O perigo de topar tudo por dinheiro

Frei Gustavo Medella

Até pouco tempo atrás, o apresentador e empresário Silvo Santos conduzia um programa que se chamava “Tudo por dinheiro”, que mais adiante foi renomeado como “Topa tudo por dinheiro”. Era uma atração baseada em brincadeiras no palco e na plateia que sempre poderiam render boas recompensas a quem delas participasse. Também trazia alguns vídeos de câmera escondida, que tinham como objetivo testar as pessoas se elas aceitariam ou não ceder a determinado apelo, muitas vezes esdrúxulo (beijar na boca de um sapo, fingir-se de mendigo, passar uma grande vergonha etc.) por mais ou menos determinada quantia.

Como dizia minha vó, e com razão, toda brincadeira tem um fundo de verdade. Sendo assim, a proposta de um programa que, a princípio, seria uma inocente atração dominical, acaba revelando muito de uma forte tendência humana para a qual Jesus chama atenção no Evangelho deste 8º Domingo do Tempo Comum: a preocupação excessiva com o dinheiro e tudo o que ele pode representar – fama, conforto, notoriedade, privilégios, poder, tudo muito sedutor.  Escândalos de corrupção a perder de vista com cifras cada vez mais incalculáveis, desviadas do patrimônio público, atestam vivamente a força desta tentação e o quão difícil é eliminá-la do seio da sociedade. Seus efeitos danosos e destruidores são sentidos na pele especialmente pelos mais pobres, vítimas primeiras e imediatas de tantas escolhas equivocadas.

Num cenário de tristeza e indignação, a esperança renasce quando cada cristão revisita no próprio interior o pacto de amor e serviço firmado com o Senhor, o mesmo que diz no texto da 1ª leitura: “Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre? Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti” (Is 49,15). É na força deste compromisso, ao qual se faz necessária uma resposta quotidiana, que a comunidade cristã encontra condições para fazer a diferença. Cada um é responsável por esta vigilância interna da própria vida, buscando nos valores do Evangelho a medida para conservar um coração inteiro, limpo, livre e desapegado de seguranças ilusórias.

Ao autocuidado, devem somar-se a coragem e a profecia que permitem aos seguidores de Cristo saírem do lamento para a denúncia e, desta, para a prática de obras transformadoras. Que o sonho do Pai e do Filho, inspirado pelo Espírito ao Papa Francisco, seja o nosso sonho de hoje e sempre: não à tentação de “topar tudo por dinheiro” e sim a uma sociedade onde haja “terra, teto e trabalho” para todos.


A busca fundamental

1ª Leitura: Is 49,14-15
Sl 61
2ª Leitura: 1Cor 4,1-5
Evangelho: Mt 6, 24-34

24 Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.»

* 25 «Por isso é que eu lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que a roupa? 26 Olhem os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai que está no céu os alimenta. Será que vocês não valem mais do que os pássaros? 27 Quem de vocês pode crescer um só centímetro, à custa de se preocupar com isso? 28 E por que vocês ficam preocupados com a roupa? Olhem como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. 29 Eu, porém, lhes digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. 30 Ora, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, muito mais ele fará por vocês, gente de pouca fé!

31 Portanto, não fiquem preocupados, dizendo: O que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? 32 Os pagãos é que ficam procurando essas coisas. O Pai de vocês, que está no céu, sabe que vocês precisam de tudo isso. 33 Pelo contrário, em primeiro lugar busquem o Reino de Deus e a sua justiça, e Deus dará a vocês, em acréscimo, todas essas coisas. 34 Portanto, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações. Basta a cada dia a própria dificuldade.»


* 19-24: Todo homem, consciente ou inconscientemente, tem na vida um valor fundamental, um absoluto que determina toda a sua forma de ser e viver. Qual é o absoluto: Deus ou as riquezas? Deus leva o homem à liberdade e à vida, através da justiça que gera a partilha e a fraternidade. As riquezas são resultado da opressão e da exploração, levando o homem à escravidão e à morte. É preciso escolher a qual dos dois queremos servir.

