Por um mundo mais “natalizado”

Frei Gustavo Medella

“Em uma cidade devastada pela guerra, crianças que perderam seus pais para os ataques aéreos em Aleppo gravaram um vídeo para fazer um apelo desesperado. Um grupo de meninos e meninas órfãos pede que organizações internacionais os ajudem a sair do epicentro dos confrontos na Síria” (O Globo, 15/12/2016).

Apenas dias antes do Natal, a notícia que se lê, infelizmente, não apresenta um fato isolado, mas expressa um cenário desumanizado e desumanizador, sintoma de um mundo doente, que precisa urgentemente se “natalizar”. O Menino de Belém, que desde antes de nascer já foi forjado para ser um forte diante de sofrimentos e dores, é expressão de Deus que compreende o sofrimento de seus Filhos e Filhas, ou mais, que sofre junto com eles.

Ao celebrarmos mais uma vez este pacto de amor entre Deus e a humanidade, não podemos perder de vista os grandes dramas que povoam milhões de vidas humanas que sofrem mundo a fora. Que meios teríamos para anunciar a nossos irmãos e irmãs mais sofridos que realmente é Natal, que de verdade Jesus nasceu e que Deus nos ama infinitamente? Da parte de Deus, o recado está dado, afinal “de sua plenitude recebemos graça sobre graça” (Jo 1,18). Agora, de nossa parte… Como precisamos ainda caminhar! No clima desta festa que toca e comove os corações mais endurecidos, algumas pistas do que poderia significar a “natalização” de nossas vidas.

1) Perceber que a graça é um presente para ser distribuído. É muito pertinente o simbolismo de se dar e receber presentes no Natal. É um exercício de atenção ao outro, de perceber seus gostos e necessidades, de treinar a empatia. Que a disposição e a energia empregadas para acertar no presente que desejamos oferecer a quem amamos seja uma constante em nossa vida, também em relação àqueles a quem ainda não amamos o bastante. Que o sofrimento dos irmãos não nos seja indiferente.

2) Reencontrar-nos com a criança que vive em nós. Significa sermos mais transparentes, menos complicados, mais espontâneos em nossas relações. Olhando o menino Jesus, ou qualquer outra criança recém-nascida deitada num berço, certamente poderíamos dizer: “Como é engraçadinho!” (Olha mais uma vez a graça aí). A criança transparece a graça que recebe de Deus porque é imagem da ternura e da inocência que todos nós possuímos e que, por motivos diversos, podem estar adormecidas em nosso ser.

3) Treinar o amor gratuito que se encarna em serviço. Em vez de ficar procurando razões para fundamentar nossos atos de amor, tomar o amor como fundamento, independente das circunstâncias e das perspectivas de retorno. Buscar com todo entusiasmo ocasiões em que possamos ser, de fato, expressão do amor com o qual Deus nos ama. Trata-se de um exercício exigente, que passa por renúncias e mudanças de planos nem sempre fácil de serem empreendidas, mas profundamente realizadoras quando colocadas em prática.

Junto a um carinhoso abraço de boas festas, nosso desejo profundo de que, juntos, possamos sempre mais “natalizar” nossas vidas! Feliz Natal!

(Fonte: Franciscanos)

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