Notícias › 22/06/2018

São João Batista

Mais amor e menos temor

Frei Gustavo Medella

“João é o seu nome!”. Seja bem-vindo, João! Você, esperado com tanto carinho, aguardado com a melhor das expectativas por seu pai e por sua mãe. Não foi fácil, João, para Isabel, já idosa, percorrer os passos de uma gravidez de risco, mas ela foi valente, João, pois era impulsionada por um profundo amor. Ela sabia, João, que você já estava na mente e no coração de Deus desde sempre, e o que Senhor já sabia o seu nome (Is 49,1). O Senhor sabia e sabe seu nome, João, e por isso cada vida humana, fruto deste Amor que chama à existência é o maior tesouro que pode existir. Não há valor maior!

Pena, João, que nem todos têm sua sorte. Infelizmente, precisamos ainda caminhar muito para construir uma sociedade que, de fato, ame e respeite a vida e a dignidade humana como verdadeiros dons. Para além de qualquer escolha de fé, João, falta-nos a humildade de reconhecer que a vida não nos pertence. É mistério de amor e doação que ultrapassa nossa própria compreensão. Machuca-nos, João, o discurso, pautado na liberdade individual, que luta e comemora o fato de muitos “Joões” não terem sequer a chance de nascer, crescer e construir a sua história.

Não se trata, João, de crucificar as mulheres de nosso tempo ou de impor-lhes um fardo que não podem carregar, abandonando-as à própria sorte.  O desafio, João, é amorizarmos nossos relacionamentos. Mais amor e menos temor; mais o “nós” e menos o “eu”, mais pontes e menos cercas (às vezes até gaiolas) e muros, mais partilha e menos acumulação, mais acolhida e menos cifrão, mais abraços e menos empurrões.

Ajude-nos, João, você cujo nome significa “Graça de Deus”, a nos sentirmos agraciados. Impulsiona-nos João, a trabalhar juntos, sem deixar de lado nossos sonhos de um mundo melhor. Apresenta-nos João, a Luz e a Salvação, como você corajosamente apresentou a seus contemporâneos. Viva a vida! Viva você, João!

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Nascimento de João Batista

1ª Leitura: Is 49,1-6

Sl 138

2ª Leitura: At 13,22-26

Evangelho: Lc 1,57-66.80

* 57 Terminou para Isabel o tempo de gravidez, e ela deu à luz um filho. 58 Os vizinhos e parentes ouviram dizer como o Senhor tinha sido bom para Isabel, e se alegraram com ela. 59 No oitavo dia, foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. 60 A mãe, porém, disse: «Não! Ele vai se chamar João.» 61 Os outros disseram: «Você não tem nenhum parente com esse nome!» 62 Então fizeram sinais ao pai, perguntando como ele queria que o menino se chamasse. 63 Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: «O nome dele é João.» E todos ficaram admirados. 64 No mesmo instante, a boca de Zacarias se abriu, sua língua se soltou, e ele começou a louvar a Deus. 65 Todos os vizinhos ficaram com medo, e a notícia se espalhou por toda a região montanhosa da Judéia. 66 E todos os que ouviam a notícia, ficavam pensando: «O que será que esse menino vai ser?» De fato, a mão do Senhor estava com ele.

80 O menino ia crescendo, e ficando forte de espírito. João viveu no deserto, até o dia em que se manifestou a Israel.


* 57-66: O nome de João (= Deus tem piedade) é o sinal que evidencia o projeto de Deus sobre a criança e sua missão.

* 67-80: O cântico de Zacarias é um louvor ao Deus misericordioso que realiza, através de Jesus, a «visita» aos pobres. Em Jesus se manifesta a força que liberta dos inimigos e do medo, formando um povo santo diante de Deus e justo diante dos homens. Desse modo, manifesta-se a luz que ilumina a condição do povo, abrindo uma história nova, que se encaminha para a Paz, isto é, a plenitude da vida.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


São João Batista

Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: “Ó Deus, que suscitastes São João Batista, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito, concedei à vossa Igreja as alegrias espirituais e dirigi nossos passos no caminho da salvação e da paz”.

1. Primeira leitura: Is 49,1-6

Eu te farei luz das nações.

