Destaque, Notícias › 18/08/2017

Maria nos ajude contra o dragão da maldade!

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Frei Gustavo Medella

“Então apareceu outro sinal no céu: um grande dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres e, sobre a cabeça, sete coroas” (Ap 12,3). Não era pequeno este dragão, afinal, diz o texto bíblico, com a cauda varria a terça parte das estrelas do céu. Dragão devorador, pronto para destroçar o recém-nascido prestes a vir ao mundo a partir da parturiente vestida de Sol (Cf. Ap 12,2.4). Dragão que não quer deixar a vida nascer. Dragão da morte.

Onde mora este dragão, em que condições ele nasce, cresce, se fortalece e se manifesta? Do que ele se alimenta? Como pode ser combatido? Estas perguntas, que fazem lembrar a chamada de um conhecido programa jornalístico semanal das noites de sexta-feira, podem oferecer algumas pistas que nos auxilia numa certa aproximação alegórica do que se convencionou chamar “mistério do mal”.

Este dragão pode se criar no próprio coração humano quando este se “habitua” a um ambiente de indiferença, desrespeito, intolerância, injustiça, egoísmo, ganância e falta de amor. Esta “multimistura” oferece ao dragão um crescimento galopante de maneira que, sem caber mais no limite de um coração, se espalha gerando morte, medo e destruição. Dragão de intolerância e fanatismo que leva um ser humano, gente como a gente, a pegar uma van para atropelar e ferir e matar gente como ele e como a gente. Dragão da ganância daqueles que – gente como a gente – só querem ganhar à custa de sacrifício e exploração de gente como eles, como a gente. Dragão maldito que mora no coração das dondocas da elite paulistana capazes  de explorar como escrava a empregada filipina. Dragão da hipocrisia mascarado em sorrisos montados à custa de botox. Dragão do homem público que usa dinheiro, não seu, mas de gente como a gente, para corromper, subornar e obter para si, ainda que à custa do aperto do pobre, um mundo de vantagens e benefícios a que aqueles de quem ele rouba jamais terão acesso. Dragão desonesto, desumano, corrompido, que filtra o mosquito e deixa passar o camelo, que tira R$ 10,00 do salário mínimo do pobre e oferece bilhões e um mundo de facilidades a megaempresários e banqueiros… Dragão que nasce e cresce no coração de gente – como a gente – e, por isso, tenhamos muito cuidado.

Dragão que deve ser combatido ainda no ninho com o antídoto do amor, da generosidade, do respeito, do espírito de serviço, da partilha e da solidariedade. Dragão que não se cria onde gente se esforça e luta para libertar e promover mais gente. Dragão que corre quando vê e contempla a Glória de Nossa Senhora quando ela canta: “O Poderoso fez em mim Maravilhas” e todos os outros versos do belo Magnificat. O que o espanta não é a força bélica nem a suntuosidade do ambiente onde se encontra a “Gloriosa”, afinal trata-se da porta de entrada da casa de uma mulher idosa e pobre de uma pequena cidade da Judeia. A Glória de Maria, aquela que foi levada aos céus, é poder colocar-se a serviço de quem precisa, como sua prima precisava naquele momento. Gente servindo gente. Que a Senhora da Glória nos treine para sermos combatentes corajosos e dispostos do dragão perigoso que insiste em devorar, a partir de dentro, nossos sonhos, nossas esperanças e nossa humanidade.

 

João aponta o Messias

1ª Leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-a.10ab
Sl 44
2ª Leitura: 1Cor 15,20-27a
Evangelho: Lc 1,39-56

39 Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, às pressas, a uma cidade da Judéia. 40 Entrou na casa de Zacarias, e saudou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança se agitou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com um grande grito exclamou: «Você é bendita entre as mulheres, e é bendito o fruto do seu ventre! 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar? 44 Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu.»

