Destaque, Notícias › 10/08/2018

19º Domingo do Tempo Comum

No seguimento de Cristo, todo mundo pode ser anjo

Frei Gustavo Medella

Anjos são seres que doam serviço tanto a Deus quanto à humanidade. Sua ação é sempre a de promover a comunicação e o intercâmbio entre humano e divino. Transmitem mensagens, apontam caminhos, colocam-se como protetores, fazem alertas e advertências, animam os que estão abatidos e dispõem a fazer o que precisa. São uma espécie de factótum da Providência Divina, escoteiros “sempre alerta” das necessidades humanas, um tipo de super -herói dos sonhos infantis.

Na primeira leitura deste 19º do Tempo Comum, o anjo entra em ação para dissuadir o Profeta Elias do desejo de morrer

. Elias triste, desanimado e enfraquecido, deita-se debaixo de uma árvore e pede a própria morte. Mal adormece e vem o anjo para cutucá-lo, para incentivá-lo a comer e apresentá-lo o lanche que tinha à disposição. Elias consumiu o alimento, mas quis voltar a dormir. Novamente o anjo – que sujeito persistente! – cutuca Elias, e o anima a seguir em frente para cumprir a sua missão.

Este episódio ilustra algumas atitudes básicas de quem deseja colocar em prática os ensinamentos de Cristo. Nota-se bem que, antes de dirigir a palavra a Elias, o anjo toca no profeta. O toque é símbolo de aproximação de quem de fato deseja se comprometer com a questão do outro. É um recurso para chamar a atenção daquele que padece de alguma dor e de comunicar a ele, através do gesto: “Pode contar comigo, eu estou aqui!” O movimento seguinte, a palavra, ajuda Elias a se dar conta de que Deus não o abandonara. Muitos são os que se sentem abandonados e uma palavra bem dita é meio eficaz para que voltem a compreender que não estão sozinhos. Do gesto à palavra, da palavra à revelação: o anjo acorda Elias para que ele possa encontrar o alimento de que precisa. O texto bíblico não diz como o pão e água foram parar ali, mas a atitude do anjo mostra o compromisso que o mensageiro de Deus havia assumido em salvar a vida do profeta.

Jesus, o Pão da Vida que mais uma vez se apresenta no Evangelho deste domingo, quer contar com seus seguidores para levar este Pão – que é vida – a todos. No cumprimento desta tarefa, a lição do anjo diante de Elias é preciosa: levar Jesus é um compromisso sério, que exige envolvimento (toque), relação (palavra) e ação (levar o faminto ao pão do qual necessita). No seguimento de Cristo, todo mundo pode ser anjo. Exige esforça, mas vale a pena.


Na foto, os Doutores da Alegria, uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que há mais de duas décadas utiliza a arte lúdica junto a crianças, adolescentes e outros públicos em situação de vulnerabilidade e risco social em hospitais públicos e ambientes adversos.

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Leituras deste 19º Domingo do TC

Primeira Leitura (1Rs 19,4-8)

Leitura do Primeiro Livro dos Reis:

Naqueles dias, 4Elias entrou deserto adentro e caminhou o dia todo. Sentou-se finalmente debaixo de um junípero e pediu para si a morte, dizendo: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais”. 5E, deitando-se no chão, adormeceu à sombra do junípero. De repente, um anjo tocou-o e disse: “Levanta-te e come!”

6Ele abriu os olhos e viu junto à sua cabeça um pão assado debaixo da cinza e um jarro de água. Comeu, bebeu e tornou a dormir. 7Mas o anjo do Senhor veio pela segunda vez, tocou-o e disse: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer”.

8Elias levantou-se, comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus.