A segunda parte do livro do profeta Isaías (Is 40–56) foi escrita durante o exílio. O domínio do Império Babilônico chegava, então, ao seu fim e surgia um novo império, o de Ciro, rei dos persas. Neste contexto, alguns profetas, discípulos do profeta Isaías (séc. VIII a.C.) trazem novo ânimo aos exilados. Eles anunciavam o fim dos sofrimentos (Is 40,2) e o retorno próximo dos exilados à terra de Judá. Em meio a vários pronunciamentos dos profetas anônimos destacam-se quatro poemas, chamados “Cânticos do Servo de Javé”. O Servo do Senhor é uma figura misteriosa, identificada com Israel no trecho que ouvimos do 2º Cântico. Deus se dirige diretamente ao seu povo e lhe diz: “Tu és o meu Servo, Israel, em quem serei glorificado”. Israel dialoga com seu Deus e reclama que seus sofrimentos em Judá e no exílio foram em vão. Mesmo assim, confia em Deus que lhe fará justiça e dará uma recompensa. Reconhece que foi escolhido pelo Senhor desde o nascimento e lhe confia a missão de recuperar os descendentes de Jacó (= Israel) e reconduzi-los para seu Deus. O Senhor confirma esta missão do Servo em relação a Israel e lhe confere um novo alcance. Agora, a missão de Israel, Servo do Senhor, tem um alcance universal: ser luz das nações e levar a salvação até os confins da terra. Deus havia prometido a Abraão: “Com teu nome serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 12,3). O plano do Senhor é fazer de Israel uma luz para as nações, a fim de que sua salvação atinja todos os povos. A luz que ilumina as nações é Jesus, o menino que Simão tomou em seus braços e louvou a Deus por ter visto o Salvador: “Meus olhos viram a salvação que preparaste diante de todos os povos: a luz para iluminação de todos os povos…” (Lc 2,30-32). João Batista, como os profetas antes dele, é aquele que prepara os caminhos do Senhor, convocando todos à conversão (Lc 3,3-9). João Batista não era a luz, mas apenas a testemunha da Luz que ilumina todas as pessoas que vêm a este mundo (Jo 1,6-9). Quando lhe perguntavam se ele era o Cristo, João respondia: “Eu não sou o Cristo… Eu sou a voz que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor” (Jo 1,20-23). João se considerava indigno de desatar a correia das sandálias do Messias que viria depois dele. No entanto, ontem, Deus precisou de um João Batista para preparar a sua salvação de todos os povos. Hoje, Jesus Cristo precisa de você, precisa de cada um de nós, para ser a Luz que ilumina todos os povos (Mt 5,14-16).

Salmo responsorial: Sl 138

Eu vos louvo e vos dou graças, ó Senhor,
porque de modo admirável me formastes.

2. Segunda leitura: At 13,22-26

Antes que Jesus chegasse,
João pregou um batismo de conversão.

Paulo fazia, junto com Barnabé, sua primeira viagem missionária a Antioquia da Pisídia, no planalto central da atual Turquia. No sábado, os dois apóstolos entraram numa sinagoga, onde estavam presentes judeus de origem grega e pagãos simpatizantes do judaísmo, chamados “tementes a Deus”. Durante o culto, quando o chefe da sinagoga perguntou se alguém tinha alguma palavra de exortação para o povo, Paulo se apresentou para falar de Jesus Cristo. No texto que ouvimos, Paulo menciona a promessa que Deus fez a Davi de uma dinastia permanente e anuncia que a promessa já se cumpriu,  pois “Deus fez sair para Israel um salvador, Jesus”. Lembra que a vinda do Messias prometido foi precedida por João Batista, precursor de Jesus. E concluiu, dizendo: “Essa mensagem de salvação (boa-nova) é enviada aos “filhos de Abraão, e a quem entre vós teme a Deus”. A mensagem de salvação foi acolhida foi acolhida com alegria pelos pagãos, tementes a Deus”, mas os judeus promoveram um motim e expulsaram os apóstolos. Certamente, rejeitariam também o batismo de conversão e perdão dos pecados anunciado por João Batista. A conversão e o perdão dos pecados abre as portas do coração para acolher a boa-nova do Reino de Deus, anunciado por Jesus Cristo.

Aclamação ao Evangelho: Lc 1,76

Serás chamado, ó menino, o profeta do Altíssimo:
irás diante do Senhor, preparando-lhe os caminhos.

