Iluminar nosso deserto com as luzes do Natal

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Frei Gustavo Medella

“Alegre-se a terra que era deserta e intransitável, exulte a solidão e floresça como um lírio” (Is 35,1). A primeira palavra da primeira leitura da liturgia dá o tom deste 3º Domingo do Advento, também chamado de “Domingo da Alegria”, ou Domingo Gaudete, num gesto de reverência à nossa língua mãe. Se o termo principal da sentença diz da alegria, não deixa de chamar a atenção o destinatário do convite: “a terra deserta e intransitável”.

Terra deserta e intransitável… Pode ser uma metáfora do coração humano quando se deixa abater pela desilusão, quando se fecha na falta de sentido, quando se torna um reservatório de mágoas e rancor, quando desanima ou quando se deixa tomar por sonhos ilusórios que o enchem de vazio. Torna-se terra inóspita inclusive para Deus que deseja ardentemente nele habitar, para o Menino de Belém, que sonha encontrar ali a manjedoura na qual possa se aninhar. Coração duro, triste coração, deserto…

Convidar este coração à mudança para melhor é tarefa que Deus realiza com insistência e que mais uma vez ganha voz no convite do Profeta: Alegre-se. Deus sempre nos visita, e sempre nos convida a revisitar com olhar renovado a terra, às vezes deserta e intransitável de nosso coração. O problema é que com frequência a nos acomodar em nossas dores, com medo de curá-las e ficar sem saber o que fazer depois.

Esta resistência em rever as próprias mágoas faz lembrar o personagem da música “Mensagem”, gravada por Maria Betânia, entre outros artistas de renome. Uma mulher que diz: “Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou com a carta na mão. Lendo o envelope bonito e, no seu sobrescrito, eu reconheci a mesma caligrafia que disse-me um dia: ‘Estou farto de ti’”. E aí segue a história: Acomodada na incerteza de saber se a carta traria boa ou má notícia, prefere não arriscar e a queima sem abri-la, e assim nunca soube o que o amor de sua vida desejava expressar naquelas linhas.

Como pessoas de fé, precisamos agir diferente. Temos de ter coragem de visitar nossas mágoas e experiências negativas para ressignificá-las à luz do Natal. Este é o caminho da reconciliação interior, do estar em paz consigo mesmo, do encontro verdadeiro com a Alegria que o Senhor nos pode oferecer. A exemplo de João Batista, conforme destacado por Jesus no Evangelho deste Domingo (Mt 11,2-11), façamos de nosso deserto um lugar de anúncio da Salvação, de cultivo da esperança, de renovação do verdadeiro espírito do Natal.

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