Destaque, Notícias › 30/11/2018

Primeiro Domingo do Advento

Crescer no Amor a Cristo

Gustavo Medella

“Em nome de Jesus!” É muito comum esta expressão aparecer com conotação extremamente utilitária. “Quem me contrariou vai ser castigado, em nome de Jesus!”; “Em nome de Jesus eu alcançarei esta vitória”; “Em nome de Jesus minha vida vai prosperar!”. Curioso notar que, no centro de tais afirmações, nunca se encontra Jesus, nem seu Nome, mas o “eu”, com seus desejos, vontades e sonhos.

Na Segunda Leitura deste 1º Domingo do Advento (1Ts 3,12-4,2), São Paulo também se refere ao Nome de Jesus. No entanto, a concepção que aí aparece é centrada no Cristo e nos benefícios que a adesão a Ele traz para a comunidade que decide colocá-Lo como meta e modelo de vida. O nome de Jesus, neste caso, não passa a ser invocado como mero amuleto sobre o qual deposito minha própria conveniência, sem considerar os desejos e anseios daqueles que caminham comigo. Recorrer ao nome de Jesus implica, portanto, em assumir um compromisso de solidariedade e interajuda.

O sonho de São Paulo era que, entre os destinatários de sua carta, o amor a Cristo e o amor mútuo por causa de Cristo crescessem sempre mais no seio da comunidade. Eis um excelente percurso de preparação para o Natal, um propósito que pode iluminar nosso caminho neste tempo de Advento: “Que, em nome de Jesus, busquemos amá-Lo sempre mais e de forma mais intensa, especialmente naqueles que encarnam de maneira mais urgente e direta as fragilidades que Deus abraçou quando se fez um Menino entre nós. Sejamos a terra fofa e fértil onde a semente de justiça descrita na Primeira Leitura (Jr 33,14-16) possa produzir os frutos tão necessários para o mundo em que vivemos”.


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura (Jr 33,14-16)

 Livro do profeta Jeremias.

14“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que farei cumprir a promessa de bens futuros para a casa de Israel e para a casa de Judá.

15Naqueles dias, naquele tempo, farei brotar de Davi a semente da justiça, que fará valer a lei e a justiça na terra.

16Naqueles dias, Judá será salvo e Jerusalém terá uma população confiante; este é o nome que servirá para designá-la: ‘O Senhor é a nossa Justiça’”.

Salmo responsorial (Sl 24)

— Senhor meu Deus, a vós elevo a minha alma!

— Senhor meu Deus, a vós elevo a minha alma!

— Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos,/ e fazei-me conhecer a vossa estrada!/ Vossa verdade me oriente e me conduza,/ porque sois o Deus da minha salvação!

— O Senhor é piedade e retidão,/ e reconduz ao bom caminho os pecadores./ Ele dirige os humildes na justiça,/ e aos pobres ele ensina o seu caminho.

— Verdade e amor são os caminhos do Senhor/ para quem guarda sua Aliança e seus preceitos./ O Senhor se torna íntimo aos que o temem/ e lhes dá a conhecer sua Aliança.

Segunda Leitura (1Ts 3,12-4,2)

 Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses.

Irmãos: 3,12O Senhor vos conceda que o amor entre vós e para com todos aumente e transborde sempre mais, a exemplo do amor que temos por vós. 13Que assim ele confirme os vossos corações numa santidade sem defeito aos olhos de Deus, nosso Pai, no dia da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos.

4,1Enfim, meus irmãos, eis o que vos pedimos e exortamos no Senhor Jesus: Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim. Fazei progressos ainda maiores! 2Conheceis, de fato, as instruções que temos dado em nome do Senhor Jesus.

A história e o fim dos tempos

Evangelho: Lc 21,25-28.34-36

* 25 «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. E na terra, as nações cairão no desespero, apavoradas com o barulho do mar e das ondas. 26 Os homens desmaiarão de medo e ansiedade, pelo que vai acontecer ao universo, porque os poderes do espaço ficarão abalados. 27 Então eles verão o Filho do Homem vindo sobre uma nuvem, com poder e grande glória. 28 Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e ergam a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima.»