* 25-34: A aquisição de bens necessários para viver se torna ansiedade contínua e pesada, se não for precedida pela busca da justiça do Reino, isto é, a promoção de relações de partilha e fraternidade. O necessário para a vida virá junto com essa justiça, como fruto natural de árvore boa.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


8º Domingo do Tempo Comum, ano A

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Fazei, ó Deus, que os acontecimentos deste mundo decorram na paz que desejais, e vossa Igreja vos possa servir, alegre e tranquila”.

1. Leitura: Is 49,14-15

Eu não te esquecerei.

Os judeus exilados em Babilônia estavam tomados pelo desânimo e pela falta de fé. Os deuses dos babilônios pareciam mais fortes que o Deus de Israel. Pensavam que Deus os tinha esquecido, pois a situação no exílio estava difícil e sem perspectivas de futuro. Por isso o profeta coloca na boca dos exilados, simbolizados por Sião / Jerusalém, esta lamentação: “O Senhor me abandonou, meu Deus me esqueceu!” O profeta responde, trazendo a imagem de Deus como mãe (cf. Os 11), que jamais esquece os filhos que gerou. Por isso, anuncia que Deus vai agir, vai levar os seus filhos de volta à Terra Prometida. Isaías focaliza o sujeito do amor, que é Deus, e quer despertar uma confiança filial neste amor divino maternal.

Salmo responsorial: Sl 61

Só em Deus a minha alma tem repouso, só ele é meu rochedo e salvação.

2. Segunda leitura: 1Cor 4,1-5

O senhor manifestará os projetos do coração.

Domingo passado (2ª leitura) Paulo alertava os cristãos de Corinto sobre as divisões na comunidade por causa do apego a este ou aquele pregador, colocando em perigo até a própria fé em Jesus Cristo. Na leitura de hoje lembra que nenhum dos apóstolos, incluindo Paulo, Apolo e Cefas, é dono da comunidade. Ao contrário, todos são “servidores de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. Como administradores, devem ser fiéis à missão que Cristo lhes confiou. Paulo não se importa em ser julgado pelos seus opositores, pois tem a consciência tranquila de ter pregado com toda a fidelidade o evangelho da cruz e ressurreição do Senhor. Aguarda a próxima vinda do Senhor, por quem todos serão julgados.

Aclamação ao Evangelho: Hb 4,12

A palavra do Senhor é viva e eficaz: ela julga os pensamentos e as intenções do coração.

3. Evangelho: Mt 6,24-34

Não vos preocupeis com o dia de amanhã.

No evangelho de hoje Jesus se dirige a seus discípulos e a nós ts,bém. Em nossa vida todos somos colocados diante de uma opção fundamental: servir a Deus ou às riquezas. O próprio Jesus, com toda a clareza, fez a opção pelo Reino de Deus. Ao diabo que lhe oferecia todas as riquezas do mundo com a condição que o adorasse, Jesus responde: “Adorarás o Senhor eu Deus e só a ele servirás” (Mt 4,10). Do cristão se espera que opte pelo Reino de Deus e sua justiça. Alguns pensam que a frase “não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (v. 24) se dirige mais aos ricos da comunidade cristã, exigindo deles uma opção mais clara pelo Reino de Deus e sua justiça (v. 33). Jesus, porém, prega o Reino de Deus e sua justiça também aos pobres (v. 25-32). Também eles podem ser tentados a colocar o dinheiro como objetivo primeiro de suas vidas. Na luta pela sobrevivência, podem ser tentados a colocar Deus e sua justiça em segundo lugar. Colocar o Reino de Deus em primeiro lugar não dispensa, porém, nosso trabalho para ganhar o sustento próprio e o das pessoas que de nós dependem. Não se trata de uma confiança cega na providência divina. Jesus propõe a todos, ricos ou pobres, uma vida sábia, isto é, sóbria; pede que percebam a bondade de Deus para com as aves do céu e as flores do campo. Deus providencia o alimento para as aves do céu e veste de beleza as flores do campo, por menores e mais frágeis que sejam. Quanto mais cuidará de seus filhos.

