Onde sobra injustiça, falta pão

Frei Gustavo Medella

Não é incomum que haja na liturgia um paralelismo entre a Primeira Leitura e o Evangelho Dominical. Neste 20º Domingo do Tempo Comum (Jr 38,4-6.8-10; Lc 12,49-53), no entanto, os paralelos parecem saltar mais aos olhos. São eles:

1) Jeremias e Jesus são dois justos que, injustamente, sofrem perseguição. A profecia incômoda que apresentam faz com que os detentores do poder desejem sua morte e, o que é pior, incutem tal desejo nos mais simples. A proposta de justiça continua a incomodar nos dias de hoje. As políticas de garantia de direitos, de promoção da dignidade para todos com frequência são taxadas de “ofensivas comunistas”, “ameaças à ordem estabelecida”, “coisa de gente que não quer trabalhar para alcançar o sucesso” e outros lugares comuns que, com frequência, fazem parte do discurso oferecido por aqueles que detêm a força do capital.

2) Jesus fala de “Batismo”, termo que significa “mergulho”. Jeremias é jogado numa cisterna e mergulha, aos poucos, na lama que ali havia e também na lama da incompreensão e da covardia de um poder estabelecido que tinha medo da mudança. Jesus, por sua vez, refere-se ao batismo de sangue pelo qual iria passar quando pregado sobre o madeiro da cruz, mergulhado em seu próprio sangue, doado todo inteiro desde sempre pelos marginalizados, os preferidos do Senhor.

3) A ação injusta contra Jeremias fez faltar o pão na cidade. Onde impera a injustiça certamente falta o pão, muitos morrem de fome corporal como consequência de um egoísmo cego que desconsidera o outro; outros padecem de fome de sentido para a própria vida. A ação injusta contra Jesus provoca divisão.

4) Em ambos os casos, tanto em Jeremias quanto em Jesus, a injustiça é vencida quando o justo é resgatado. No primeiro caso, quando o profeta é retirado da lama e da escuridão da cisterna. No segundo, quando o Filho do Homem vence as trevas e o sufocamento do túmulo, ressuscitando e chamando toda humanidade à ressurreição para uma vida plena, partilhada, harmoniosa e justa junto a Deus, vida da qual toda humanidade é convidada a participar.

(Fonte: Franciscanos)

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