Por um direito que não seja favor

Frei Gustavo Medella

Num país bem distante, marcado pela desigualdade e por uma meritocracia falaciosa, receber direitos é visto como privilégio, um grande favor prestado pelos poderosos àqueles que pouco ou nada podem. Escola de qualidade, tratamento de saúde adequado, moradia, emprego, nada disso é favor. Uma “vaguinha” aqui, um “encaixezinho” para um exame ali, acompanhado por “um muito obrigado, doutor”, “Deus lhe pague, excelência”, são heranças de um colonialismo explorador pautado no modelo da casa grande que pisa e esmaga os direitos da senzala.

A viúva apresentada por Jesus na parábola do Evangelho deste 29º Domingo do Tempo Comum (Lc 18,1-8), insiste e persiste naquilo que era direito seu. Não se intimida pelo cargo, pela posição social e pelo poder de um juiz que, pelo que conta a Escritura, pensava ter “o rei na barriga”. Naquele país, distante, são muitos o que pensam ter e, para complicar, existem outros tantos que, tão sofredores quanto aquela viúva, se julgam também gestantes de um ilustre monarca. Inocentes úteis, também injustiçados, deixam-se iludir tal qual o pobre nativo comprado por um ioiô e um espelho ou o sofrido capataz, caricatamente elevado ao posto de “autoridade”.

Para uma mudança de fato, tal país, este que fica muito longe, precisaria de menos iludidos e de mais viúvas. Uma só, no Evangelho, obteve do poderoso – a contragosto, é verdade! – a justiça para sua causa. Caso todas as pobres viúvas injustiçadas – símbolo de um povo que está no limite da esperança – soubessem de sua força quando unidas, talvez aquele país caminhasse por estradas bem diferentes. Deve ser muito difícil morar num país assim. Só mesmo à base de uma teimosa esperança nutrida na constante oração, tal qual Jesus instrui no Evangelho deste domingo.

(Fonte: Franciscanos)

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