Responsório (Sl 33)

— Provai e vede quão suave é o Senhor!
— Provai e vede quão suave é o Senhor!
— Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo,/ seu louvor estará sempre em minha boca./ Minha alma se gloria no Senhor,/ que ouçam os humildes e se alegrem!
— Comigo engrandecei ao Senhor Deus,/ exaltemos todos juntos o seu nome!/ Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu,/ e de todos os temores me livrou.
— Contemplai a sua face e alegrai-vos,/ e vosso rosto não se cubra de vergonha!/ Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido,/ e o Senhor o libertou de toda angústia.
— O anjo do Senhor vem acampar/ ao redor dos que o temem, e os salva./ Provai e vede quão suave é o Senhor!/ Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!


Segunda Leitura (Ef 4,30-5,2)

Leitura da Carta de São Paulo aos Efésios:

Irmãos: 30Não contristeis o Espírito Santo com o qual Deus vos marcou como com um selo para o dia da libertação. 31Toda a amargura, irritação, cólera, gritaria, injúrias, tudo isso deve desaparecer do meio de vós, como toda espécie de maldade. 32Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo.

5,1Sede imitadores de Deus, como filhos que ele ama. 2Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor.


O Pão da Vida

Evangelho: Jo 6,41-51

41 As autoridades dos judeus começaram a criticar, porque Jesus tinha dito: «Eu sou o pão que desceu do céu.» 42 E comentavam: «Esse Jesus não é o filho de José? Nós conhecemos o pai e a mãe dele. Como é que ele diz que desceu do céu?» 43 Jesus respondeu: «Parem de criticar. 44 Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrai, e eu o ressuscitarei no último dia. 45 Está escrito nos Profetas: ‘Todos os homens serão instruídos por Deus’. Todo aquele que escuta o Pai e recebe sua instrução vem a mim. 46 Não que alguém já tenha visto o Pai. O único que viu o Pai é aquele que vem de Deus.

47 Eu garanto a vocês: quem acredita possui a vida eterna. 48 Eu sou o pão da vida. 49 Os pais de vocês comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. 50 Eis aqui o pão que desceu do céu: quem dele comer nunca morrerá.»

Jesus é o pão que sustenta para sempre – * 51 E Jesus continuou: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá para sempre. E o pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida.»


* 35-50: Jesus se apresenta como aquele que veio de Deus para dar a vida definitiva aos homens. Seus adversários não admitem que um homem possa ter origem divina e, portanto, possa dar a vida definitiva.

* 51-59: A vida definitiva se encontra justamente na condição humana de Jesus (carne): Jesus é o Filho de Deus que se encarnou para dar vida aos homens, isto é, para viver em favor dos homens. A vida definitiva começa quando os homens, comprometendo-se com Jesus, aceitam a própria condição humana e vivem em favor dos outros. E Jesus dá um passo além: ele vai oferecer sua própria vida (carne e sangue) em favor dos homens. Por isso, o compromisso com Jesus exige que também o fiel esteja disposto a dar a própria vida em favor dos outros. A Eucaristia é o sacramento que manifesta eficazmente na comunidade esse compromisso com a encarnação e a morte de Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral.


19º Domingo do Tempo Comum, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes”.

Primeira leitura: 1Rs 19,4-8

Com a força que lhe deu aquele alimento,
caminhou até o monte de Deus.

O profeta Elias atuou no reino de Israel na primeira metade do séc. IX aC. Enfrentou o rei Acab e a rainha Jezabel, uma pagã, que promoviam a religião de Baal, um deus pagão. Seguir a Baal era tornar-se infiel a Javé, o Deus que libertou os hebreus do Egito. Elias combatia o programa oficial idolátrico e com isso atraiu as iras da rainha Jezabel, que jurou matá-lo. Apavorado com as ameaças, Elias foge para o deserto ao sul de Judá, cujo rei, Josafá, era então aliado de Acab. Na fuga, Elias refaz de modo inverso a caminhada de Israel pelo deserto rumo à terra prometida. No deserto, Israel murmurava contra os líderes, Moisés e Aarão, mas Deus na sua bondade providenciou água para o povo beber e o maná – “o pão descido do céu” – como alimento. Elias, por sua vez, chega ao deserto desanimado, a ponto de pedir a morte. Cansado de lutar em defesa do Deus da Aliança, deita-se à sombra de uma pequena árvore e adormece. Mas um anjo desperta Elias, por duas vezes, oferece-lhe pão e água e diz: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer”. Revigorado por esse alimento providencial, andou quarenta dias e noites até o monte de Deus. Sentiu-se atraído para esse lugar sagrado, onde Deus havia selado um pacto de amor e fidelidade com Israel. Para quem tem fé, Jesus é o pão do céu enviado pelo Pai, pão que sustenta na caminhada da vida cristã e garante a vida eterna (Evangelho).