3. Evangelho: Lc 1,57-66.80

João é o seu nome.

Zacarias e Isabel formavam um casal piedoso, fiel observante dos mandamentos e preceitos do Senhor. Já eram idosos, mas não tinham filhos. Um dia, enquanto Zacarias oferecia incenso no santuário, apareceu-lhe o anjo Gabriel, dizendo: “Tua oração foi ouvida e Isabel, tua mulher, vai te dar um filho a quem darás o nome de João”. Zacarias, no entanto, duvidou da promessa e pediu um sinal. Como sinal, o anjo lhe disse: “Ficarás mudo até que tudo se cumpra” (Lc 1,1-20). O evangelho que acabamos de ouvir conta o que aconteceu desde que Zacarias ficou mudo até o menino tão esperado nascer. Isabel engravidou e durante alguns meses, ficou escondida, agradecia a Deus por ter atendido sua oração e lhe dado a graça de gerar um filho (1,23-25). Os vizinhos e parentes davam os parabéns para Isabel porque “o Senhor tinha mostrado sua grande misericórdia para com ela”. No oitavo dia do nascimento o menino devia ser circuncidado. Queriam dar ao menino o nome do pai, como era costume. Mas a mãe protestou: “De modo algum! Seu nome será João!” Por meio de sinais pediram, então, ao pai que se manifestasse. Deram-lhe uma tabuinha coberta de cera e Zacarias escreveu: “João é o seu nome”. “Imediatamente a sua língua se soltou e ele começou a falar, louvando a Deus”. Todos ficaram espantados e se perguntavam: “Que será deste menino?” – Por que essa insistência no nome “João”? Qual é o significado deste nome? O nome João vem do hebraico Yo-hanan, Deus mostra misericórdia. Deus se compadece e dá um filho para Isabel na sua velhice. E Zacarias louva a Deus porque sempre salvou Israel e agora abriu seu coração misericordioso e decidiu preparar a vinda do Messias (Lc 1,68-79).

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Apontou Jesus de Nazaré

Frei Clarêncio Neotti

Quando cai em domingo, essa festa ocupa o lugar da Missa dominical. Lembremos que são de João Batista as palavras que rezamos antes da Comunhão: “Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo … “, palavras que o Celebrante repete, quando apresenta a Hóstia consagrada ao povo, antes da Comunhão: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29).

Por causa dessa frase, a figura de João Batista, mesmo quando representado em criança, vem acompanhada de um cordeirinho. Onde João foi buscar o apelido de ‘Cordeiro de Deus’ para Jesus? Devemos pressupor que João Batista, pelos anos que passou no deserto, tenha lido os rolos dos livros sagrados. Podia ser uma referência ao Cordeiro Pascal (Êx 12): um animal sem defeito, imolado em comunidade, e com cujo sangue se untavam as portas como sinal para que o anjo da morte não ferisse ninguém daquela família. Depois da morte de Jesus, o símbolo fica claro. Terá tido João uma intuição profética? Ou ter-se-ia lembrado dos cordeiros que todos os dias eram sacrificados no templo (Êx 29,38-46), em expiação dos pecados ou em ação de graças? Cristo morrerá pelos pecados e sua morte será ‘eucaristia’, isto é, permanente ação de graças. Novamente, a sensibilidade profética do último profeta do Antigo Testamento e primeiro do Novo poderia ter visto em Jesus a vítima que morre uma vez por todas, para o perdão dos pecados.

João podia também estar familiarizado com os textos de Isaías, em que se fala do ‘Servo de Javé’, conduzido ao matadouro como um cordeiro (15 53,7). São Pedro também viu semelhança entre os dois (lPd 2,23), mas isso depois da paixão e morte de Jesus. Até onde viram os olhos proféticos de João Batista? O fato é que a missão principal de João Batista foi a de indicar a chegada de Jesus, Filho de Deus, Salvador. E a grandeza de João vem dessa missão.

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“João é o seu nome!”

Frei Almir Guimarães

Depois do Magnificat de Maria, prelúdio  das bem-aventuranças, a pregação de João  Batista constitui a primeira camada do Evangelho:  o apelo à conversão. Sua mensagem continua como   fundamento permanente da Igreja. Revive, ao longo dos séculos,   nos grandes surtos de renovação e até nas aparições. As mensagens de Lourdes, Fátima e outros lugares estão a nos relembrar.

