Para enxergarmos o mundo com olhos de transfiguração

Frei Gustavo Medella

O Evangelho do próximo domingo (Mt 17,1-9), o 2° da Quaresma, relata o episódio da Transfiguração do Senhor. No entanto, peço licença para, antes de abordá-lo, comentar a cena evangélica que está “colada” em meu pensamento desde o último sábado, quando tive a infelicidade de acompanhar pelo Facebook o vídeo do apedrejamento da transexual Dandara, na periferia de Fortaleza, capital do Ceará. Aquele corpo franzino, coberto de sangue, cercado por verdadeiros carrascos num chão cravejado de pedras fez vir à minha mente com clareza translúcida a cena de Jo 8,1-11, quando escribas e fariseus trazem a Jesus uma mulher apanhada em flagrante adultério. Queriam seguir a lei ao pé da letra e, consequentemente, apedrejá-la.

Ali, no caso, a mulher teve a graça de encontrar-se face a face com Jesus que, olhando para ela com misericórdia, fez com que o “feitiço se voltasse contra o feiticeiro”, desarmando a armadilha daqueles corações maldosos. “Aquele que não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 8,7). Dandara, infelizmente, não teve a mesma sorte. Foi espancada com socos, chutes e tábuas até desfalecer, tudo registrado em vídeo para saciar a curiosidade carnívora de olhos que se alimentam de sangue. Depois, Dandara foi levada rua abaixo num carrinho de mão e espancada até à morte.

Onde estava Jesus nesta ocasião? Certamente, não se fazia presente em nenhum dos corações que participaram in loco daquela barbárie. Não por falta de iniciativa e vontade do Mestre, afinal Jesus é Deus todo-disponível para quem o acolhe em sua vida, mas por uma teimosa resistência de corações que não se deixam tocar pela bondade e pela misericórdia. Caso deixassem Jesus participar de suas histórias, os espancadores e assassinos seriam capazes de olhar para Dandara com olhos de transfiguração, enxergando ali um ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, digno de respeito, empatia, misericórdia e compaixão.

Confesso que ainda estou o este episódio atravessado na garganta. Tenho meditado com frequência sobre ele. Peço a Deus que, diante de um acontecimento marcado pela dor, pelo sofrimento, pela desumanidade e pela covardia, a consciência humana acorde para a urgência de uma profunda transfiguração da sociedade, do egoísmo para a partilha, do ódio para o amor, da indiferença para o respeito.


O sinal da vitória

2º Domingo da Quaresma

1ª Leitura: Gn 12,1-4a
Sl 32
2ª Leitura: 2Tm 1,8b-10
Evangelho: Mt 17,1-9

-* 1 Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, os irmãos Tiago e João, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha.  2 E se transfigurou diante deles: o seu rosto  brilhou como o sol, e as suas roupas ficaram brancas como a luz. 3 Nisso lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. 4 Então Pedro tomou a palavra, e disse a Jesus: «Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés, e outra para Elias.» 5 Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra, e da nuvem saiu uma voz que dizia: «Este é o meu Filho amado, que muito me agrada. Escutem o que ele diz.» 6 Quando ouviram isso, os discípulos ficaram muito assustados, e caíram com o rosto por terra. 7 Jesus se aproximou, tocou neles e disse: «Levantem-se, e não tenham medo.» 8 Os discípulos ergueram os olhos, e não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus. 9 Ao descerem da montanha, Jesus ordenou-lhes: «Não contem a ninguém essa visão, até que o Filho do Homem tenha ressuscitado dos mortos.»


* 17,1-9: Cf. nota em Mc 9,1-13.[* 9,1-13: A vida e ação de Jesus não terminam na sua morte. A transfiguração é sinal da Ressurreição: a sociedade não conseguirá deter a pessoa e a atividade de Jesus, que irão continuar através de seus discípulos. A voz de Deus mostra que, daqui por diante, Jesus é a única autoridade. Todos os que ouvem o convite de Deus e seguem a Jesus até o fim, começam desde já a participar da sua vitória final, quando ressuscitarão com ele.]

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Segundo Domingo da Quaresma, ano A

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, que mandastes ouvir o vosso Filho amado, alimentai o nosso espírito com a vossa palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão de vossa glória”.

1. Primeira leitura: Gn 12,1-4a

Vocação de Abraão, pai do povo de Deus.

