Jesus: Rei do quê?

Frei Gustavo Medella

Do bacalhau, do futebol, da coxinha, do piso, do camarote, do caldo de cana… O Rei. Muitas casas de comércio, de negócio e também artistas, esportistas e personalidades ostentam o título junto à especialidade sobre a qual exerceriam o reinado. Desejam transmitir uma ideia de qualidade, profissionalismo, competência e supremacia naquilo que realizam. Reinar significa estar em primeiro lugar. E Jesus? No que foi o melhor, o primeiro, mais hábil e competente para ser celebrado como Rei? O Evangelho deste final de semana (Lc 23,35-43) oferece uma resposta: Jesus foi Rei da entrega e do desprendimento.

No decorrer da narrativa, Jesus é ridicularizado, desafiado e desprezado primeiro pelos chefes, depois pelos soldados e, por fim, por um dos dois homens que o ladeavam na mesma condição de crucificados. Desce o grau na hierarquia (chefe-soldado-condenado) e permanece a atitude de quem não pode compreender o reinado que Jesus veio propor. No entanto, como último fio de esperança, como derradeira gota de bom senso, aparece a voz dissonante do outro crucificado, incapaz de compreender os injustos suplícios infligidos àquele justo. Este deixou-se tocar pela inspiração divina e, diante do sofrimento pelo qual estava passando, soube ir ao encontro da única força que seria capaz de fazê-lo suportar tamanha contradição. Na cena, o único que consegue realmente compreender a proposta de Jesus. Se Cristo, como “Novo Adão”, reabre as portas do Paraíso, aquele crucificado é o primeiro a adentrar pela porta aberta às custas da entrega generosa e corajosa do Filho de Deus.

Parece contraditório, mas o Filho de Deus pregado e preso ao madeiro é sinal incontestável do máximo grau de desprendimento e liberdade. Para chegar a tal extremo, Cristo despega-se de toda e qualquer segurança e preocupação para entregar-se com plena disponibilidade ao projeto do Reino que veio instaurar, no mais alto grau de coerência. É o Rei que se faz nu com plena consciência da própria nudez. Provocativo e atual o modelo de Reinado apresentado pelo Cristo. Se compreendido fosse, certamente haveria no mundo menos disputa e mais colaboração, menos consumo e mais doação, menos “eu” e mais “nós”, menos dor e mais amor.

(Fonte: Franciscanos)

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