Tomem cuidado para que os corações de vocês não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vocês. 35 Pois esse dia cairá, como armadilha, sobre todos aqueles que habitam a face de toda a terra. 36 Fiquem atentos, e rezem todo o tempo, a fim de terem força para escapar de tudo o que deve acontecer, e para ficarem de pé diante do Filho do Homem.»

* 25-28: Cf. nota em Mc 13,24-27.[ * 24-27: A queda de Jerusalém manifesta e antecipa o julgamento com que Deus acompanha toda a história, e que se consumará no fim dos tempos. O Filho do Homem é Jesus que, pela sua morte e ressurreição, testemunhadas pelos discípulos, irá reunir todo o povo de Deus (cf. Dn 7,13-14).]

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Comentário de Frei Ludovico Garmus

1º Domingo do Advento, ano C

Frei Ludovico Garmus, ofm

 Oração: “Ó Deus todo-poderoso, concedei a vossos fiéis o ardente desejo de possuir o reino celeste, para que, acorrendo com as nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos”.

  1. Primeira leitura: Jr 33,14-16

Farei brotar de Davi a semente da justiça.

O livro do profeta Jeremias, depois de denunciar os pecados dos governantes, sacerdotes e da classe dominante, tem uma parte de oráculos de esperança, chamada “Livro da Consolação” (Jr 30–33). A primeira secção (Jr 30–31) contém promessas de restauração para Israel do Norte. A segunda secção (Jr 32–33) traz textos de discípulos do profeta, que atualizaram as promessas de Jeremias, depois do exílio, incluindo nelas também Judá. A leitura de hoje faz parte desta atualização, que renova e especifica estas promessas. A promessa que Deus “fará germinar para Davi a semente (ou germe) da justiça” retoma a promessa de Jr 23,5-6 sobre o futuro rei e atualiza as palavras do profeta Isaías: “Um broto sairá do tronco de Jessé”, pai de Davi. Esse descendente de Jessé será um rei sábio e justo, cheio do espírito do Senhor (cf. Is 11,1-5). As palavras de nosso texto foram muito bem escolhidas para o início do Advento. Sete verbos no futuro caracterizam o texto. As promessas, cheias de esperança, reanimam nossa fé e confiança no Salvador que vem. “Virão dias”, refere-se à primeira vinda do Senhor no Natal(Advento), que está presente no meio de nós, e cuja segunda vinda aguardamos. Deus “fará cumprir a promessa” a Israel e Judá, “fará brotar de Davi a semente da justiça”, um rei que “fará valer a lei e a justiça na terra”. Em consequência, o povo de Judá será salvo, Jerusalém terá segurança e será chamada “O Senhor é a nossa Justiça”. O mesmo já prometia antes Isaías ao denunciar as injustiças cometidas pelos juízes em Jerusalém: Depois disso serás chamada cidade da justiça, cidade fiel (Is 1,26).

O que deveríamos mudar para que o Senhor se torne a nossa Justiça? 

Salmo responsorial: Sl 24

Senhor meu Deus, a vós elevo a minha alma!

  1. Segunda leitura: 1Ts 3,17–4,2

Que o Senhor confirme os vossos corações na vinda de Cristo. 

Acabamos de ouvir um trecho do mais antigo escrito do Novo Testamento. É Paulo que, pelo ano 50, escreve à comunidade de Tessalônica por ele fundada. Como outros cristãos dos primeiros decênios, Paulo vivia na expectativa iminente da segunda vinda do Senhor. Nesta mesma carta, o Apóstolo declara como palavra do Senhor: Quando “o próprio Senhor descer do céu, os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os vivos, que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles para as nuvens, ao encontro do Senhor nos ares” (1Ts 4,16-17). Paulo não teme a segunda vinda do Senhor. Espera-a com amor, porque ama a Cristo e sente-se por ele amado. Quem espera com amor a vinda do Senhor, procura estar sempre preparado, vivendo “a santidade sem defeito aos olhos de Deus”. Paulo lembra aos cristãos como devem estar preparados para a vinda do Senhor: “Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus”. São instruções dadas “em nome do Senhor”. O Apóstolo reconhece, com alegria, que eles já estão vivendo isso, mas podem progredir sempre mais. Está bem preparado quem vive a fé e a esperança, no amor.