A vocação e missão de Abraão estão ligadas à promessa divina de uma terra e de uma grande descendência. Será uma bênção o simples fato de ser descendente de Abraão. A promessa inclui também uma grande bênção: “Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra” (v. 3); isto é, a salvação para todos os povos. Movido pela fé (cf. Rm 4), Abraão larga o conforto e a segurança da terra natal e parte para o desconhecido, confiante nas promessas divinas. A fé do patriarca Abraão torna-se modelo (Hb 10) para todos os seus descendentes e para os cristãos em geral: “A fé é o fundamento do que se espera e a prova das realidades que não se veem” (Hb. 1,1). Em Abraão Deus começa e revelar o plano de sua graça – a nossa salvação –, mantido em segredo desde toda a eternidade. Este desígnio de salvação “foi revelado agora, pela manifestação de nosso Salvador, Jesus Cristo” (2ª leitura).

Nós também, cheios de confiança, pelas palavras do Salmo responsorial, rezamos com a Igreja: “Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça! Venha a vossa salvação”.

Salmo responsorial: Sl 32

Sobre nós, Senhor, venha a vossa graça!
Venha a vossa salvação.

2. Segunda Leitura: 2Tm 1,8b-10

Deus nos chama e ilumina.

Paulo está na prisão e convida nesta Carta seu bispo Timóteo a sofrer com ele pelo Evangelho que os dois estão anunciando, movidos pela força que vem de Deus. Participar do anúncio do Evangelho é um chamado de Deus para a salvação, “por uma vocação santa”. A salvação à qual Deus nos chama não se deve a nossas boas obras, mas é fruto da graça divina. Esta graça, escondida, mas garantida, desde toda a eternidade, foi revelada somente agora, pela manifestação de Jesus Cristo. Apenas agora Deus fez brilhar a vida e a imortalidade, através do Evangelho. – A manifestação de Jesus Cristo se dá pela sua vida terrena, pela sua morte e ressurreição, como vemos na Transfiguração (Evangelho). O caminho para a ressurreição passa pela cruz.

Jesus tinha um objetivo em sua vida: Trazer o Reino de Deus, que Ele anunciou e viveu. Ao término de sua viagem a Jerusalém, quis livremente doar sua vida pela nossa salvação. Ressuscitando dos mortos, abriu o caminho da imortalidade para toda a humanidade.

Aclamação ao Evangelho

Louvor a vós, ó Cristo, rei da eterna glória.
Numa nuvem resplendente fez-se ouvir a voz do Pai:
Eis meu Filho muito amado, escutai-o, todos vós.

3. Evangelho: Mt 17,1-9

O seu rosto brilhou como o sol.

Quando Mateus escreve seu Evangelho, a exemplo de Marcos, coloca a cena da transfiguração na grande viagem de Jesus da Galileia a Jerusalém (Mt 16–20). Os ensinamentos de Jesus e os acontecimentos ao longo desta viagem constituem uma catequese para a vida cristã. Chamam a nossa atenção os três anúncios da paixão e ressurreição de Jesus (Mt 17,21-23; 17,22-23; 20,17-19). Para nós, que vivemos após os acontecimentos, parece tudo claro: Jesus é Messias (Cristo), o Filho de Deus enviado pelo Pai a este mundo, que pregou e viveu o Reino de Deus, morreu por nós e ressuscitou ao terceiro dia. Mas nada era claro para os apóstolos e o povo que seguia Jesus. Quando Pedro confessou Jesus como o Cristo, pensava que o Mestre acabaria sendo proclamado rei em Jerusalém. Achou-se no direito de repreender o próprio Mestre, quando este falava de sua morte em Jerusalém; por isso Jesus o chamou de “satanás”, alguém que se opõe ao plano divino. Depois disso é que vem a presente cena da Transfiguração. E ainda no mesmo cap. 17 Jesus anuncia a segunda vez sua morte e ressurreição. É neste contexto que devemos ler a Transfiguração. Era noite e, enquanto Pedro Tiago e João dormem movidos pelo cansaço, Jesus está em profunda oração junto ao Pai. De repente, os discípulos acordam e veem Jesus com o rosto brilhante e suas vestes resplandecentes de luz, tendo a seu lado Moisés e Elias. Pedro, então, exclama: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”… Parece ter esquecido que estavam a caminho de Jerusalém e pouco antes da visão gloriosa Jesus lhes falava de sua próxima morte. Por isso, a voz do céu insiste: “Este é o meu Filho amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o”.