Não podemos perder o foco central em nossa vida cristã. Este foco deve ser a mensagem de Jesus e o modelo de vida que nos legou: O Reino de Deus e a sua justiça. Pelo batismo nós já fizemos esta opção pelo Reino de deus e sua justiça. O reino de Deus é de fato o centro de minha vida? Procuro ser fiel a esta escolha fundamental?


Acumular dinheiro

José Antonio Pagola

Pouca gente está consciente do dano que provocam em muitas pessoas alguns critérios e pautas de ação que a atual economia considera “valores indiscutíveis”. Luiz González-Carvajal os considera “os demônios da economia”, que andam soltos entre nós.

O primeiro talvez seja o rendimento. Durante muitos anos, a humanidade tinha o senso comum suficiente para não trabalhar mais do que é preciso para levar uma vida satisfatória. O capitalismo moderno, pelo contrário, elevou o trabalho a “sentido da vida”. Atribui-se a Benjamin Franklin a famosa frase “o tempo é ouro”. Quem não o aproveita para ganhar está perdendo sua vida.

Sem dúvida, esse afã de rendimento contribuiu para o progresso material da humanidade, mas também cresce cada vez mais o número de pessoas prejudicadas pelo excesso de trabalho. Cria-se mais riqueza, mas será que somos mais felizes? Por outro lado, vamos esquecendo o desfrute de atividades que não são produtivas. Que sentido pode ter a contemplação estética? Para que pode servir o cultivo da amizade ou a poesia? Que utilidade pode ter a oração?

O segundo demônio seria a obsessão por acumular dinheiro. Todos sabemos que o dinheiro começou sendo um meio inteligente para medir o valor das coisas e facilitar os intercâmbios, as trocas. Hoje, no entanto, “acumular dinheiro” é para muitos uma espécie de dever. É difícil chegar a “ser alguém”, se não se tem poder econômico.

Muito semelhante a este último demônio é o demônio da competição. Para muitas pessoas, o decisivo é competir para superar os demais rivais. É inegável que uma “dose sadia” de competitividade pode ter aspectos benéficos, mas, quando uma sociedade funciona motivada quase exclusivamente pela rivalidade, as pessoas correm o risco de desumanizar-se, pois a vida acaba sendo uma corrida onde o importante é ter mais êxito que os outros.

Há alguns anos, o filósofo Emmanuel Mounier descrevia assim o burguês ocidental: “Um tipo de homem absolutamente vazio de todo mistério, do sentido do ser e do sentido do amor, do sofrimento e da alegria, dedicado à felicidade e à segurança; envernizado nas zonas mais altas com uma camada de cortesia, de bom humor e virtude de raça; por baixo, emparedado entre a leitura sonolenta do jornal, as reivindicações profissionais ou o aborrecimento dos domingos e a obsessão por figurar, por ter importância”.

Para Jesus, a vida é outra coisa. Suas palavras convidam a viver a partir de outro horizonte: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro… Não vos preocupeis com a vida, pensando no que haveis de comer, nem com o corpo, pensando no que haveis de vestir… Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e sua justiça e todas essas coisas vos serão dadas de acréscimo”.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Para que tantas preocupações, tantos temores?

Disse Sião:  “O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-se de mim!”   Acaso  pode a mulher esquecer-se do filho pequeno, a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre?  Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti”  ( Is 49, 14-15).

Frei Almir Guimarães

Não vos preocupeis com o dia da amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações. Para cada dia bastam seus próprios problemas!  (Mt 6,34).

Ainda o Sermão da Montanha!  Aqueles e aquelas que “ruminam” suas sentenças, aos poucos, vão ganhando o perfil do verdadeiro cristão, do autêntico discípulo do Senhor.

Realmente não se pode ter coração dividido. Não se pode servir a dois senhores. Por exemplo: servir a Deus e ao dinheiro. Há uma multiplicidade de senhores e senhoras que podem fazer concorrência ao único Senhor. Claro, o dinheiro, também o apego aos bens, às coisas, o apego possessivo a pessoas, ao ídolo do ego, à vaidade, ao pequeno mundo das pessoas que nos cercam, excluindo os outros. Há pessoas que apegam doentiamente às suas ideias e até mesmo ao seu carro ou iate. Nada de ídolos, no lugar de Deus.

