Palavra é coisa muito séria

Frei Gustavo Medella

“E a Palavra se fez carne. (Jo 1,14)”. O trecho do versículo do Prólogo do Evangelho de João pode ser considerado o eixo organizador do mistério que estamos celebrando desde o primeiro domingo do Advento. Aquele que sempre existiu se faz como um com os que criou. O Fiat (“Faça-se”) originário agora pode ser pronunciado pela boca d’Aquele que acaba de nascer, ainda que em balbucios do Menino deitado sobre as palhas. Esta Palavra que confere vida, que transforma, que cativa, que ilumina e que convoca, assim como convocou os Magos do Oriente pelo brilho da estrela de Belém. É a força da Palavra que move e mobiliza. Precisamos ser amigos da Palavra, estar próximos dela.

Palavra é coisa muito séria. Tem força de vida e de morte. Quando vem de Deus, é vida, salvação, sentido, força, generosidade, tolerância, conversão. Encarna-se em gestos de solidariedade e compromisso de quem não mede esforços para encontrar-se com Jesus esteja ele onde estiver. Anima milhares que se põem em missão nos rincões de nosso país em busca de saúde para crianças pobres e desnutridas. Coloca em movimento jovens moças e rapazes que percorrem os recantos invisíveis das grandes cidades para levar um copo de chá, uma cartela de remédio, um abraço ou um minuto de atenção aos irmãos que vivem em situação de rua. Inspira palavras de sabedoria e coragem a pastores e profetas que lutam na defesa dos mais fracos. São incontáveis os sinais de vida originados na força da Palavra.

No entanto, também não podemos ser ingênuos, afinal, da força de palavras “mal ditas”, e com frequência repetidas sem reflexão, inclusive por muitos que se imaginam seguidores de Cristo, nascem barbáries. São “mantras” recitados à exaustão na banalidade das redes sociais que têm o poder de se transformar em mentalidades que, por sua vez, podem gerar morte e destruição.

Palavras repetidas de preconceito, exclusão, ódio, egoísmo dão origem a lugares-comuns explosivos, a conceitos de vida e de mundo que desembocam em atos como o registrado na noite da Natal na Estação Pedro II do Metrô de São Paulo. A palavra se fez ódio, intolerância, murros, chutes e morte. Ou ainda oferece repertório ao autor da chacina que dizimou 11 pessoas, entre elas a ex-mulher e o próprio filho do autor na noite de Ano Novo em Campinas. Nas cartas em que anunciava a tragédia, o homem lançou mão de uma série de argumentos confusos e rasteiros que com frequência temos visto desfilar no mundo da internet. A palavra se fez loucura, desespero, confusão, tiro e morte. Omissão, desumanidade, violência, ódio e rivalidade também se encarnaram no terrível massacre do Complexo Penitenciário no Amazonas. 60 mortos de forma violenta, encarnando uma equação perversa, somando as variáveis do pior que a humanidade pode produzir.

Não se trata de um duelo entre bem e mal. Precisamos reconhecer que em nós habita a força da Palavra que nos cria e salva e de tantas outras palavras que podem nos levar a perdição. É uma questão de reconhecermos estes limites, às vezes frágeis, e apostar nossas forças e potencialidades no cultivo das virtudes que em Jesus Deus nos chama a cultivar. A exemplo dos Magos, vamos seguir a luz que nos leva ao Menino, à Palavra que nos transforma, que nos torna seres humanos mais qualificados, amorosos, generosos, completos e felizes.

(Fonte: Franciscanos)

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