Sim, o fato de o Pai ter permitido a morte violenta de seu Filho amado é a manifestação máxima de seu amor por nós. Ninguém tem maior amor do aquele que dá a vida por seus amigos – diz Jesus. Muitos anos depois, Pedro, na Segunda Epístola, recorda a cena da Transfiguração: (Jesus) “Recebeu de Deus Pai a honra e a glória, quando da glória magnífica se fez ouvir a voz que dizia: ‘Este é o meu filho amado, de quem eu me agrado’. E esta voz, que veio do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo” (2Pd 1,17-18).

O Evangelho que hoje meditamos nos ensina a não pararmos em nossa vida no monte da transfiguração (“Senhor, é bom ficarmos aqui…”). Como discípulos e discípulas, somos convidados a seguir Jesus até o Calvário, aguardando sua gloriosa ressurreição ao terceiro dia.


Claridade divina no alto da montanha

Frei Almir Guimarães

Seu rosto brilhou como o sol (Mt 17,2). Por que admirar que o rosto de Jesus se tivesse tornado como o sol, se ele era o próprio sol? Era o Sol, mas dissimulado pela nuvem. Agora a nuvem se afasta e ele resplandece por um instante.  (São Pedro Venerável, abade)

tique-20 Caminhamos pelas terras áridas do deserto. É o tempo da Quaresma. Jesus prepara-se para encontrar forças e garra em vista de atravessar um túnel escuro que se avizinha. Nessa caminhada sobe a uma alta montanha com Pedro, Tiago e João. Esse Jesus de carne e osso, por momentos, ganha nova figura, transfigura-se. Parece exalar uma limpidez. Brancura, sol, roupas brancas como luz, transparência. Os apóstolos enxergaram além, bem além. A Jesus se juntam Moisés e Elias, entretendo-se com Jesus. O passado espiritual se cola ao presente. Eliminou-se o tempo. O passado confabula com o presente.

tique-20 Experiência indescritível. Os apóstolos desejam eternizar aquele momento. Querem fazer três tendas. Tendas, sinônimo de permanência, ao menos por um tempo. Os apóstolos querem agarrar e fixar a experiência vivida. Não desejam que ela escape. Vivem o céu na terra.

tique-20 Uma nuvem luminosa cobre a todos. É a presença do Senhor, daquele que estava na nuvem do deserto. Os três ouvem uma declaração solene: “Este é o meu filho amado no qual, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o”.

tique-20 Esse momento, não passava de um momento. Haveria outra montanha: Gólgota, Calvário, Crâneo. Esse Jesus haveria de lá estar pregado ao madeiro, desfigurado, sem beleza, as pessoas virando o rosto ao verem tanta feiura. Tudo irá terminar na entrega: “Em tuas mãos entrego o meu espírito…”. E das trevas do Calvário brotará a luminosidade da Páscoa.

tique-20 Quantos rostos desfigurados: doentes, gente se contorcendo de dores no leito dos hospitais, rostos de migrantes sacudidos pelas águas do Mediterrâneo buscando espaços para viver, crianças e mulheres com o rosto contorcido em episódios de assédio, crianças que perderam os pais na guerra dos campos e das drogas, dor traduzida no rosto daqueles que destruíram outras vidas.

tique-20 Quantas transfigurações: pessoas em oração, criaturas que mesmo sofrendo exalam paz, gente com o rosto bonito visitando os mais abandonados, pessoas recebendo o perdão do sacramento da paz e da reconciliação, inimigos dando-se as mãos.

tique-20 “Mais do que nunca devemos atender ao apelo evangélico. Este é o meu filho amado, de quem me agrado. Escutai-o. Devemos parar, fazer silêncio e escutar  mais a Deus revelado em Jesus. Essa escuta interior ajuda a viver a verdade, a saborear a vida em suas raízes, e não esbanjá-la de qualquer maneira, a não passar superficialmente diante do essencial. Escutando a Deus encarnado em Jesus descobrimos nossa pequenez e pobreza, mas também nossa grandeza de seres amados  infinitamente por Ele (Pagola, Mateus, p.217).


Os medos do ser humano de nossos dias

José Antonio Pagola

O que está acontecendo com o ser humano de hoje? Nunca antes ele teve tantos conhecimentos para controlar a vida; jamais pôde dispor de tantos recursos técnicos e científicos para resolver seus problemas. E, não obstante tudo isto, segundo os estudiosos, hoje vivemos mais inseguros e ameaçados do que em épocas anteriores, aninhando em nosso interior medos de todo tipo, às vezes sem razão aparente. Por que se escuta de tantos essa estranha frase: “Tudo me dá medo”?