Muitas vezes ficamos muito preocupados com nosso bem, nosso sustento, nosso amanhã. Claro que precisamos trabalhar, planejar, ter justa preocupação com o que comeremos, beberemos e vestiremos. Nada mais normal. Cuidado, no entanto, com os exageros. Belíssimas essas quaresmeiras, esplendorosos os jacarandás da serra, encantadoras as rosas e  as glicínias. Por detrás de tudo o  Deus da vida, o Deus criador que cuida dos lírios dos campos e dos pássaros dos céus.  Ele anda fazendo sinais para nós.  Jogamo-nos no Senhor, confiamos nele, mas trabalhamos, lutamos para que funcionem os serviços de saúde do Estado, temos uma reserva financeira razoável quando podemos ter e no mais, livre e confiantemente, nos jogamos em Deus.  Nem mesmo Salomão se vestiu com a beleza de um lírio.  Se Deus deles cuida, não cuidará de nós? Não é tão fácil viver na fé da Providência. Nem sempre as coisas são claras. Pode ser, quem sabe, que alguma vez tenhamos que dizer mais ou menos como Jesus: “Meu Deus, meu  Deus, por que me abandonaste?”

A primeira preocupação dos cristãos é fazer de sorte que o mundo novo de Jesus, o Reino do Pai, possa ser implantado com nossa colaboração: mundo de irmãos, terra de justiça,  espaço de respeito e amor mútuo.  Com isso todo o necessário nos será dado.  Para cada dia bastam os seus problemas.


Confiança na Providência

Pe. Johan Konings

Dizem que se deve escolher entre a tecnologia e a divina Providência. Quem tem a coragem de viajar de avião não deve pensar na Providência, e sim na segurança da tecnologia… Deus não deve intervir a qualquer momento, as leis da ciência e suas aplicações é que devem estas seguras… Não diminui a fé na providência a responsabilidade humana?

A 1ª leitura ensina a jogar-nos com toda a confiança nos braços de Deus: seu amor não desiste de cuidar de nós. E no evangelho, Jesus dirige nosso olhar para os pássaros do céu e os lírios do campo. Mas ele não ensina a despreocupação. Ele nos ensina a atitude certa para o serviço do Reino de Deus: procurar primeiro o reino e sua justiça. Então, podemos contar com a providência de Deus, para que possamos cumprir a missão que ele nos confia. Não a despreocupação, mas a liberdade e a simplicidade no serviço do Reino é a mensagem da parábola dos lírios. Quem procurar estar a serviço do Reino receberá como graça de Deus as coisas necessárias para viver.

Tal atitude é totalmente contrária à atitude dos que procuram antes de tudo riqueza, propriedades, prestígio, poder, prazer… Será difícil conseguir tudo isso e, além disso, “ter Deus”! Melhor é procurar primeiro Deus e receber, além dele, o resto… Assim, o evangelho se opõe também aos despreocupados, que deixam tudo correr para não se incomodarem e por isso se tornam cúmplices daqueles que querem tudo para si.

O certo é primeiro empenhar-se pelo serviço de Deus, da justiça e do amor que Jesus nos ensina. Então, sempre teremos a certeza de ter feito o que devíamos fazer. Se Deus nos concede uma vida longa e materialmente sucedida, para assim servi-lo, tudo bem; e se ele nos conduz ao sacrifício, não teremos nada a reclamar.

A confiança na Providência assim entendida não é contrária à responsabilidade e ao engajamento. É sua condição necessária. Pois quem sempre está calculando como salvará seus interesses próprios, nunca se engajará com liberdade evangélica. Neste sentido, a confiança na Providência não é alienante, mas libertadora! Não tira a nossa responsabilidade, mas nos dá maior liberdade e coragem para assumir nossa responsabilidade na construção do reino. Quanto mais confiamos em Deus, tanto mais cresce nossa responsabilidade. Devemos confiar como se tudo dependesse de Deus e nos empenhar como se tudo dependesse de nós (cf.  Santo Inácio de Loyola) .

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes


REFLAXÃO EM VÍDEO DE FREI GUSTAVO MEDELLA

 

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