Aclamação ao Evangelho: Sl 84,8

Mostrai-nos, ó Senhor, vossa bondade,

e a vossa salvação nos concedei!

  1. Evangelho: Lc 21,25-28.34-36

A vossa libertação está próxima.

No sermão apocalíptico de Marcos, evangelho escrito antes do ano 70, os discípulos perguntavam sobre o fim de Jerusalém e sobre o fim do mundo (Mc 13,4). Em Lucas, evangelho escrito depois do ano 70, a pergunta se concentra apenas na destruição de Jerusalém: “Quando isso acontecerá e qual o sinal de que irá começar a acontecer”? (Lc 21,7). O pequeno trecho do sermão de Lucas, que hoje ouvimos, não trata tanto do fim do mundo, mas da segunda vinda do Filho do Homem. Os sinais no céu, na terra e no mar, abalando todas as forças do céu, são um prenúncio da vida do Filho do Homem. Ante aos sinais pavorosos, os que não crêem em Cristo se encherão de angústia e terror. Os que têm fé em Cristo vão esperar, confiantes, a vinda do Senhor: “Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”. O cristão deve esperar o Senhor como alguém muito querido e desejado. Quem espera, deve estar preparado, deve vigiar e orar. A expectativa da vinda do Senhor não deve paralisar o cristão. De fato, enquanto Jesus subia ao céu, os discípulos ficaram parados, com os olhos fitos no céu. Então dois anjos os acordam e perguntam: “… por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que foi elevado ao céu de vosso meio, voltará assim como o vistes subir para o céu” (At 1,11). Em vez de ficar olhando para o céu, na expectativa da volta do Senhor, eles deviam voltar a Jerusalém, aguardar o dom do Espírito Santo e partir em missão.

O medo ante a segunda vinda do Senhor não nos deve paralisar; antes deve animar-nos no anúncio da presença do Jesus Salvador entre nós (Mt 28,20). Pois, antes que venha o fim do mundo, “é necessário que o Evangelho seja pregado a todas as nações” (Mc 13,10).


“Homens e mulheres de desejo”, de Frei Almir Ribeiro

Frei Almir Guimarães

Determinou a Igreja com sabedoria que no tempo do Advento recitemos as palavras dos que antecederam a primeira vinda do Senhor e revivamos os seus desejos. E não celebramos seu desejo só por um dia, mas por tempo mais prolongado, pois o objeto de nossos desejos, quando tarda, parece, ao chegar, mais doce, ao nosso amor (Elredo de Rielvaux, abade).

>> É sempre bom, muito bom esperar. Esperar que o sol brilhe depois de dias de chuva e de neblina, esperar que doença dê uma trégua ou nos deixe de uma vez por todas, esperar que um filho tresloucado volte à casa para que se possa fazer a festa da volta. O vitelo gordo já está no quintal. É bom viver o tempo do Advento. Parece que todos esses dias dezembro estão envolvidos nesse delicioso clima da espera. Quando se espera de verdade já se vive com o coração em festa.

>> Somos convidados a refazer interiormente a caminhada dos patriarcas e profetas que suspiravam e apontavam para a primeira vinda do Senhor. Advento, celebração das vindas do Senhor. Houve a primeira que se consumou no nascimento de Jesus. Esperamos uma segunda e definitiva de Deus no final dos tempos. Entre das duas há essas constantes irrupções do Ressuscitado em nossas vidas. Somos fortemente convidados à vigilância, a prestar atenção. Cuidado para nos vivermos o tempo da vida entorpecidos.

>> São Bernardo fala de uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma intermediária. Aquelas são visíveis, esta não. Na primeira apareceu na terra e conviveu com os homens. Na última e derradeira, no final dos tempos, todos verão a salvação de Deus e olharão para aquele que fora traspassado. “A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos o veem, em si mesmos e recebem a salvação. Na primeira o Senhor veio na fraqueza da carne; na intermediária vem espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; na última virá com o esplendor da sua glória” ( Lecionário Monástico I, p. 55).

>> O tempo de Advento é um período em que cristãos e comunidades se preparam para bem viver as solenidades do tempo: Natal do Senhor, festa da Mãe de Deus, epifania. O Advento, no entanto, é muito mais do que isso. É tempo de espera, tempo de alimentar o desejo das coisas do alto, tempo de nutrir a convicção que o Senhor não nos abandona, mas que vem consolar o seu povo e, de fato, o consola.

