Destaque, Notícias › 25/08/2017

Quem sou eu para Jesus?

Frei Gustavo Medella

“E vós, quem dizeis que eu sou?”

Quando dizemos algo sobre alguém, mesmo que não tenhamos intenção, acabamos dizendo junto algo sobre nós mesmos. Por isso é natural que uma pessoa que só saiba falar mal das outras e dar destaque ao que elas têm de negativo acaba sendo vista com desconfiança e reserva.

Quando Jesus faz a conhecida pergunta aos discípulos, certamente não estava preocupado com a própria reputação. Parece também que sua intenção não era a de fazer uma pesquisa acerca de sua popularidade. Tudo indica que objetivo do Mestre era saber quem eram aqueles que se dispuseram a segui-lo ou, em outras palavras, a questão que Jesus estava propondo era: “Posso contar com vocês para a construção do Projeto do Reino?”

São Pedro respondeu com agilidade e mostrou-se como alguém com quem Jesus poderia contar. É sabido que esta resposta e toda disposição nela manifesta não impediram que o Apóstolo caísse em algumas contradições, fruto do medo e da fragilidade que compõem o mistério de cada ser humano.

No entanto, o mais importante Pedro conseguiu manter: a disposição de fielmente se colocar no seguimento do Mestre. Neste final de semana vou procurar meditar bastante em torno destas questões: Quem é Jesus para mim? Quem sou eu para Jesus? Jesus pode mesmo contar comigo?

 

Jesus é o Messias

1ª Leitura: Is 22,19-23
Sl 137
2ª Leitura: Rm 11,33-36
Evangelho: Mt 16,13-20

* 13 Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» 14 Eles responderam: «Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas.» 15 Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» 16 Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.» 17 Jesus disse: «Você é feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que lhe revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu lhe digo: você é Pedro, e sobre essa pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. 19 Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu.» 20 Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.


* 13-23: Cf. nota em Mc 8,27-33. Pedro é estabelecido como o fundamento da comunidade que Jesus está organizando e que deverá continuar no futuro. Jesus concede a Pedro o exercício da autoridade sobre essa comunidade, autoridade de ensinar e de excluir ou introduzir os homens nela. Para que Pedro possa exercer tal função, a condição fundamental é ele admitir que Jesus não é messias triunfalista e nacionalista, mas o Messias que sofrerá e morrerá na mão das autoridades do seu tempo. Caso contrário, ele deixa de ser Pedro para ser Satanás. Pedro será verdadeiro chefe, se estiver convicto de que os princípios que regem a comunidade de Jesus são totalmente diferentes daqueles em que se baseiam as autoridades religiosas do seu tempo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

21º Domingo do Tempo Comum

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fiéis num só desejo, daí ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”.

1. Primeira leitura: Is 22,19-23

Eu o farei levar aos ombros a chave da casa de Davi.

Isaías denuncia Sobna, administrava do palácio do rei Ezequias, descendente de Davi. O motivo da acusação era sua política externa equivocada e o desvio de bens públicos para enriquecimento pessoal (corrupção!). O profeta anuncia que Deus cassará seu ofício e transferirá o “poder das chaves” para Eliacim, que será o novo administrador. Sobna será vestido com as insígnias próprias de seu cargo, símbolos da autoridade que lhe será confiada como prefeito do palácio real. Como novo administrador do palácio real, Sobna carregará sobre seus ombros “a chave da casa de Davi”. Receberá o poder de abrir e fechar as portas, isto é, permitir ou proibir o acesso junto ao rei. Agirá em nome do rei e participará de seu poder. “Será um pai para os habitantes de Jerusalém e para a casa de Judá”, cuidando do bem-estar da família real e do povo da cidade. No Evangelho, Jesus dá a Pedro “as chaves do Reino dos Céus”, para agir em seu nome e cuidar de sua casa, isto é, a Igreja.

Salmo responsorial: Sl 137 (138)

Ó Senhor, vossa bondade é para sempre!
Completai em mim a obra começada!

2. Segunda leitura: Rm 11,33-36

Tudo é dele, por ele, e para ele.

Na Carta aos Romanos (Rm 9–11), Paulo expressa dor e espanto pelo fato de o povo judeu, herdeiro legítimo das promessas, não ter acolhido Jesus como o Salvador e Messias prometido. Mas espera que Deus não desista de suas promessas de salvação feitas a Abraão e seus descendentes, os judeus. No texto que hoje ouvimos, Paulo louva a sabedoria de Deus porque, pelo seu ministério, misteriosamente abriu o caminho da salvação para os pagãos. Contudo, mantém a firme esperança que um dia também os judeus vão acolher a salvação oferecida em Cristo Jesus, pois Deus jamais rejeita a aliança com seu povo escolhido.

