Destaque, Notícias › 11/08/2017

O vento da suavidade e da força de Deus

Gustavo Medella

Frente fria, massa de ar, brisa, vento, tufão, ciclone, tsunami… Estes são nomes que, frequentemente, aparecem nos noticiários e servem para designar os fenômenos climáticos relativos ao deslocamento do ar. Revelam o dinamismo, a força e a imprevisibilidade da natureza que está sempre em movimento e transformação. Assim são os ares, as águas, a terra, os seres vivos criados. Assim é o Espírito de Deus, Espírito Santo que sopra onde quer.

Apresenta-se como suavidade ao Profeta Elias, que reverentemente reconhece a presença do Senhor na leve brisa que sopra no Monte Horeb. A sensibilidade de Elias é importante para quem pretende viver a vida da fé: saber munir-se da certeza de que, mesmo quando nada parece acontecer, muita coisa pode estar ocorrendo, o que faz lembrar a frase de Guimarães Rosa: “Quando nada está acontecendo, há um milagre que não estamos vendo”.  Uma das maiores graças alcançadas pelo crente é poder, mesmo em meio à correria, “saborear a suavidade do Senhor” (Sl 26).

Às vezes também aparece subitamente, como vento contrário. Vem abalar as estruturas daqueles que navegam, ainda que bem intencionados, numa direção que contraria os rumos do Evangelho. Todos nós estamos sujeitos a estes equívocos e aí não resta outra opção: precisamos novamente recorrer a Jesus.

No decorrer da história, não foram poucas as vezes em que a Barca de Pedro, a Igreja, desviou-se da rota proposta e, balançada por suas próprias contradições, precisou humildemente recordar-se d’Aquele que é a razão e o motivo de toda e qualquer opção e empreitada eclesial: Jesus Cristo. Neste sentido, o Pontificado do Papa Francisco tem sido um verdadeiro “vendaval divino” que está nos ajudando a retomar o prumo de nossa navegação sob a bússola do diálogo, da misericórdia, da acolhida, da justiça e de todos os valores do Evangelho.

Na turbulência que temos enfrentado no Brasil, que vive um contexto eivado de ódio, corrupção, desonestidade, má fé pública, exploração e desrespeito, cada cristão deve ser brisa suave e vigorosa de contradição. Nossa força deve brotar de uma leitura atenta e comprometida da realidade à luz do Evangelho, para não sermos “tragados” pela truculência de vendavais destruidores que, por onde passam, só deixam dor, abandono, miséria e destruição, ao modo de como temos experimentado na vida pública de nosso país.


A fé nos momentos difíceis

1ª Leitura: 1Rs 19,9ª.11-13ª
Sl 84
2ª Leitura: Rm 9,1-5
Evangelho: Mt 14,22-33

* 22 Logo em seguida, Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca, e ir na frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despedia as multidões. 23 Logo depois de despedir as multidões, Jesus subiu sozinho ao monte, para rezar. Ao anoitecer, Jesus continuava aí sozinho. 24 A barca, porém, já longe da terra, era batida pelas ondas, porque o vento era contrário.

25 Entre as três e as seis da madrugada, Jesus foi até os discípulos, andando sobre o mar. 26 Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram apavorados, e disseram: «É um fantasma!» E gritaram de medo. 27 Jesus, porém, logo lhes disse: «Coragem! Sou eu. Não tenham medo.»

28 Então Pedro lhe disse: «Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.» 29 Jesus respondeu: «Venha.» Pedro desceu da barca, e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus. 30 Mas ficou com medo quando sentiu o vento e, começando a afundar, gritou: «Senhor, salva-me.» 31 Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro, e lhe disse: «Homem fraco na fé, por que você duvidou?»

32 Então eles subiram na barca. E o vento parou. 33 Os que estavam na barca se ajoelharam diante de Jesus, dizendo: «De fato, tu és o Filho de Deus.»


* 22-33: Sobressai aqui a figura de Pedro, protótipo da comunidade que, nas grandes crises, duvida da presença de Jesus em seu meio e, por isso, pede um sinal. E mesmo vendo sinais, continua com medo das ambigüidades da situação e, por isso, a sua fé fica paralisada. Então faz o seu pedido de socorro. Jesus atende ao pedido da comunidade. Mas deixa bem claro que ela precisa crescer na fé e não temer os passos dados dentro das águas agitadas do mundo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


19º Domingo do Tempo Comum, ano A

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: Deus.eterno e todo-poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, par alcançarmos um dia a herança que prometestes”.

1. Primeira leitura: 1Rs 19,9a.11-13ª

Permanece sobre o monte na presença do Senhor.

