialmente quando justificados por uma teologia que interpreta a riqueza como bênção divina (Lc 18,18-23). Mas há outros, como se constata na história, que se deixam transformar pelo evangelho a ponto de mudar radicalmente a sua vida.

Com a visita que Jesus fez em sua casa, Zaqueu toma consciência de sua real situação (Lc 19,1-10). Enriquecera aproveitando-se de sua função de chefe de cobradores de impostos, à custa do empobrecimento do povo. Somente após o compromisso assumido por Zaqueu de restituir o que roubou é que Jesus lhe garante: “Hoje a salvação chegou a esta casa” (19,9). A redenção do dinheiro se dá quando é administrado como um meio para a promoção da justiça social. Jesus tem clareza e convicção sobre a finalidade dos bens materiais. Por isso denuncia veementemente a avareza (16,14-15), a insensibilidade dos ricos (16,19-31), a insensatez do acúmulo (12,16-21), o apego aos bens (18,9-23); ensina aos discípulos a respeito do verdadeiro uso da riqueza (16,9-13), o sentido do desapego (18,24-30), bem como a função de animar o projeto da partilha social (9,10-17).

O pedido de Jesus “dai-lhes vós mesmos de comer” envolve tanto a cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o desenvolvimento integral dos pobres, como também os gestos mais simples e diários de solidariedade para com as misérias muito concretas que encontramos. Embora um pouco desgastada e, por vezes, até mal interpretada, a palavra “solidariedade” significa muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade; supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns (EG 188).

3. A missão da Igreja

A missão que Jesus confere aos Doze (Lc 9,1-6) é de continuidade de sua própria missão. Consiste fundamentalmente no anúncio do Reino de Deus corroborado por sinais de libertação e curas: “Deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios, e para curar enfermidades” (9,1). O campo da missão são as casas e as cidades. Da mesma forma, o envio dos Setenta (ou setenta e dois) discípulos (10,1-12), indicação de universalidade. Enquanto os Doze representavam o novo Israel, os Setenta representam a nova humanidade. Para os judeus, setenta era o número de nações no mundo. Portanto, o conhecimento da boa-nova de Jesus é um direito de todos os povos.

Os portadores do evangelho devem pôr-se a caminho, “de dois a dois”, com espírito de equipe e sentido comunitário, numa condição de total desapego, a fim de que nada impeça a liberdade dentro da qual Jesus se movimentou, sob a força do Espírito. Em sua maneira de se apresentar, de vestir-se e se relacionar, todos poderão testemunhar sua solidariedade com os pobres e a autenticidade da mensagem que transmitem.

Como se pode traduzir hoje esse espírito de Jesus na sociedade de bem-estar? Não simplesmente recorrendo a um traje que nos identifique como membros de uma instituição religiosa ou responsáveis por um cargo na Igreja. Precisamos, cada um de nós, rever com humildade que nível de vida, que comportamentos, que palavra, que atitude nos identificam melhor com os últimos (PAGOLA, 2012, p. 174).

Como “cordeiros entre lobos”, com simplicidade e mansidão, sem dever nada a ninguém a não ser o amor mútuo (cf. Rm 13,8), os evangelizadores enfrentarão toda espécie de conflitos sem perder a paz. Aliás, a paz é o primeiro sinal do Reino de Deus: “Em toda casa que entrardes, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa!’” (10,5). A paz que o evangelho propõe nasce da convicção de que todos somos irmãos, amados por Deus Pai de modo gratuito, e, como decorrência, também devemos nos amar gratuitamente (15,11-32).

4. As comunidades de Lucas

Lucas escreve pelo final do século I em Antioquia da Síria, a terceira cidade do Império Romano, grande centro comercial, formada por povos de diversas culturas. As tradições judaica, grega e romana se entrelaçavam. As comunidades cristãs aí organizadas sofriam a influência de mentalidades diversas. O evangelho vem ajudá-las a discernir o verdadeiro caminho da vida que o ensinamento e a prática de Jesus revelaram. Uma das tarefas prioritárias assumidas pelo mestre de Nazaré foi a formação dos seus discípulos, que, apesar de o reconhecerem como o Messias, tiveram muitas dificuldades de segui-lo. A mentalidade fechada, nacionalista e fanática, bem como a visão de um messianismo triunfalista, fez que Jesus iniciasse um novo caminho, representado pela viagem da Galileia a Jerusalém, onde vai ser crucificado.

