Destaque, Notícias › 21/07/2017

Nem sempre “agora” é o melhor momento

16º domingo do Tempo Comum

Frei Gustavo Medella

“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração”.

Carlos Drummond de Andrade

A estrofe acima faz parte do poema de “Sete Faces”, do mineiro Carlos Drummond de Andrade. Apresenta certo espanto do autor diante da complexidade do mundo interior que cada ser humano traz em si. Brilhante a intuição do poeta em perceber que todo o dinamismo do mundo externo faz ecos e representa a trama de pensamentos, sentimentos, expectativa, medos e valores que as pessoas trazem no coração.

E é por este entrelaçado novelo de humanidade que Deus se interessa. Dono de todo poder, conforme atesta o Livro da Sabedoria, não resolve as questões a partir de um automatismo maquinal que promete soluções mágicas, mas respeita o tempo e os processos de cada um de seus filhos e filhas (Cf. Sb 12,18). Além de Justiça e Bondade, o Deus de Jesus Cristo também se revela Paciência.

Nesta dinâmica se pode compreender a Parábola do Joio e do Trigo. A pressa dos empregados em resolver logo o problema é compreensível. Quanto antes estivessem livres daquela ameaça, tanto melhor. Melhor ainda se o joio não tivesse sido semeado. Seria a situação ideal. No entanto, diante da realidade das duas sementes que coabitam a mesma terra, a sabedoria do Senhor revela que o mais prudente e recomendável é esperar a hora da colheita, quando trigo e joio se tornarem identificáveis.

Assim caminha o ser humano, entre o cenário que sonha e aquele que vive na realidade. Administrar os próprios dramas internos e lidar com as situações exteriores que são contrárias é tarefa desafiadora, que deve ser empreendida à luz da fé. Acreditar que, mesmo quando o joio parece predominar, as boas sementes da graça de Deus continuam presentes e vão dar os frutos no tempo oportuno é a grande lição que o Evangelho deste 16º Domingo do Tempo Comum apresenta. É o convite para uma espera ativa e cheia de esperança de quem deseja trabalhar pela construção do Reino.

Confira o vídeo da TV Franciscanos:


Os gemidos do Espírito (Frei Almir Guimarães)

O Espírito intercede em nosso favor com gemidos inefáveis.

Sempre de novo retomamos nossa reflexão sobre o tema a oração. Esse empenho de buscar o rosto e o coração de Deus, esse desejo de estar com ele não pode nos largar. Temos a vida toda para nos “aperfeiçoar” na arte do encontro.

Que dizer sobre a oração? Sabemos tudo a seu respeito, mas não conseguimos ser peritos na arte de rezar.

Antes de tudo será preciso cultivar um espírito de admiração diante do Mistério. Não se trata antes de tudo de dizer palavras, de encadear ideias. Não é questão de transformar os momentos de oração num peditório mais ou menos meio desconexo, sempre buscando nossos interesse, nossas coisas, a resolução de nossos problemas.

Antes tudo será preciso mergulhar no silêncio de palavras e de nós mesmos. Preciso será tirar as sandálias dos pés. Estar de graça diante do Senhor. Não se trata do que se realiza no campo da “obrigação”. Os que se amam, se buscam.

Ficar firme não apenas um dia, mas sempre. Deixar-se envolver pelos salmos, respirar Deus. Paulo nos ensina a verdadeira oração. O Espírito vem em socorro de nossa fragilidade. Ele, o sopro, o vento, o hálito vai tomando conta de Deus. Esse Espírito que vem do Pai e do Filho se instala em nós e recolhe nossos seres mais íntimos, nossos desejos mais profundos, nossos anseios mais verdadeiros.

Paulo fala dos gemidos inefáveis do Espírito.

Não somos nós que rezamos mas o Espírito que ora em nós.

“Quando estamos em oração e alcançamos o fundo de nossos corações e percebemos os anseios que nele estão, sentimos que não somos mais, somente, pessoas que habitam a face da terra, mas sim pessoas que também habitam os céus, e nos unimos a Deus. Tente, quando iniciar esse exercício espiritual, pensar em tudo o que você faz por causa dos anseios que estão em seu coração. Sinta com seu coração transcende a este mundo, em como ele se une ao infinito e incondicional amor de Deus, em absoluta segurança. E ore. Você não precisa dizer nada. Os suspiros que estão em seu coração são os suspiros do Espírito Santo. O próprio Espírito Santo ora em você. A única coisa que você precisa fazer é dar espaço para ele. Então, o Espírito Santo conduzirá a um mundo de confiança, ao modo íntimo de amor do Pai. Junto com Jesus você pode dizer ao Criador do céu e da terra: “Abba,querido Pai”. Junto com Jesus você se reconhece filho e filha de Deus. Você não é mais um escravo, não precisa mais seguir nenhuma regra, você está liberto, é liberto com filho e filha amados de Deus. Esta é a verdadeira vida” (Anselm Grün, Exercícios Espirituais para o dia a dia, Vozes, p. 62-63).