Salmo responsorial: Sl 33

Provai e vede quão suave é o Senhor.
Segunda leitura: Ef 4,30–5,2
Vivei no amor, a exemplo de Cristo.

No domingo passado, o apóstolo Paulo nos convidava a despir o homem velho e vestir o homem novo, identificando-se com Cristo. Na exortação de hoje mostra como esta identificação com Cristo pode acontecer. Em primeiro lugar, não causar tristeza ao Espírito Santo, selo de amor com que fomos marcados no batismo. Em segundo lugar, evitar toda espécie de maldade que possa causar amargura, gritaria ou injúria às pessoas com as quais convivemos. Em terceiro lugar, ser bondoso, compassivo e perdoar a exemplo de Cristo, que nos amou e deu sua vida por nós. Assim, como filhos amados por Deus, seremos seus imitadores e discípulos (Evangelho).

Aclamação ao Evangelho: Jo 6,51

Eu sou o pão vivo descido do céu, quem deste pão come,
sempre há de viver. Eu sou o pão vivo descido do céu.

Evangelho: Jo 6, 41-51

Eu sou o pão que desceu do céu.

No domingo passado Jesus se apresentava aos judeus como o verdadeiro pão do céu, que dá vida ao mundo. O Pai – e Ele mesmo – é que dará este pão aos que nele crerem. Então os judeus pediram: “Dá-nos sempre desse pão”. Em resposta Jesus questionava a fé deles porque não reconheciam que Ele veio de Deus. A vontade do Pai é que todos os que creem no Filho ressuscitem e tenham a vida eterna. No texto de hoje, parece que os judeus entendem o sentido simbólico do pão. Mas põem em dúvida que Jesus veio de Deus, pois sabiam que era o filho de José, todos conheciam seu pai e sua mãe. Jesus responde que, para terem a vida eterna (ressurreição), é necessário que o Pai os atraia. Mas para ser atraído pelo Pai é preciso conhecê-lo. Em princípio, Deus quer atrair todas as pessoas, porque “todos serão ensinados por Deus”. O caminho para isso é tornar-se discípulo e ser ensinado pó Jesus, pois é Ele que revela a face do Pai: “Se conhecêsseis a mim, conheceríeis também a meu Pai” (Jo 8,19). Ser atraído pelo Pai, portanto, é conhecer a Jesus e segui-lo como discípulo: “Conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai” (10,14-15). Os hebreus que comeram o maná no deserto todos morreram. Mas quem comer desse pão descido do céu jamais morrerá. Por fim, Jesus se identifica com esse pão que ele mesmo dará: “Eu sou o pão vivo descido do céu… E o pão que eu darei é minha carne dada para a vida do mundo”. Essa frase aponta para a Eucaristia e será o início do evangelho do próximo domingo. Portanto, o Filho de Deus encarnado é o pão vivo que nos alimenta pela sua palavra e pela Eucaristia, memória da doação total de sua vida pela nossa salvação e, ao mesmo tempo a memória do que Jesus fez durante sua vida pública.