Os discípulos aprenderão nessa caminhada que o seguimento de Jesus se dá não pelos critérios do poder, e sim pelos do serviço, como podemos constatar em Atos dos Apóstolos, o segundo volume da obra de Lucas. Mulheres e homens, impulsionados pelo dom do Espírito Santo, realizam a obra evangelizadora no mundo em tríplice dimensão:

A dimensão do tempo: os discípulos anunciam o reino messiânico por meio de “sinais e prodígios” (cf. At 2,22.43; 4,16.30; 5,12; 6,8; 8,6.13; 14,3; 15,12…), reveladores deste tempo favorável de Deus, agindo em favor da vida e salvação de seus filhos e filhas. Jesus é o kairós por excelência. No Evangelho de Lucas, isso está expresso no advérbio de tempo “hoje” (cf. 3,11.22; 4,21; 5,26; 13,22-23; 19,5.9; 23,43). Ele permanece vivo e atuante nas palavras e ações dos seus discípulos e discípulas que se acolhem, se reúnem e se amam fraternalmente. Cada momento, “dia após dia” (At 2,41.47; 4,42…), é tempo decisivo para a difusão da boa-nova de Jesus Cristo salvador. O tempo faz-se pleno!
A dimensão do espaço: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria e até os confins da terra” (1,8). Esse é o esquema geográfico utilizado por Atos dos Apóstolos para mostrar a caminhada da Palavra, desde a ressurreição de Jesus. Os evangelizadores vão “de lugar em lugar anunciando a boa-nova” (8,4…). A mesma atitude itinerante de Jesus na Palestina é vivida agora pelos seus discípulos. Há um contínuo movimento dos agentes de evangelização, num compromisso missionário, assumido num regime de urgência, preenchendo todos os espaços possíveis com a boa notícia do tempo da salvação de Deus, realizado em Jesus Cristo. Os verbos “prosseguir” (13,51; 16,10.40; 17,10; 18,23…), “levantar-se” (9,6.40; 14,20; 26,16…), “partir” (10,23; 16,10; 18,21…), “embarcar” (13,13; 16,10…) são indicativos desse dinamismo.

A dimensão do testemunho: “Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas…”. A palavra grega martyría, frequente em Atos dos Apóstolos, refere-se ao testemunho de Jesus Cristo morto e ressuscitado dado pelos seus seguidores; é argumento de autenticidade da boa notícia acompanhada de sinais e prodígios, conforme cita Pedro em seus discursos querigmáticos: em Jerusalém, após a descida do Espírito Santo (2,32) e após a primeira cura de um deficiente físico (3,15), e na casa de um pagão, Cornélio (10,39-43). Também Paulo, em sua conversão e em suas viagens missionárias: numa sinagoga em Antioquia da Pisídia (13,46) e em Jerusalém, diante dos judeus (22,20) e diante do rei Agripa (26,12-23). O próprio Senhor aparece a Paulo e lhe dá a missão de testemunhá-lo em Jerusalém e em Roma (23,11).

5. Na força do Espírito Santo

Assim como Jesus foi gerado e conduzido pelo Espírito Santo, também a sua Igreja. É dom concedido às pessoas individualmente e às comunidades dos crentes: a Pedro (4,8), a Estêvão (6,5), a Paulo (9,17), a Barnabé (11,24), a Judas e Silas (15,32)… Ele se manifesta na comunidade reunida (4,31), nas igrejas da Judeia, Galileia e Samaria (9,31). Acontecem vários Pentecostes: aos judeus em Jerusalém (2,1-13), aos pagãos na casa de Cornélio (10,44-48), aos discípulos de João na cidade de Éfeso (19,1-7)…

O Espírito Santo acompanha os evangelizadores, animando, ajudando a discernir, ampliando, fortalecendo, impedindo, advertindo, sugerindo, arrebatando… As comunidades seguidoras de Jesus podem contar com a mesma dýnamis do Espírito que animava a Jesus de Nazaré. O dom gratuito da salvação, dado por Deus Pai em Jesus Cristo, morto e ressuscitado, na força do Espírito Santo, é destinado a todas as pessoas de todas as raças e culturas. A compreensão desta novidade leva os seguidores de Jesus a assumir uma vida de total coragem e liberdade interior. Anunciam a Palavra de Deus com toda intrepidez (em grego, parrêsía: 4,13.31; 9,27-28; 13,46; 14,3; 18,25-26…), enfrentando toda espécie de conflitos. Começa no centro religioso judaico, que culmina com o martírio de Estêvão (7,54-60); Tiago, irmão de João, também é assassinado por capricho de Herodes (12,2). São várias as acusações e prisões a que são submetidos os que seguem a Jesus (4,1ss; 5,17ss; 12,1ss; 16,16ss; 18,12ss; 21,27ss…). Os discípulos missionários, de lugar em lugar, enfrentam com bom ânimo (euthymía) os sofrimentos decorrentes da missão que receberam de Jesus.