O famoso psiquiatra e bom amigo Vicente Madoz publicou um excelente trabalho com o título “Os medos do homem moderno”, no qual, com a clarividência e simplicidade do verdadeiro experto, vai analisando tanto os medos irracionais do homem atual, como seus medos concretos da doença, da velhice, da morte, do fracasso ou da solidão.

A inquietude e desgosto de não poucas pessoas têm a ver, sem dúvida, com as profundas e rápidas mudanças que estão acontecendo na sociedade. Também têm a ver com o individualismo, a insolidariedade ou o pragmatismo exagerado. Mas é fácil detectar, além disso, uma angústia existencial, às vezes solapada ou disfarçada, que está muito ligada às grandes incógnitas da vida, e que surge em não poucos diante da doença, da velhice, do fracasso, do desamor ou da morte.

A origem dos medos concretos que tanto fazem sofrer, às vezes de maneira inútil e desproporcional, pode ser bem diferente e requer em cada caso uma atenção específica adequada, mas não é difícil perceber em muitos uma “existência vazia de conteúdo, dispersa e desorientada”. Segundo o Doutor Madoz, “é o caldo de cultura idôneo no qual se alimentam e se nutrem tanto a angústia fundamental do homem de hoje, como todo tipo de medos neuróticos secundários”.

Poucas palavras se repetem mais nos evangelhos do que estas de Jesus: “Não tenhais medo!”, “Confiai!”, “Não se perturbe o vosso coração”, “Não sejais covardes!” O relato do Tabor traz a mesma mensagem. Quando os discípulos, envoltos pelas sombras da nuvem, caem por terra oprimidos pelo medo, escutam estas palavras de Jesus: “Levantai-vos, não tenhais medo!” Em seguida ouve-se uma voz do alto: “Este é meu Filho amado… Escutai-o”. Nunca devemos rebaixar a fé a remédio psicológico, mas escutar a Deus revelado em Jesus e deixar-se iluminar por sua Palavra pode curar o ser humano em suas raízes mais profundas, dando sentido e infundindo uma confiança básica indestrutível.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Vocação e Promessa

Pe. Johan Konings

Viver é ser chamado por Deus a entregar-se à sua palavra. No Antigo Testamento, Abraão é o exemplo disso. Tem de deixar toda segurança e confiar-se cegamente à promessa de Deus (1ª leitura). Jesus, no Novo Testamento, é a plenitude dessa atitude (evangelho). Antes de iniciar seu caminho rumo a Jerusalém, ele encontra Deus na oração, na montanha. Aí, Deus o confirma na sua vocação.

E, ao mesmo tempo, dá aos discípulos segurança para que sigam Jesus: mostra-lhes Jesus transfigurado pela glória e proclama que este seu Filho é o portador de seu bem-querer, de seu projeto. Se incluirmos em nossa meditação a 2ª leitura de hoje, aprendemos que nossa “santa vocação” não é um peso, mas uma graça de Deus. Portanto, não deve nos assustar.

A prática cristã exige conversão permanente, para largarmos as falsas seguranças que a publicidade da sociedade consumista e as ideologias do proveito próprio e do egoísmo generalizado nos prometem, para arriscar uma nova caminhada, unida a Cristo e junto com os irmãos. Somos convidados a dar ouvidos ao Filho de Deus, como diz o evangelho, e a receber de Cristo nossa vocação, para caminhar atrás dele – até a glória, passando pela cruz. Assim como Abraão escutou a voz de Deus e saiu de sua cidade em busca da terra que Deus lhe prometeu, devemos também nós largar o que nos prende, para seguir o chamado do Senhor.

Isso é impossível sem renúncia (para usar um termo que saiu de moda). Renúncia não é algo negativo, mas positivo: é a liberdade que nos permite escolher um bem maior. Isso vale para ricos e pobres. De fato, o povo explorado deve descobrir a renúncia libertadora. Não privação, mas renúncia. O povo precisa renunciar ao medo, ao individualismo e a outros vícios que aprende dos poderosos. Então saberá assumir sua vocação. E os ricos e poderosos, se quiserem ser discípulos do Cristo, terão de considerar aquilo que possuem como um meio, não para dormir, mas para servir mais, colocando-o à disposição de uma sociedade mais justa e mais fraterna.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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