Aclamação ao Evangelho

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja;
E os poderes do reino das trevas jamais poderão contra ela!

3. Evangelho: Mt 16,13-20

Tu és Pedro, e eu te darei as chaves do Reino dos céus.

Depois de ter sido rejeitado pelos seus conterrâneos em Nazaré (13,54-58), Jesus ficou sabendo da morte de João Batista, procurava estar a sós para refletir sobre sua missão (14,1-13). Desde então há uma virada na atividade de Jesus. Desacreditado pelos escribas e fariseus (Mt 16,1-4) e mal-entendido pelos próprios discípulos (16,5-12), Jesus se retira para a região isolada de Cesareia de Filipe, a fim de dedicar-se mais à formação dos discípulos. É neste “retiro” que Jesus pergunta aos discípulos sobre as expectativas do povo a seu respeito: “Quem as pessoas dizem que é o Filho do Homem?”

Na resposta, os discípulos disseram que, segundo alguns, Jesus era o novo João Batista, talvez porque viam uma continuidade entre a pregação de Jesus e a do Batista. Para esses, Jesus seria João Batista que ressuscitou dos mortos cf. Lc 9,7). Outros achavam que era o Elias esperado no dia do Senhor, no fim dos tempos, que traria a renovação total do povo de Deus (Ml 3,22-24). Outros, ainda, viam em Jesus um profeta, corajoso como Jeremias, que enfrentava as autoridades religiosas e civis.

Quando Jesus pergunta: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro toma a iniciativa e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. – Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus. Nesta nova Igreja Pedro recebe o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de “apascentar as ovelhas e os cordeiros” (Jo 21,15-17). Jesus exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Cristo: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. Pois a Igreja é constituída dos creem que Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo. Nós fazemos parte dessa Igreja: “E vós também, como pedras vivas, tornai-vos um edifício espiritual” (1Pd 2,5). – Pedro é um homem como nós, frágil e pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Durante a última Ceia, Pedro jurou que seria sempre fiel a Jesus. Na mesma noite, porém, negou três vezes que conhecia. Mesmo assim, Jesus o escolheu e rezou por ele para confirmasse seus irmãos na fé (Lc 22,31-34). Confirmar e animar nossa fé é a missão de Pedro e do Papa Francisco, que também se confessa frágil e pecador e pede nossas orações. Ele nos confirma na fé com seu exemplo de humildade e serviço, com as visitas nas periferias de Roma e nas viagens apostólicas por vários continentes. Anima a vida cristã pelas Cartas Encíclicas que escreve, como “Alegria do Evangelho” e “Alegria do Amor”. Na Encíclica Laudato Si’ (Louvado sejas), convoca os cristãos e todos os homens de boa vontade a se unirem em defesa da vida ameaçada da humanidade de todos os seres vivos. Cuidar de nossa “Casa comum”, a Irmã e Mãe Terra” é uma tarefa urgente. Não basta rezar pelo Papa Francisco; é preciso escutar o que nos diz, ler o que nos escreve e colocar em prática o que nos pede.

Nossa imagem de Jesus

José Antonio Pagola

A pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” continua pedindo ainda uma resposta aos crentes do nosso tempo. Nem todos temos a mesma imagem de Jesus. E isto não só pelo caráter inesgotável de sua personalidade, mas, sobretudo, porque cada um de nós vai elaborando sua imagem de Jesus a partir de seus interesses e preocupações, condicionado por sua psicologia pessoal e pelo meio social ao qual pertence, e marcado pela formação religiosa que recebeu.

E, não obstante, a imagem que fazemos de Cristo tem importância decisiva para nossa vida, pois condiciona nossa maneira de entender e viver a fé. Uma imagem empobrecida, unilateral, parcial ou falsa de Jesus nos conduzirá a uma vivência empobrecida, unilateral, parcial ou falsa da fé. Daí a importância de evitar possíveis deformações de nossa visão de Jesus e de purificar nossa adesão a Ele.

Por outro lado, é pura ilusão pensar que alguém crê em Jesus Cristo porque “crê” em um dogma, ou porque está disposto a crer “no que a Santa Madre Igreja crê”. Na realidade, cada crente crê no que ele crê, isto é, no que pessoalmente vai descobrindo em seu seguimento a Jesus Cristo, ainda que, naturalmente, o faça dentro da comunidade cristã.

