Informes Paroquiais, Notícias › 20/02/2015

Quaresma: integração dos “animais” e “anjos” interiores

Acompanhe a reflexão do Pe. Adroaldo Palaoro, sj para este 1° domingo da Quaresma.

image002“Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (Mc 1,13)

A afirmação ousada do Evangelho de hoje, onde Jesus no deserto “vivia entre animais selvagens e os anjos o serviam”, pode servir de ocasião para nos ajudar a “des-velar” (tirar o véu) a nossa interioridade e deixar emergir os “animais” e os “anjos” que nos habitam.

Jesus, radicalmente humano, tem consciência dos diferentes animais e anjos presentes em seu interior.
Sabe conviver com eles e integrá-los ao seu processo humanizador. As tentações não significam uma “luta desgastante” que atrofia seu interior. Ele se deixa conduzir pelo Espírito, e os anjos o alimentam.

Nosso interior é morada de animais selvagens e de anjos. Todos eles tem sua importância na nossa vida.
À luz do Tempo Quaresmal, sentimo-nos envolvidos por uma grande irmandade universal que aponta para a corrente única de vida e de sua imensa biodiversidade, numa grande teia de interdependências e de comunhão de todos com a Fonte originante de tudo. Pela carne e pelo sangue, por todas as células, as fibras e as energias de nosso ser estamos vinculados com o universo.

Segundo o relato da Criação, o ser humano vem da argila, do húmus… Por isso ele carrega em si os mesmos elementos físico químicos da natureza: minerais, plantas, animais… O ser humano não está acima ou abaixo das outras criaturas; ele é “um” com elas e é chamado a cuidar delas. Sua vocação primeira é a de ser jardineiro.

Cada ser humano carrega latente em seu íntimo toda a sabedoria do universo. O poeta americano Walt Whitman nos legou uma frase maravilhosa e emblemática sobre este tema: “Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim”.

Há multidões dentro de nós, não só de animais irracionais como também de homens e mulheres de todas as etnias, os jardineiros da criação divina. E, embora nesta grande diversidade, somos unidade na capacidade de pacificar e de fazer conviver todas as criaturas. Somos como a “arca de Noé”, no grande Oceano da vida, carregando em seu interior todos os animais, com seus instintos selvagens e primitivos, numa harmonia e convivência, onde cada um deles tem sua importância, seu papel sagrado e revelador da identidade humana. A aliança de Deus com Noé implica uma aliança com todos os animais, domésticos e selvagens. E o maior desafio é, justamente, a convivência com todos os animais que carregamos em nosso próprio interior. São eles que nos facilitarão o acesso às nossas riquezas interiores.

Nossa animalidade não deve ser esquecida, recusada, extirpada, controlada ou domesticada. Na mística judeu-cristã, nossa animalidade deve ser salva. Salvar nossa animalidade exige explorar nomes, identidades, símbolos e energias animais. O relacionamento entre humanidade e animalidade não é antagônico, excludente. Cada pessoa é chamada a conhecer, reconhecer, nomear e levar a termo os animais que a habitam. E caminhar fraternalmente com seus irmãos animais (cf. Evaristo de Miranda).

É preciso, antes de tudo, pacificar nossos animais interiores. Trata-se de conhecê-los, aprender a linguagem deles, fazer amizade com eles para que eles não nos destruam por dentro.
Faz parte da maturidade e crescimento pessoal encontrar e entender, em cada um de nós, a mensagem e o desafio de animais interiores como a rã, a pomba, o cachorro, o corvo, a serpente, a raposa, a perdiz, o lagarto, o falcão, o lobo, o leão… Cada animal deve ser verbalizado, integrado harmoniosamente no tempo certo e no lugar adequado. Ao fazer isso, descobrimos as diferentes dimensões da ecologia espiritual.

No entanto, no nosso processo formativo e a partir de uma visão exageradamente antropocêntrica, fomos coagidos a viver uma espiritualidade que nos ensinou a reprimir e a manter presos todos os animais na gruta interior e a levantar junto dela um edifício de “grandes ideais”. E com isso, passamos a viver constantemente com medo de que os animais pudessem fugir e nos devorar.

Com isso nos excluímos do prazer de viver, porque tudo é reprimido e nossa animalidade é violentada.

Sabemos que tudo quanto nós reprimimos nos faz falta à nossa vida. Os “animais selvagens” tem muita força. Quando os prendemos, gera um desgaste muito grande e fica nos faltando a sua força, de que temos necessidade para o nosso caminho para Deus, para nós mesmos e para os outros. Somos obrigados a fugir de nós mesmos, ficamos com medo de olhar para dentro de nós, pois poderíamos correr o risco de nos deparar com eles. Quanto mais os amarramos, tanto mais perigosos eles se tornam; eles nos atacam por dentro, tirando a disposição, o ânimo de viver.

Cada um deles representa os instintos, impulsos, paixões, fragilidades, sensualidade, sentimentos… que, quando não pacificados e integrados, criam uma desarmonia interior. Lutar contra os animais interiores é permanecer na superfície de si mesmo e não ter acesso às reservas de riqueza do próprio coração.

Quando todas as energias animais são ordenadas, elas colaboram para o conhecimento pessoal, o refinamento da identidade e a busca da autenticidade, elas são fonte interior de sabedoria e de desfrute espiritual. Então eles irão nos conduzir ao mais profundo e nos mostrar onde o tesouro está escondido.

Os “anjos” que nos habitam e nos servem são os “consolos” que aparecem em nosso caminho, em forma de paz, de luz, de fortaleza, de amor… O crescimento espiritual implica abraçar toda a nossa verdade, os “animais selvagens” e os “anjos”. As “tentações” de Jesus nos inspiram a avançar em direção à nossa verdade profunda, tirando-nos de nossa superficialidade, ou talvez da nossa “zona de conforto” na qual estávamos instalados, conformando-nos com um viver estreito e sem sentido. A integração dos “animais” e “anjos” nos fará criativos e ousados na missão à qual somos chamados a realizar.

Como Noé, podemos nomear e salvar – em nossa arca interior – todos os “animais” e “anjos”.

Resgatar os nossos animais interiores do dilúvio do inconsciente, é aceitar as diferenças e aprender a viver na diversidade. É fazer despertar a consciência dos nossos limites físicos, emocionais, espirituais com a certeza de que caminhamos em direção à plenitude da Criação, para um dia vibrarmos com todas as criaturas do universo no espírito do amor. Com isso, a luz e a fortaleza angelical se expandirão em nosso interior e nos impulsionarão a uma presença harmoniosa e acolhedora numa realidade tão desintegrada e conflituosa.

Texto bíblico: Mc 1,12-15

Na oração: A oração visa também atingir uma relação terapêutica com a nossa animalidade, num novo ambiente, numa ecologia espiritual paradisíaca e harmônica para bem viver a maravilha da vida plena e em abundância.

Diante do Deus criador, trazer os seus animais interiores e anjos à luz, deixá-los apresentar-se, serem reconhecidos e ocupar o seu lugar na ecologia espiritual. Trata-se de fazer uma aliança de Vida, entre viventes.

Os cantos e pios, urros e berros, zumbidos e silvos dos animais interiores despertam nossa atenção para dimensões esquecidas, reprimidas de nossa existência. O sussurro dos anjos nos apontará para as dimensões ricas de nossa vida que ainda não foram destravadas. Basta escutar e sentir.

Pe. Adroaldo Palaoro sj
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana – CEI

Fonte: Centro Loyola BH

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