No seu zelo pelo Deus verdadeiro Elias provocou um massacre dos sacerdotes de Baal, divindade promovida pela rainha Jezabel. A rainha decidiu matar Elias, que foge para o deserto e, desanimado, deseja morrer. Mas um anjo o socorre com pão e água. Reanimado, Elias continua andando até o monte Horeb, onde passou a noite numa caverna. No dia seguinte, Deus manda Elias esperar sua manifestação no alto da montanha. Houve então um vento violento, depois, um terremoto e em seguida um fogo, mas Deus não se manifestou em nenhum deles e sim, numa brisa suave. Ao perceber a presença divina, Elias cobriu seu rosto com um véu e ouviu Deus, que lhe falava. – Deus não se manifesta necessariamente na força, no barulho e na violência, mas prefere o silêncio, a paz e a suavidade. Um recado para nossas liturgias barulhentas: Rezamos, falamos para Deus, cantamos e fazemos muito barulho… Será que abrimos um pequeno espaço de silêncio para deixar que Deus nos fale? – O melhor caminho para encontrar-se com Deus, lembra o profeta Isaías, é “deixar de fazer o mal e aprender a fazer o bem” (1,16-17); sem isso, de nada valem as mais belas liturgias (Is 1,10-15). É melhor dizer no silêncio de seu coração, como o publicano “ó meu Deus, tem piedade de mim, pecador”, do que louvar a Deus, achando-se melhor que os outros, como o fariseu (Lc 18,9-14).

Salmo responsorial: Sl 84

Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade,
e a vossa salvação nos concedei!

2. Segunda leitura: Rm 9,1-5

Eu desejaria ser segregado em favor de meus irmãos.

Paulo se lamenta, cheio de dor, pelos seus irmãos de sangue e fé judaica, por não terem aderido à fé em Cristo. Desejava ser o apóstolo no meio dos judeus. Desejava ser escolhido por Cristo em favor de seus irmãos judeus. Deus, porém, o chamou para falar aos pagãos. Lucas lembra que numa celebração da liturgia, o Espírito Santo disse: “Separai-me Barnabé e Saulo para a obra a que os chamo” (At 13,1-3); tratava-se da missão entre os pagãos. Paulo reconhece a herança comum que os cristãos têm com os judeus e é grato por Cristo ter vindo do judaísmo. Também nós somos chamados a ter um relacionamento de gratidão e respeito pelos judeus, pelo muito que do judaísmo recebemos.

Aclamação ao Evangelho

Eu confio em nosso Senhor, com fé, esperança e amor;
Eu espero em sua palavra, Hosana, ó Senhor, vem, me salva!

3. Evangelho: Mt 14,22-33

Manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água.

Os milagres da natureza (“multiplicação” do pão) e o caminhar de Jesus sobre a água querem nos dizer mais do que, simplesmente, contar um milagre. Mateus, no cap. 8,23-27, ao contar o milagre da tempestade acalmada, quer ilustrar o seguimento de Jesus. No texto que escutamos (14,22-33) Mateus quer focalizar a atitude dos discípulos e instruí-los sobre a verdadeira fé. A vida cristã acontece em meio às tempestades e adversidades do dia-a-dia. Na celebração da Missa, quando o sacerdote nos saúda “O Senhor esteja convosco”, nós respondermos “Ele está no meio de nós”. Mesmo assim, em momentos difíceis, pode surgir a dúvida concreta que afligiu o povo de Israel no deserto: “O Senhor está, ou não está, no meio de nós?” (Ex 17,17). Assim aconteceu com o profeta Elias, que fugiu para o deserto, desanimado de sua luta pela fé no verdadeiro Deus. No silêncio do deserto, porém, teve um encontro com Deus, que lhe deu forças para continuar sua missão (1ª leitura). A fé na presença de Deus torna-nos capazes de fazer coisas incríveis. – Pedro, por exemplo, quando viu Jesus caminhando sobre as águas do mar agitado pediu-lhe para fazer a mesma experiência. Jesus lhe disse: “Vem!” Na presença de Jesus (ressuscitado) parecia fácil e Pedro começou a caminhar. Mas, ao sentir o vento, duvidou da presença do Senhor e, com medo de afundar, pôs-se a gritar: “Senhor, salva-me!” Jesus logo veio em socorro e disse: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” Imediatamente, todos na barca sentiram a presença do Senhor , prostraram-se diante dele e disseram: “Tu és o Filho de Deus”.

Pedro e os discípulos representam a todos nós. Nossa fé pode fraquejar, mas Jesus sempre vem em nosso socorro quando a Ele clamamos. Nele podemos confiar porque verdadeiramente é o Filho de Deus.


As dúvidas do crente

José Antonio Pagola

Há uns anos atrás, os cristãos falavam da incredulidade como de um assunto próprio de ateus e incrédulos, algo que a nós não nos atingia de perto. Hoje não nos sentimos tão imunizados. A descrença não é algo que afeta somente “os outros”, mas uma questão que o crente deve propor a si mesmo sobre sua própria fé.