Sem condenar a ninguém (José Antonio Pagola)

Vivemos numa sociedade onde é fácil observar um fato que alguns autores chamam “disseminação religiosa”. Podemos encontrar-nos hoje com crentes piedosos e com ateus convictos, com pessoas indiferentes ao religioso e com adeptos de novas religiões, com gente que crê vagamente em “algo” e com indivíduos que fizeram uma “religião à la carte” para seu uso particular, com pessoas que não sabem se creem ou não creem, e com pessoas que desejam crer e não sabem como fazê-lo.

Apesar de vivermos juntos e encontrar-nos diariamente no trabalho, no descanso ou na convivência, a verdade é que sabemos muito pouco do que realmente pensa o outro sobre Deus, sobre a fé ou sobre o sentido da vida. Às vezes nem os casais conhecem o mundo interior um do outro. Cada um leva em seu coração questões, dúvidas, incertezas e buscas que não conhecemos.

Chamamos de “descrentes” aqueles que abandonaram a fé religiosa. Este termo não parece muito adequado. É verdade que essas pessoas abandonaram “algo” que um dia viveram, mas sua vida não se baseia nesta recusa ou abandono. São pessoas que vivem a partir de outras convicções, às vezes difíceis de formular, mas que lhes ajudam a viver, lutar, sofrer e até morrer com um determinado sentido. No fundo de cada vida existem convicções, compromissos e fidelidades que dão consistência à pessoa.

Não é fácil saber como Deus abre seu caminho na consciência de cada pessoa. A Parábola do Joio e Trigo nos convida a não precipitar-nos. Não cabe a nós qualificar cada indivíduo. Menos ainda excomungar aqueles que não se identificam com o “ideal de cristão” que nós nos fabricamos a partir de nossa maneira de entender a fé e que, provavelmente, não é tão perfeito como nos parece.

“Só Deus conhece os seus”, dizia Santo Agostinho. Só Ele sabe quem vive com o coração aberto a seu Mistério, respondendo a seu desejo profundo de paz, amor e solidariedade entre os seres humanos. Nós que nos chamamos “cristãos” devemos estar atentos aos que se situam fora da fé religiosa, pois Deus também está vivo e operante em seus corações. Descobriremos que neles há muito de bom, nobre e sincero. Descobriremos, sobretudo, que Deus pode ser buscado sempre por todos.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Paciência na evangelização (Pe. Johan Konings)

O evangelho apresenta um Jesus muito tolerante. Isso pode até desagradar a quem gostaria de um Jesus mais radical. A Igreja parece tão pouco radical. Por que não romper de vez com os que não querem acompanhar? Ou será que a radicalidade do evangelho é outra coisa do que imaginamos? Neste evangelho (Mt 13, 24-43), Jesus descreve o Reino de Deus (o agir de Deus na história), em três parábolas. Na primeira, explica que junto com os frutos bons (o trigo) podem crescer frutos menos bons (o joio); é melhor deixar a Deus a responsabilidade de separá-los, na hora certa….Na segunda, ensina que o agir de Deus tem um alcance que sua humilde aparência inicial não deixa suspeitar (a sementinha).

Na terceira, adverte que a obra de Deus muitas vezes é escondida, enquanto na realidade penetra e leveda o mundo, invisivelmente, como o fermento da massa.

Nós gostamos de ver resultados imediatos. Somos impacientes e dominadores para com os outros. Deus tem tanto poder, que ele domina a si mesmo… Não é escravo de seu próprio poder. Sabe governar pela paciência e o perdão (1ª leitura). Seu “reino” é amor, e este penetra aos poucos, invisivelmente, como o fermento. Impaciência em relação ao Reino de Deus é falta de fé. O crescimento do Reino é “mistério”, algo que pertence a Deus.

No tempo de Mateus, a impaciência era explicável: espera-se a volta de Cristo (a Parusia) para breve. Hoje, já não é essa a razão da impaciência. A causa da impaciência bem pode ser o imediatismo de pessoas aparentemente “superengajadas”, e podemos questionar se muito ativismo é verdadeira generosidade a serviço de Deus ou apenas auto-afirmação. É preciso dar tempo às pessoas para que fiquem cativados pelo Reino. E a nós mesmos também. Isso exige maior fé e dedicação do que certo radicalismo mal-entendido, pelo qual são rechaçadas as pessoas que ainda estão crescendo.

Devemos ter paciência especial para com aqueles que, vivendo em condições subumanas, não conseguem assimilar algumas exigências aparentemente importantes da Igreja. Para com os jovens. Para com os que perderam a cabeça pelas complicações da vida moderna urbana, ou por causa da televisão, que pouco se preocupa em propor às pessoas critérios de vida equilibrada. Devemos dar tempo ao tempo… e entrementes dar força ao trigo, para que não se deixe sufocar pelo joio.

Em nossas comunidades, importa cativar os outros com paciência. Fanatismo só serve para dividir. Moscas não se apanham com vinagre. Importa ter confiança em Deus, sabendo que ele age, mesmo. E então nos sentiremos seguros para colaborar com ele, com “magnanimidade”, com grandeza de alma – pois é assim que se deveria traduzir o que geralmente se traduz com o termo desvirtuado “paciência”…. Deus reina por seu amor, e o amor não força ninguém, mas cativa a livre adesão.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes.

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com