Notícias › 14/02/2013

Leia aqui a homilia proferida na Quarta-feira de Cinzas

“Queridos irmãos e irmãs!

Iniciamos com toda a Igreja, nesta quarta-feira de cinzas, nossa caminhada quaresmal. Durante quarenta dias, a Igreja oferece mais uma vez tempo forte de preparação para o acontecimento máximo de nossa fé cristã: a Páscoa do Senhor, a vitória da vida sobre as forças da morte. Neste caminho a ser percorrido, somos chamados à conversão, à mudança de nossa vida, tantas vezes entregue a nós mesmos, a nossos velhos hábitos e costumes. O Senhor nos chama para voltarmos para ele os nossos corações, ou seja, todo nosso ser, como ouvimos hoje na primeira leitura da profecia de Joel. Sim, caminhada quaresmal será antes de tudo este retorno ao Senhor: de uma vida centrada em nosso pequeno eu, para uma vida focada no Senhor da Vida. “Voltai para o Senhor, vosso Deus”, ouvimos hoje. Voltemos, retornemos, paremos nosso caminhar aparentemente seguro e conformado ao já dado, e lancemos para a insegurança das águas mais profundas, onde somente o Senhor será nossa segurança. Ele está conosco! Avancemos!

Marcada pela riqueza de toda liturgia de nossa Igreja, a quaresma no Brasil apresenta também o exercício espiritual da Campanha da Fraternidade, reflexões em grupo, a partir de um assunto sempre atual e desafiante. Neste ano, convido cada um aqui em nossa paróquia, a rezarmos pelos jovens, tema deste ano (“Fraternidade e Juventude”). Rezemos por eles mas, sobretudo, com eles. Pois o lema da CF deste ano, nas palavras do profeta Isaías, pertence a cada um de nós: “Eis-me aqui, envia-me”. Que nesta disponibilidade, o Senhor possa contar conosco, como seus colaboradores, como embaixadores do próprio Cristo, no dia a dia de nossas vidas, pois cada dia é tempo favorável, aqui e agora, como nos disse são Paulo na segunda leitura de hoje.

Nesta disponibilidade de uma total entrega ao Senhor, fomos surpreendidos nesta segunda-feira pelo anúncio da renúncia de Sua Santidade o Papa Bento XVI. Após longo período de reflexão, de oração, de exame de sua própria consciência diante de Deus; após considerar as inúmeras exigências de se estar à frente da “barca de Pedro”, com mais de 1 bilhão de católicos em todo mundo; confrontando humildemente tudo isso com suas limitações pessoais, o Papa nos deixa uma grande lição para nossa fé: quem conduz a Igreja é o Espírito do Senhor. Nela, na Igreja, todos nós somos servidores deste Espírito. Na humildade de seu gesto marcante na história, aprendemos: Todo-Poderoso somente Deus! Todo serviço de liderança na Igreja deve sempre ser considerado um peso, uma carga a carregar. Não um status, uma posse, a manifestação de um poder-dominação, mas serviço. E, como tal, a qualquer momento pode ser devolvido, deposto, renunciado. Humildemente Ele decide retirar-se para uma vida reclusa de oração, testemunhando a força mais poderosa que vem da nossa fé, de nossas súplicas dirigidas com confiança à ação de Deus, o Senhor da História. “Voltemos ao Senhor”, nós também, humildemente, neste tempo quaresmal e no percurso de nossos dias.

Humildade e coragem caminham juntas. A pessoa dominada por seus temores quase sempre tende à arrogância, à agressividade, à dominação, à prepotência. Com sua renúncia, aprendemos todos que é preciso coragem para deixar tudo e seguir o Senhor. É preciso a humilde coragem e a coragem humilde para perceber que o Senhor dá e tira, pede para assumir e deixar, para anunciar e denunciar, para aceitar e renunciar. Para isso, o Senhor nos alerta no Evangelho de hoje: “Ficai atentos!” Sem esta atenção, não percebemos quando, por melhor que sejam nossas ações, podem elas estar sendo feitas não para Deus, mas para nossa própria promoção. E importa sempre, em tudo que fazemos ou deixamos de fazer, voltar para o Senhor. Isso vale para cada um de nós e vale também para todo e qualquer Papa (servo servorum Dei), como aprendemos surpresos, nesta segunda-feira.

Queridos irmãos e irmãs, nossa Igreja segue seu percurso na história conduzida pelo Espírito do Senhor e seu santo modo de operar, como nos diz São Francisco de Assis. Sigamos em oração, força poderosa da fé, pelo Papa Bento XVI, pelos cardeais que vão eleger em breve novo Papa, por aquele que for eleito e por cada irmão e irmã cristão e católico, para que conservemos a unidade em meio a tantas diversidades.

São Francisco dizia que a irmã cinza é casta. Resultado daquilo que foi queimado, sem mistura, sem identidade, as cinzas que vamos agora receber sejam um convite ao desapego, à renúncia de nossos apegos e posses, lembrança viva que somos pó e ao pó retornaremos. Na humildade desta quarta-feira de cinzas, dia de jejum e abstinência de carne, retornemos ao Senhor que nos chama à conversão.”

Frei Adriano Freixo Pinto, OFM – Pároco

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