Antes de tudo, não podemos esquecer que a fé nunca é algo seguro, de que podemos dispor à vontade. A fé é um dom de Deus que devemos acolher e cuidar dele com fidelidade. Por isso, o perigo de perder a fé não vem tanto do exterior quanto de nossa atitude pessoal diante de Deus.

Não faltam pessoas que falam hoje de suas “dúvidas de fé”. De modo geral, trata-se na realidade de dificuldades para compreender, de maneira coerente e razoável, certas ideias e concepções sobre Deus e o mistério cristão. Estas “dúvidas de fé” não são tão perigosas para o cristão que vive uma atitude de confiança amorosa diante de Deus. Como dizia o cardeal Newman, “dez dificuldades não fazem uma dúvida”.

Para falar da fé, utiliza-se, na cultura hebraica, um termo muito expressivo: ‘amán. Daí provém a palavra “amém”. Este verbo significa “apoiar-se”, “pôr a confiança” em alguém mais sólido do que nós.

É nisto que consiste precisamente o mais nuclear da fé. Crer é viver apoiando-nos em Deus, esperar confiantemente nele, numa atitude de entrega absoluta, de confiança e fidelidade.

Esta é a experiência que viveram sempre os grandes crentes no meio de suas crises. São Paulo o expressa de maneira bem clara: “Eu sei em quem pus a minha confiança” (2Tm 1,12).

Esta é também a atitude de Pedro que, ao começar a afundar, grita do mais profundo: “Senhor, salva-me!’: e sente a mão de Jesus que o agarra e lhe diz: “Por que duvidaste?”

As dúvidas podem ser uma ocasião propícia para purificar mais a nossa fé, arraigando-a de maneira mais viva e real no próprio Deus. É o momento de apoiar-nos com mais firmeza nele e de rezar com mais verdade do que nunca.

Quando se é “cristão de nascimento”, sempre chega um momento em que temos de perguntar-nos se cremos realmente em Deus, ou simplesmente continuamos crendo naqueles que nos falaram dele desde que éramos crianças.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Cristo abandonou a Igreja?

Pe. Johan Konings

As leituras de hoje falam de tempestade e escuridão. Na 1ª leitura, Elias, desanimado, procura Deus no monte no qual este se havia manifestado a Moisés. Deus lhe promete uma “entrevista”. Elias o espera, no vento, no terremoto, no fogo, mas ele não está aí. Depois, porém, surge uma brisa mansa, e Deus lhe fala… No evangelho lemos que, depois da multiplicação dos pães, Jesus manda os discípulos atravessarem o mar, sozinhos. Ele mesmo fica na montanha, para orar. No meio da noite, enquanto os discípulos lutam contra a tempestade, ele vai até eles, andando sobre o mar. Incute-lhes confiança: “Não tenhais medo”. Pedro se entusiasma, quer ir até ele sobre as ondas, mas duvida…

Deus é precedido pela tempestade, mas domina-a. É na calmaria que ele dirige a palavra a Elias. Jesus domina as ondas do lago e dissipa o pânico dos discípulos. Sua manifestação é um convite a ter fé nele. Os doze, o barco, o porta-voz Pedro: tudo isso evoca a Igreja, abalada pelas tempestades da história, enquanto Cristo parece estar demorando para chegar – pois os primeiros cristãos esperavam vivamente e para breve a nova vinda de Cristo, a Parusia, que parecia protelar-se sempre assim. A mensagem da narrativa parece ser que a Igreja deve acreditar na presença confortadora de seu Senhor. Mas nessa fé podem aparecer falhas, como no caso de Pedro…

Que tempestade e escuridão angustiam a Igreja hoje? Cristo nos parece estar longe, não percebemos sua presença… A Igreja como poderosa instituição está sendo atingida pelo desmantelamento da força política que durante muito tempo lhe serviu de sustentáculo: o ocidente europeu e suas extensões coloniais: “Morreu a Cristandade”, o regime no qual Igreja e Sociedade se identificavam. Sociologicamente falando, a Igreja aparece sempre mais como o que ela era no início: uma mera comunidade de fiéis, sem maior peso civil que as sociedades culturais, círculos literários e clubes de futebol (e olhe lá!). Quem ainda não acostumou seus olhos a esse apagamento sociológico, tem dificuldade de enxergar a presença de Cristo.

As dificuldades que a Igreja enfrenta hoje devem nos fazer enxergar melhor a presença de Cristo em novos setores da Igreja, sobretudo na população empobrecida e excluída da sociedade do bem-estar globalizado. De repente, Jesus se manifesta como calmaria no ambiente tempestuoso das “periferias” do mundo, na simplicidade das comunidades nascidas da fé do povo. Temos coragem para ir até ele ou duvidamos ainda, deixando-nos “levar pela onda”?

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com