O anúncio do Reino de Deus provoca conflitos, porque se opõe a tudo o que prejudica a dignidade e a fraternidade; porque implica acolhida, diálogo e superação das barreiras sexuais (6,1-6), raciais e culturais (8,26-40; 10,34-35; 15,1ss); porque não suporta atitudes de mentira e corrupção, como a de Ananias e Safira, em Jerusalém (5,1-11); de manipulação do povo, como a de Simão, em Samaria (8,9-24); de tentativa de impedir a graça de Deus, como a de Elimas em Pafos, na ilha de Chipre (13,4-12); de exploração dos dons de uma jovem escrava por parte de seus patrões, em Filipos (16,16-18); de uso do nome de Jesus para proveito próprio, como a dos exorcistas judeus, em Éfeso (19,11-20); de exploração da religiosidade popular, como a dos comerciantes, também em Éfeso (19,23-40)… Há conflitos também com intelectuais gregos, que zombam de Paulo diante do anúncio da ressurreição de Jesus, em Atenas (17,32-33) e em diversos lugares, e com grupos judaicos, devido à sua mentalidade exclusivista e diante dos novos parâmetros de interpretação da Sagrada Escritura (2,12-36; 7,1-54; 10,1-43…).

O Reino de Deus sofre violências. É o selo de autenticação da prática transformadora de Jesus, continuada pelas comunidades cristãs de Jerusalém, de Antioquia, de Chipre, de Corinto, de Éfeso, de Derbe, Listra, Icônio… Mesmo que se ressalte a comunidade de Jerusalém como igreja-mãe e modelo para as outras igrejas (2,42-47; 4,32-35 e 5,12-15), cada igreja local é plenamente ekklêsía. Cada igreja vai tendo um jeito próprio de ser, respondendo aos desafios emergentes, sejam eles de ordem econômica, religiosa ou política, buscando encontrar caminhos de vida plena para todas as pessoas. Em outras palavras, cada igreja vai tendo sua organização e autonomia próprias, unidas pelos princípios fundamentais que caracterizam uma comunidade cristã, com base na prática de Jesus de Nazaré, como o princípio da koinonía – pessoas em comunhão fraterna – e o princípio da diakonía: a serviço umas das outras. Ambos os princípios abrem para a missão ad gentes, realizada em mutirão por um grande número de mulheres e homens. A obra de Lucas prima pela inclusão de gênero no protagonismo evangelizador.

6. Sempre a caminho

As comunidades dos seguidores e seguidoras de Jesus, em Atos dos Apóstolos, são identificadas como “o Caminho” (9,2; 18,24-26; 19,9.23; 22,4; 24,14.22), indicação de uma maneira original de viver, com base na fé em Jesus Cristo. Na obra de Lucas, aparecem 75 vezes os termos “caminho/caminhar/andar”. Isso aponta para um dinamismo evangelizador, em permanente atitude de êxodo: de Jerusalém para o mundo; do Templo para as casas; do legalismo excludente para o amor misericordioso e acolhedor; de um único povo da promessa para a promessa de salvação a todos os povos; da uniformidade/rigidez de doutrina para o diálogo com as diversas culturas; do poder do dinheiro e da eloquência para o amor eficaz a partir dos pequenos e pobres; do individualismo para a partilha comunitária e o serviço mútuo; da timidez, do medo, do comodismo e do desânimo para a intrepidez, a ousadia, o bom ânimo; do centralismo religioso para a autonomia das comunidades na obediência ao projeto do Reino…

Enfim, acolhendo a advertência do patriarca Atenágoras, com a qual se abriu este artigo, a Igreja, em sua relação com a sociedade, é desafiada a caminhar “menos como máquina e mais como a vida”. O evangelho requer atitudes e estruturas que visibilizem e autentiquem o anúncio. Além do mais, o evangelho é a própria pessoa de Jesus, cujo modelo de vida deve inspirar os seus seguidores em todos os tempos. Queira Deus que a Igreja possa testemunhar ao mundo, sedento de vida plena, o que Pedro, junto com João, personalizando as comunidades cristãs, disse ao paralítico colocado à porta do Templo: “Olha para nós… Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo nazareno, levanta-te e anda!” (At 3,1-8).

Fonte: Revista Vida Pastoral

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