Infelizmente, não são poucos os cristãos que entendem e vivem sua religião de tal maneira que, provavelmente, nunca poderão ter uma experiência um pouco viva do que é encontrar-se pessoalmente com Cristo. Já numa época bem cedo de sua vida se fizeram uma ideia infantil de Jesus, quando talvez ainda não se tinham feito, com suficiente lucidez, as questões e perguntas que Cristo pode responder.

Mais tarde não voltaram mais a repensar sua fé em Jesus Cristo, ou porque a consideram algo trivial e sem importância para sua vida, ou porque não se atrevem a examiná-la com seriedade e rigor, ou ainda porque se contentam em conservá-la de maneira indiferente e apática, sem eco algum em seu ser.

Infelizmente, não suspeitam o que Jesus poderia ser para eles. Marcel Légaut escrevia esta frase dura, mas talvez bem real: “Esses cristãos ignoram quem é Jesus e estão condenados por sua própria religião a não descobri-lo jamais”.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.

O poder das chaves

Pe. Johan Konings

O Papa detém o “poder das chaves”, dizemos. Mas que significa isso? A liturgia de hoje nos proporciona maior compreensão a respeito. Pela 1ª leitura aprendemos que “o poder das chaves” significa a administração da casa ou da cidade. O administrador do palácio do rei, Sobna, será substituído por Eliacim, o qual receberá “as chaves da casa de Davi”. No evangelho, Pedro, em nome dos doze apóstolos, proclama Jesus Messias e Filho de Deus. Jesus, em compensação, proclama Pedro fundamento da Igreja e confia-lhe “as chaves do Reino dos Céus”. Dá-lhe também o poder de “ligar e desligar”, o que significa obrigar e deixar livre, ou seja, o poder de decisão na comunidade (em Mt 18,18, este poder é dado à Igreja como tal).

“As chaves do Reino dos Céus” é uma figura que significa o ministério/serviço pastoral, portanto, uma realidade no nível da fé. Nesta expressão, “Reino dos Céus” não é o céu como vida do além, mas o Reino de Deus (os judeus chamavam a Deus de “os Céus”). Trata-se do Reino de Deus entendido como comunidade, contraproposta às “portas do inferno”, a cidade do Satanás, que não prevalecerá contra a comunidade da qual Pedro recebe as chaves. Trata-se, pois, de duas cidades que se enfrentam aqui na terra. Pedro é o prefeito da cidade de Deus aqui na terra.

Pedro, respondendo pelos Doze, administra as responsabilidades da fé e da evangelização. Na medida em que a Igreja realiza algo do Reino de Deus neste mundo, Jesus pode dizer que Pedro tem “as chaves do Reino dos Céus”, isto é, do domínio de Deus. Ele administra a comunidade de Deus no mundo. Quem exerce este serviço hoje é o Papa, bispo de Roma e sucessor de Pedro.

Mas já os antigos romanos diziam: o prefeito não deve se meter nas mínimas coisas. Pedro e seus sucessores não exercem sua responsabilidade sozinhos. A responsabilidade ordinária está com os bispos como pastores das “igrejas particulares” (= dioceses). Pedro e seus sucessores devem cuidar especificamente dos problemas que dizem respeito a todas as igrejas particulares. O Papa é o “servo da Unidade”.

Há quem não gosta de que se fale em “poder” na Igreja; muito menos, no poder papal. Mas quem já teve de coordenar um serviço sabe que precisa de autoridade, pois, senão, nada acontece. No desprezo da “administração pastoral” da Igreja pode haver um quê de antiautoritarismo juvenil. Aliás, os jovens de hoje, pelo menos de modo confuso, já estão cansados do antiautoritarismo e percebem a falta de autoridade. Sem cair no autoritarismo de épocas anteriores, convém ter uma compreensão adequada da autoridade como serviço na Igreja. O evangelho nos ensina que essa autoridade tem um laço íntimo com a fé. Pedro é responsável pelo governo porque “respondeu pela fé” dos Doze.

Por outro lado, se é verdade que Pedro e seus sucessores têm a última palavra na responsabilidade pastoral, eles devem também escutar as “penúltimas” palavras de muita gente. Devemos chegar a uma obediência adulta na Igreja: colaborar com os responsáveis num espírito de unidade, sabendo que se trata de uma causa comum, que não é nossa, mas de Deus. Nem mistificação da autoridade, nem anarquia.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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