O cântico de Maria -* 46 Então Maria disse:

«Minha alma proclama a grandeza do Senhor,

47 meu espírito se alegra em Deus, meu salvador,

48 porque olhou para a humilhação de sua serva.

Doravante todas as gerações me felicitarão,

49 porque o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é santo,

50 e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração.

51 Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração,

52 derruba do trono os poderosos e eleva os humildes;

53 aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias.

54 Socorre Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia,

55 conforme prometera aos nossos pais – em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre.»

56 Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa.


* 39-45: Ainda no seio de sua mãe, João Batista recebe o Espírito prometido (1,15). Reconhece o Messias e o aponta através da exclamação de sua mãe Isabel.
* 46-56: O cântico de Maria é o cântico dos pobres que reconhecem a vinda de Deus para libertá-los através de Jesus. Cumprindo a promessa, Deus assume o partido dos pobres, e realiza uma transformação na história, invertendo a ordem social: os ricos e poderosos são depostos e despojados, e os pobres e oprimidos são libertos e assumem a direção dessa nova história.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

 

Assunção de Nossa Senhora

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que elevastes à glória do céu em corpo e alma a imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória”.

1. Primeira leitura: Ap 11,19a; 12,1.3-6ab.10ab

Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés.

O texto que ouvimos utiliza uma linguagem simbólica, de tipo apocalíptico, linguagem apropriada para revelar o agir de Deus na história do seu povo. O templo que se abre não é mais o segundo templo de Jerusalém, reconstruído após o exílio, mas é o templo escatológico, do fim dos tempos. A antiga arca da aliança, guardada no templo, marcava a presença do Deus que libertou seu povo da escravidão do Egito. Lembrava também a aliança que Deus fez com Israel no monte Sinai. A arca desapareceu quando Jerusalém foi destruída pelos babilônios. Segundo a lenda, a arca foi escondida numa caverna pelo profeta Jeremias, para ser reapresentada “quando de novo Deus for propício e reunir a comunidade” (2Mc 2,5-8). Segundo o vidente do Apocalipse, a arca da aliança reaparecerá no Templo da nova Jerusalém, substituindo a antiga aliança pela nova e definitiva aliança com Deus (Ap 21,1-4). A mulher com a coroa de doze estrelas simboliza o povo de Israel do qual nasceu o Messias, e também Maria, a mãe do Messias. A criança (Messias) recém-nascida, ameaçada pelo dragão, representa a Igreja perseguida. O dragão/serpente é o mesmo dragão cuja cabeça a primeira Eva haveria de esmagar (cf. Gn 3,15) e, de fato, esmagou por Maria Mãe de Jesus, o qual nos trouxe a salvação (Ap 12,10).

Trata-se de um texto cheio de esperança para a comunidade cristã perseguida, no tempo do vidente João. Maria assunta ao céu resume em si toda a certeza do triunfo e da glória do povo de Deus. O dragão ameaça a criança recém-nascida, isto é, a vida da jovem comunidade cristã. No Evangelho, Isabel e Maria geram a vida que renova e traz salvação para a comunidade. Hoje, o dragão ameaçador é o capitalismo consumista, que devora as riquezas de nossa “casa” comum. Ameaça não só a humanidade, mas a própria vida do planeta Terra. Que a Virgem Maria, Assunta ao Céu, nos proteja e nos ajude a esmagar a cabeça do dragão, símbolo das forças do mal.

Salmo responsorial: Sl 44(45)

À vossa direita se encontra a rainha,
com veste esplendente de ouro de Ofir.

2. Segunda leitura: 1Cor 15,20-27a

Cristo, como primícias; depois os que pertencem a Cristo.

Paulo nos diz que a ressurreição dos mortos acontece numa ordem de sequência, onde Cristo é o primeiro dos ressuscitados e garantia de nossa futura ressurreição: “Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda”. Ninguém melhor do que Maria pertence ao seu Filho. A fé nos diz que em Maria já se realizou esta ressurreição, que todos nós esperamos, quando morrermos. Então, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26).