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O próprio Senhor será o mestre do povo

Frei Clarêncio Neotti

Os judeus aceitavam a autoridade dos profetas mortos, ao menos formalmente. Jesus apela para o argumento da autoridade e cita (v. 45) um texto adaptado de Isaías ou de Jeremias. Na nova Jerusalém (quando viesse o Salvador), “todos serão discípulos do Senhor” (ls 54,13). “Quando eu fizer a aliança nova … ninguém ensinará, porque todos me reconhecerão, dos maiores aos menores, … já que escreverei a minha lei em seu coração” (Jr 31,33-34). Os tempos chegaram. Os que ali escutavam Jesus ouviam o próprio Deus e dele eram discípulos. E porque só ele “está junto de Deus” (v. 46), só ele é a voz do Pai. E está dizendo, com toda a autoridade, que veio do céu como enviado do Pai para dar a vida eterna aos homens, e essa vida é dada pela comida de sua carne (v. 51). Mas não é o comer eucarístico que dá a vida, mas a fé no Senhor Jesus (v. 47).

Ainda uma observação. Neste capítulo, fala-se muito em ‘vida eterna’. Eterno, aqui, não quer dizer só a vida depois da morte. Tanto indica a vida depois da morte quanto a vida presente, porque ‘eterno’, aqui, é sinônimo de ‘divino’. Quem crê participa, já na vida presente, da vida divina. No capítulo anterior, Jesus dissera: “Quem escuta a minha palavra tem a vida eterna” (Jo 5,24). O verbo no presente refere-se à vida de agora, que se torna vida divina pela vivência crística. A palavra ‘vivência’ traduz bem o ‘escutar’ do Evangelho de João.

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Entrando na sala da Ceia…

Frei Almir Guimarães

Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que vos darei é minha vida para o mundo (Jo 6,51)

O discurso sobre o pão da vida de João sempre nos toca  profundamente. Ressoa dentro de nós de maneira maravilhosa ouvir estas palavra: “Eu sou o pão da vida!”. Missa, Eucaristia, Ceia do Senhor, Pão da vida, cálice da salvação. Todas essas expressões se entrelaçam. Desde a mais tenra infância, nós, católicos, conhecemos tais realidades. Crianças ainda, sem possibilidade de compreender todo o alcance daquilo que tínhamos diante dos olhos, já havíamos nos aproximado do Pão da Vida. Fizemos nossa primeira comunhão. Comungávamos em jejum, sem mastigar a hóstia! Entre os mais belos títulos de Jesus, certamente figura este sustento profundo de nossas existências: pão da vida. Ele veio do Pai para sustentar o mundo.

Não podemos deixar de evocar certos fatos e dados essenciais.  Era a véspera de sua paixão. Ele reúne os seus. Depois de acolhê-los numa sala bonita e preparada para este encontro com os seus, que seria o último, Jesus lava os pés dos convivas. Executa a tarefa do servo, aquele que faz as coisas simples, que ama tornando-se despojamento.  Volta para o centro da mesa, depois de retomar o manto que havia deixado para exercer o serviço humilde (retomando a divindade?). Já estava dando a vida. Sem pompa, sem grandezas exteriores. Tinha estado vergado sobre o serviço dos homens que o Pai amava.

Pão, meu corpo que é dado, cálice do sangue derramado, dom de mim mesmo, expressão mais acabada de um amor serviço. Tomai e comei.  Tomai e bebei. Na realidade o verdadeiro lava-pés e o autêntico dom do corpo e do sangue aconteceriam no alto da montanha do Gólgota no dia seguinte. Dom da vida, vida que ele entregava nas mãos do Pai.  Queria ele que, depois, os seus se reunissem para fazer sua memória. Queria e ordenava que procurassem tomar o pão e o vinho, que reunidos na fé e na audição da Palavra, fizessem a sua fortíssima memória.  No pão e no vinho ele marcaria presença.