>> As leituras proclamadas nos ofícios litúrgicos, na verdade, nos preparam para a primeira vinda do Senhor. Isaías é um dos nossos companheiros. Eis algumas de suas palavras tão fortes:

o o povo que andava nas trevas viu uma grande luz porque nasceu para nós um menino e um filho nos foi dado: ele se chamará príncipe da paz;
o um broto sairá do tronco de Jessé e um rebento brotará de suas raízes;
o o lobo será hóspede do cordeiro e a criança de peito brincará junto à toca da serpente;
o então se abrirão os olhos dos cegos;
o haverá uma vereda, uma estrada santa, nela não existem leões nem animais predadores;
o os habitantes de Sião podem exultar de alegria porque é grande em seu meio o Santo de Israel.

>> Procuramos alimentar em nosso interior o desejo da vinda de Cristo em nossa vida, na vida da Igreja e na vida do mundo? Como alimentar o desejo da vinda de Deus? Como ficar atento?

o Não nos ater apenas aos pormenores do presépio, mas saber que esse Menino veio instaurar um mundo novo de justiça, de amor e de fraternidade e que somos seus colaboradores.
o Viver na vigilância significa não adotar posturas de ceticismo e de indiferença para com as coisas do Senhor e dos homens.
o Não deixar que tome conta de nós e de nossas entranhas um estado de insensibilidade.
o Tomar cuidado para que nossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez, das preocupações da vida, dos movimentos de fuga de nós mesmos.
o Trata-se de rever nossa maneira de rezar. Trata-se de dizer inúmeras vezes por meio de nossas posturas que queremos ser colaboradores da obra daquele que amamos.
o Cantar diariamente a cantiga do desejo: “Vem, Senhor Jesus, vem sem tardar!”

Texto para a reflexão
Não viver dormindo

Um dos riscos que nos ameaçam hoje é cair numa vida superficial, mecânica, rotineira, massificada… Não é fácil escapar. Com o passar dos anos, os projetos, as metas e os ideias de muita gente acabam apagando-se. Não poucos terminam levantando-se a cada dia só para “ir levando a vida” (…). O apelo de Jesus à vigilância nos chama a despertar da indiferença, da passividade, do descuido com que vivemos frequentemente nossa fé. Para vive-la de maneira mais lúcida precisamos conhece-la mais profundamente, confronta-la com atitudes possíveis perante a vida, agradecê-la e procurar vive-la com todas as suas consequências. (Pagola, Lucas, p. 213)

Oração

SERÁ QUE ANDAMOS DANDO FLORES?
Uma maneira de andarmos despertos
Pequeno exame de consciência diário

Senhor, será que vivemos a jornada de hoje
de acordo com teus desejos?
Prestamos atenção aos que se aproximaram de nós?
Respondemos à esperança que eles depositavam em nós?
Abraçamos os que choravam?
Sorrimos de ternura até que eles, por sua vez,
também começassem a sorrir?
Demos flores antes do pão?
Podemos dizer que fizemos explodir tua alegria no rosto deles?
Fomos irmãos de nossos irmãos?
Se assim não fizemos que tu te dignes de nos perdoar.
Mesmo que tenhamos feito,
certamente ainda ficou faltando alguma coisa.
Dia a dia, incendeia nosso coração de amor!


“Não matar a esperança”, de José Pagola

José Antonio Pagola

Jesus foi um incansável criador de esperança. Toda sua existência consistiu em transmitir aos outros a esperança que Ele próprio vivia a partir do mais fundo de seu ser. Hoje ouvimos seu grito de alerta: “Erguei-vos e levantai a cabeça; aproxima-se a vossa libertação. Mas tende cuidado para que não se embote vossa mente com o vício, a bebida e a preocupação pelo dinheiro”.

As palavras de Jesus não perderam atualidade, porque também hoje continuamos matando a esperança e estragando a vida de muitas maneiras. Não pensemos naqueles que, à margem de toda fé, vivem de acordo com essa de “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”, mas pensemos em nós que, considerando-nos cristãos, podemos cair numa atitude não muito diferente: “Comamos e bebamos, porque amanhã virá o Messias”.