Aclamação ao Evangelho

Maria é elevada ao céu,
alegram-se os coros dos anjos.

3. Evangelho: Lc 1,39-56

O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor:
elevou os humildes.

O Cântico de Maria revela a pedagogia de Deus: Deus opera “grandes coisas”, isto é, a obra de nossa salvação, através da humildade de Maria, a serva do Senhor. No encontro das duas mães, Maria e Isabel, encontram-se também as crianças, João Batista (o Precursor) e Jesus (o Salvador prometido). Pela saudação de Maria comunicam-se as mães. Mas o louvor de Isabel a Maria – aquela “que acreditou” – brota do reconhecimento prévio da presença do Messias Jesus pelo seu filho João. No seio de Isabel o filho se agita, dá o alarme e, cheia de alegria, ela exclama: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar?” É o encontro do tempo da promessa, que termina com João Batista, com o tempo da realização da promessa, que se inicia com Jesus. Torna-se verdadeiro o que diz o salmo: “Da boca das criancinhas tiraste o teu louvor” (Sl 8,3). De fato, Isabel louva Maria e Maria põe-se a louvar o Senhor, que fez grandes coisas nela e por meio dela, ao gerar em seu seio o Salvador do mundo. Assim se manifesta o amor misericordioso de Deus, para Israel, seu povo, e para toda a humanidade. Maria é Assunta ao céu. Maria que em sua vida colocou-se a serviço de Deus, por obra do Espírito Santo acolheu em seu ventre o Filho de Deus e tornou-se a serva do Senhor. Ao final de sua vida foi definitivamente atraída/assumida por Deus: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23).

Na Solenidade da Assunção de Maria ao Céu, o louvor de Maria torna-se o nosso louvor. “Terminado o curso de sua vida terrena”, Maria foi assunta em corpo e alma ao Céu significa que nela já se realizou de modo absoluto a vida em Deus. Pois “a morte liberta a semente de ressurreição que se esconde dentro da vida mortal”. Para nós, a Assunção significa que aquilo que “Maria vive agora, no corpo e na alma, o que nós iremos também viver quando morrermos e formos ao céu” (L. Boff).

 

Crer é outra coisa

José Antonio Pagola

Estamos vivendo uns tempos em que, cada vez mais, o único modo de poder crer verdadeiramente será, para muitos, aprender a crer de outra maneira. Já o grande convertido John Henry Newman anunciou esta situação quando advertia que uma fé passiva, herdada e não repensada terminaria, entre as pessoas cultas, em “indiferença» e, entre as pessoas simples, em “superstição”. É bom recordar alguns aspectos essenciais da fé.

A fé é sempre uma experiência pessoal. Não basta crer naquilo que outros nos pregam a respeito de Deus. Definitivamente, cada um só crê naquilo que ele crê verdadeiramente no fundo de seu coração diante de Deus, não naquilo que ouve os outros dizerem. Para crer em Deus é necessário passar de uma fé passiva, infantil, herdada, para uma fé mais responsável e pessoal. Esta é a primeira pergunta: creio em Deus ou naqueles que me falam dele?

Na fé nem tudo é igual. É preciso saber distinguir entre o que é essencial e o que é acessório, e, depois de vinte séculos, existe muito de acessório em nosso cristianismo. A fé daquele que confia em Deus está para além das palavras, das discussões teológicas e das normas eclesiásticas. O que define um cristão não é o ser virtuoso ou observante, mas o viver confiando num Deus próximo pelo qual a pessoa se sente amada incondicionalmente. Esta pode ser a segunda pergunta: confio em Deus ou fico aprisionado em outras questões secundárias?