Missas, celebrações eucarísticas por vezes realizadas em solenes templos e ricas basílicas, outras vezes em capelinhas simples  perdidas dos interiores. Missa presidida pelo Papa Francisco em grande praças, missa de um padre velhinho no lusco fusco de um igreja, de manhã.  Belas essas missas celebradas em espaços pequenos, sem muito ruído, poucas pessoas e a certeza de uma mesa, mesa do pão e do vinho.

Lava-pés e ceia são realidades atuais. Quando celebramos a Eucaristia não fazemos uma encenação piedosa. Trata-se de um movimento no qual nos envolvemos.

Cremos nesse Jesus que veio do seio do Pai e nos cativou. Conhecemo-lo através da tradição dos primeiros discípulos que chegaram até nós e que foi guardada.  O básico é realmente acolher esse Jesus de ontem e de sempre. Ele irrompe em nossas vidas de modo especial quando não nos acomodamos a um projeto de vida pequeno, feito de interesses pessoais, de lucros e de vantagens.  Há momentos na trajetória de muitos em que a vida perde completamente o seu sabor e se tem uma fome diferente.  Nesses momentos por graça, pelo testemunho de outros, esse Jesus vivo e ressuscitado irrompe em nossas vidas e quer que sejamos dons, que esvaziemo-nos de nós mesmos e que tenhamos a coragem de ir dando nossa ida pela vida do mundo, como ele fez.  Por isso, a missa não é uma obrigação pesada e ritualística, mas uma necessidade.. No regime dos sinais, nas aparências do bom e do vinho nos unimos ao amor de Jesus, Pão da vida.

Não basta assistir à celebração da Eucaristia. Somos convidados a comer e a beber. Reunimo-nos nesta ceia para cada vez mais nos identificarmos com  Cristo, acolhendo sua palavra e alimentando-nos com seu corpo e seu sangue.  Nunca haveremos de nos esquecer  que quando comungamos entramos em contato com aquele que teve uma vida entregue. Somos daqueles que não queremos viver fechados em nós mesmos, mas pessoas que entregam a vida e que, a partir de nossa pequenez queremos tornar mais humana a vida à nossa volta.

Prece

Vives no pão, partido e compartilhado.
Vives na taça redonda do vinho.
Banquete de pobres, refeição de mendigos,
companheiro fiel, amigo entre amigos.
Dilacerado pelos homens e nos homens vivo,
quando nos juntamos e nos pomos a caminho.
Cantamos tua morte, amigo da vida.
Vives no pão partido e compartilhado.
Vives na taça redonda de vinho.

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Não é normal

José Antonio Pagola

A muitos homens e mulheres de minha geração, nascidos em famílias crentes, batizados com poucos dias de vida e sempre educados num ambiente cristão, poderia ter sucedido o mesmo que a mim. Respiramos a fé de maneira tão natural que podemos chegar a pensar que o normal é ser crente.

É curiosa a nossa linguagem. Falamos como se crer fosse o estado mais normal. Quem não adota uma postura crente diante da vida é considerado como um homem ou uma mulher a quem falta algo. Então o designamos com uma forma privativa: “in-crente” ou “in-crédulo”. Não nos damos conta de que a fé não é algo natural, mas um dom imerecido. Os incrédulos não são pessoas tão estranhas como pode parecer-nos. Ao contrário, nós cristãos é que temos que reconhecer que parecemos bastante estranhos.

É normal ser hoje discípulos de um homem injustiçado pelos romanos há vinte séculos, do qual proclamamos que ressuscitou dentre os mortos, porque era nada menos que o Filho de Deus feito homem? É razoável esperar num além que poderia ser somente a projeção de nossos desejos e o engano colossal da humanidade?

Não é surpreendente pretender acolher o próprio Cristo em nossa vida, alimentando-nos de seu corpo e seu sangue em ritos e celebrações de caráter tão arcaico? Não é uma presunção rezar crendo que Deus nos ouve, ou ler os livros sagrados pensando que Deus está nos falando?