Quando, numa sociedade, se tem como objetivo quase único da vida satisfazer cegamente os apetites e cada um se fecha em seu próprio desfrute, ali a esperança morre.

Os satisfeitos não buscam nada realmente novo. Não trabalham para mudar o mundo. Não lhes interessa um futuro melhor. Não se revoltam diante das injustiças, dos sofrimentos e dos absurdos do mundo presente. Na realidade, este mundo é para eles “o céu” ao qual se candidatariam para sempre. Podem permitir-se o luxo de não esperar nada melhor.

Como é tentador adaptar-nos sempre à situação, instalar-nos confortavelmente em nosso pequeno mundo e viver tranquilos, sem maiores aspirações. Quase inconscientemente aninha-se em nós a ilusão de poder conseguir a própria felicidade sem mudar em nada o mundo. Mas não esqueçamos: “Somente aqueles que fecham os olhos e os ouvidos, somente aqueles que se tornaram insensíveis, podem sentir-se à vontade num mundo como este” (R.A. Alves).

Quem ama verdadeiramente a vida e se sente solidário com todos os seres humanos sofre ao ver que uma imensa maioria ainda não pode viver de maneira digna. Este sofrimento é sinal de que ainda continuamos vivos e temos consciência de que algo vai mal. Precisamos continuar buscando o reino de Deus e sua justiça.


“Deus-nossa-justiça”: o nome de nossa cidade?”, de Pe. Johan Konings

Pe. Johan Konings

Hoje iniciamos, mais uma vez, um novo ano litúrgico. Cada ano litúrgico começa com o Advento – palavra que significa “vinda, chegada”, a chegada de Jesus Messias na festa de Natal, comemoração de seu nascimento. Desde o início deste novo ano, a liturgia suscita em nós a esperança da justiça de Deus que vai chegar. Justiça não significa simplesmente aplicar as leis da sociedade, pois essas nem sempre são justas (muitas vezes são feitas para justificar o direito do mais forte). Na Bíblia, justo é o que é bom e benfazejo conforme a vontade de Deus. A justiça é a vitória do projeto de Deus.

Na época do profeta Jeremias (1a leitura), Jerusalém era uma cidade em ruínas. Mas o profeta lhe anuncia um futuro melhor. A cidade chamar-se-á: “Deus nossa justiça”. É Deus quem o fará. Já o apóstolo Paulo, na 2a leitura, nos deseja crescimento na justiça, para sermos encontrados irrepreensíveis, quando Jesus vier de novo.

No evangelho, Jesus fala de “sinais terríveis no céu e na terra, anunciando a vinda do Filho do Homem”, isto é, Jesus mesmo, a quem Deus deu o poder sobre a humanidade (como aparece na visão do Filho do Homem em Dn 7,13-14). Isso não nos deve assustar. Pelo contrário! Se estivermos comprometidos com a justiça do Reino de Deus, poderemos “ficar em pé” diante dele. Se estivermos colaborando para que a nossa cidade se possa chamar ”justiça de Deus” – e não apenas “capital do boi” ou “das abóboras” -, a vinda do Filho do Homem será nossa grande alegria.

Por um lado, sabemos que o mundo é passageiro. Não é nosso último destino. Por outro lado, o que podemos fazer de nossa vida, o sentido que podemos dar à nossa vida, é neste mundo que o devemos fazer. O que importa, no fim de tudo, é o que fizermos neste mundo, a justiça e o amor que fizermos brotar nesta lavoura que é a história da humanidade – os frutos que Deus espera de nós. Por isso, Jesus nos lembra desde já a sua vinda, para que tenhamos sempre o verdadeiro fim diante dos olhos: “Deus nossa justiça”, o amor e a justiça de Deus tomando conta de tudo.

Isso não acontecerá sem a nossa participação. Deus faz aliança conosco. Somos os seus parceiros. Neste tempo do Advento, da chegada de Deus até nós, vamos colaborar com ele e realizar a nossa parte da aliança: justiça social, pão e direitos para todos; transformar os mecanismos falhos, as estruturas injustas de nossa sociedade; endireitar as relações com os nossos semelhantes, empenhar a nossa vida por nos tornarmos mutuamente irmãos de verdade, felizes, consolados, amparados…

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