Na fé, o importante não é afirmar que se crê em Deus, mas saber em que Deus se crê. Nada é mais decisivo do que a ideia que cada um se faz de Deus. Se creio num Deus autoritário e justiceiro, acabarei procurando dominar e julgar a todos. Se creio num Deus que é amor e perdão, viverei amando e perdoando. Esta pode ser a pergunta: em que Deus eu creio: num Deus que corresponde às minhas ambições e interesses ou no Deus vivo revelado em Jesus?

A fé, por outro lado, não é uma espécie de “capital” que recebemos no batismo e do qual podemos dispor para o resto da vida. A fé é uma atitude viva que nos mantém atentos a Deus, abertos cada dia ao seu mistério de proximidade e amor a cada ser humano.

Maria é o melhor modelo desta fé viva e confiante. É a mulher que sabe ouvir a Deus no fundo de seu coração e vive aberta a seus desígnios de salvação. Sua prima Isabel a elogia com estas palavras memoráveis: “Feliz és tu, que creste!” Feliz também tu, se aprenderes a crer. É a melhor coisa que te pode acontecer na vida.

Trecho extraído do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.

 

Magnificat: a mãe gloriosa e a grandeza dos pobres

Pe. Johan Konings

Em 1950, o Papa Pio XII definiu a Assunção de Maria como dogma, ou seja, como ponto referencial de sua fé. Maria, no fim de sua vida, foi acolhida por Deus no céu “com corpo e alma”, ou seja, coroada plena e definitivamente com a glória que Deus preparou para os seus santos. Assim como ela foi a primeira a servir Cristo na fé, ela é a primeira a participar na plenitude de sua glória, a “perfeitissimamente redimida”. Maria foi acolhida completamente no céu porque ela acolheu o Céu nela – inseparavelmente.

O evangelho de hoje é o Magnificat de Maria, resumo da obra de Deus com ela e em torno dela. Humilde serva – nem tinha sequer o status de mulher casada -, ela foi “exaltada” por Deus, para ser mãe do Salvador e participar de sua glória, pois o amor verdadeiro une para sempre. Sua grandeza não vem do valor que a sociedade lhe confere, mas da maravilha que Deus opera nela. Um diálogo de amor entre Deus e a moça de Nazaré: ao convite de Deus responde o “sim” de Maria, e à doação de Maria na maternidade e no seguimento de Jesus, responde o grande “sim” de Deus, a glorificação de sua serva. Em Maria, Deus tem espaço para operar maravilhas. Em compensação, os que estão cheios de si mesmos não deixam Deus agir e, por isso, são despedidos de mãos vazias, pelo menos no que diz respeito às coisas de Deus. O filho de Maria coloca na sombra os poderosos deste mundo, pois enquanto estes oprimem, ele salva de verdade.

Essa maravilha, só é possível porque Maria não está cheia de si mesma, como os que confiam no seu dinheiro e seu status. Ela é serva, está a serviço – como costumam fazer os pobres – e, por isso, sabe colaborar com as maravilhas de Deus. Sabe doar-se, entregar-se àquilo que é maior que sua própria pesa. A grandeza do pobre é que ele se dispõe para ser servo de Deus, superando todas as servidões humanas. Mas, para que seu serviço seja grandeza, tem que saber decidir a quem serve: a Deus ou aos que se arrogam injustamente o poder sobre seus semelhantes. Consciente de sua opção, o pobre realizará coisas que os ricos, presos na sua autossuficiência, não realizam: a radical doação aos outros, a simplicidade, a generosidade sem cálculo, a solidariedade, a criação de um homem novo para um mundo novo, um mundo de Deus.

A vida de Maria, a “serva”, assemelha-se à do “servo”, Jesus, “exaltado” por Deus por causa de sua fidelidade até a morte (Fl 2,6-11). O amor torna semelhantes as pessoas. Também a glória. Em Maria realiza-se, desde o fim de sua vida na terra, o que Paulo descreve na 2ª leitura: a entrada dos que pertencem a Cristo na vida gloriosa do pai, uma vez que o Filho venceu a morte.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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