O encontro com incrédulos que nos manifestam honradamente suas dúvidas e incertezas pode ajudar a nós cristãos de hoje a viver a fé de maneira mais realista e humilde, mas também com maior alegria e gratidão.

Ainda que nós cristãos tenhamos razões para crer – do contrário deixaríamos de crer – a fé, como diz são Paulo, “não se fundamenta na sabedoria humana” A fé não é algo natural e espontâneo. É um dom imerecido, uma aventura extraordinária. Um modo de “estar na vida” que nasce e se alimenta da graça de Deus.

Nós crentes deveríamos escutar hoje de maneira bem particular as palavras de Jesus: “Não critiqueis. Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrair”. Mais do que encher nosso coração de críticas amargas, devemos abrir-nos à ação do Pai.

Para crer é importante enfrentar a vida com sinceridade total, mas é decisivo deixar-se guiar pela mão amorosa desse Deus que conduz misteriosamente nossa vida.

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Jesus, Pão descido do céu

Pe. Johan Konings

Continuamos nossa meditação sobre o capítulo 6 de João, que constitui o fio das leituras dominicais por este tempo. No domingo passado, Jesus se apresentou como o pão descido do céu, com palavras que lembravam as declarações de Isaías sobre a palavra e o ensinamento de Deus. Hoje aprofundamos o sentido disso. Jesus é alimento da parte de Deus por ser a Palavra de Deus (Jo 1,1), que nos faz viver a vida que está nas mãos de Deus – a vida que chamamos de “eterna”. (Esta não é mero prolongamento indefinido de nossa vida terrestre, o que não valeria a pena, mas é “de outra categoria”: da categoria de Deus mesmo. Neste sentido, vida eterna e vida divina são sinônimos).

Jesus nos alimenta para essa vida divina por tudo aquilo que ele é e fez. Sua vida é o grande ensinamento que nos encaminha na direção do Pai. Na antiga Aliança, Moisés e seus sucessores ensinavam o povo, mas nem sempre de melhor maneira. Agora, realiza-se a Nova Aliança, em que todos se tornam discípulos de Deus (Jo 6,45; Jr 31,33; Is 54,13). Quem escuta Jesus, que é a Palavra de Deus em pessoa, não precisa mais de intermediários (Jo 1,17). Ninguém jamais viu Deus, a não ser aquele que desce de junto dele, o Filho que no-lo dá a  conhecer (6,46; cf. 1,18). Jesus conhece Deus por dentro. Escutando Jesus, aprendemos a  conhecer Deus, sem mais intermediários.

Escutar Jesus alimenta-nos para a vida com Deus, para sempre. Ora, João diz que quem crê já tem a vida eterna (5,24). Como é essa vida eterna, divina? Será talvez esse bem-estar incomparável que sentimos quando ficamos mortos de cansaço por nos termos dedicado aos nossos irmãos até não poder mais? Quando arriscamos nossa vida na luta pela justiça e o amor fraterno. Quando doamos o melhor de nós, material e espiritualmente. A felicidade de quem dá sua vida totalmente. Pois é isso que Jesus nos ensina da parte de Deus. E porque ele fez isso, ele é o ensinamento de Deus em pessoa.

Para Israel, o ensinamento de Deus está na Escritura e na tradição dos mestres: é a Torá, a “Instrução” (termo traduzido de modo inadequado por “Lei”). Para nós, a Torá viva é Jesus.

Sabemos que o tipo de vida que Jesus nos mostra e ensina é endossado por Deus, como ele comprovou ressuscitando seu filho dentre os mortos. É a vida que Deus quer. E o pão que alimenta essa vida é Jesus. Alimenta-a pela palavra que falou, pela vida que viveu, pela morte de que morreu: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu…. O pão que eu darei é minha carne dada para a vida do mundo”(6,51, evangelho do próximo dom.).

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