René Laurentin

tique-2024 de junho, festa solene de João, o Batizador, o Batista, filho da velhice de Isabel e Zacarias. Nesta data comemoramos seu nascimento e, no final de agosto, seu martírio decretado ao longo de uma funesta festa no palácio de Herodes. Duas festas solenes para João: o nascimento e o martírio.

tique-20Isabel e Zacarias, casal sem filhos. Naquele tempo, era sinal de que Deus não lhes estava dando sua bênção. Certa feita, enquanto Zacarias exercia suas funções de sacerdote no templo, o enviado do Altíssimo dele se aproxima: “Não tenhas medo, Zacarias, porque Deus ouviu tua súplica. Tua esposa Isabel vai ter um filho e tu lhe darás o nome de João”. A fé e o oposto do medo.

tique-20Maria de Nazaré, por sua vez, depois de ter sido visitada por Gabriel, vai ter com Isabel. As duas estão grávidas. Nelas opera a ação do Espírito.  Quando as duas mulheres se encontram, o filho de Isabel salta de alegria em seu seio.  Esses nascimentos todos são momentos de alegria. Pena que, em nossos dias, há crianças que nascem sem serem amadas. É doloroso saber que muitos são tolerados no momento em que são concebidos. O encontro de Maria e Isabel é cena de ternura, de hospitalidade e de júbilo.  Sobretudo de alegria. Jesus e o Batista se encontram ainda escondidos no seio de suas mães.

tique-20No nascimento de João, o povo se perguntava: “O que será desse menino?” Como hoje nos perguntamos a respeito do amanhã desses meninos e meninas nascidos nas comunidades carentes ou nas casas sofisticadas, meninos e meninas que frequentam nossas escolas tão precárias e já são iniciados no universo da droga.

tique-20Ele, adulto, João com seu estilo contundente acordará os que dormem à sombra da Lei. Ele será o último dos profetas do Antigo Testamento.  É como uma dobradiça entre os dois Testamentos.  O último dos profetas e o primeiro dos discípulos de Jesus. Sua missão é de acolher aquele que estava para chegar. Que ninguém se fixasse nele porque nada mais era do que o precursor do Messias. Com suas palavras e sua vida ele anunciava a chegada da Salvação. Sua palavra é firme. É convite à conversão. Os caminhos do passado nunca serão as estradas do amanhã.

tique-20Zacarias, em seu cântico recitado todos os dias no Louvor da Manhã da Igreja, fala da missão do Menino. Aliás, a missão de João e a de Jesus haverão de se entrelaçar: “E a você, menino, chamarão de profeta do Altíssimo porque irá à frente do Senhor  para preparar-lhe os caminhos, anunciando a seu povo a salvação, o perdão dos pecados. Graças ao misericordioso coração de nosso Deus, o sol que nasce do alto nos visitará, para iluminar os que vivem nas trevas, para guiar os nossos passos no caminho da paz”.

tique-20Homem do deserto, da verdade, do domínio sobre as paixões e loucuras da carne, profeta que incomoda, protótipo dos que não querem atração sobre si. Importava-lhe que o Messias crescesse e que ele desaparecesse.

tique-20Bela síntese da trajetória do Batista foi realizada na composição do Prefácio da Missa para a solenidade de seu nascimento: “Proclamamos hoje, Senhor, as maravilhas que operaste em São João Batista, precursor do vosso Filho e Senhor nosso, consagrado  entre os maiores nascidos de mulher. Ainda no seio materno ele exultou com a chegada do salvador da humanidade, e seu nascimento trouxe grande alegria.  Foi o único dos profetas  que mostrou o Cordeiro redentor.  Batizou o próprio autor do batismo, nas águas assim santificadas e derramando seu sangue,  mereceu dar o perfeito testemunho de Cristo”.

Prece

João,
prepara  ainda conosco  os   caminhos do Senhor,
mostra-nos como endireitar
os corações que ainda retorcidos,
aplaina conosco as montanhas da indiferença,
diz-nos novamente as palavras que te foram
sopradas pelo  Espírito
para que possamos sempre reconhecer em Jesus,
o Messias, o  Filho de Deus.

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Anúncio surpreendente

José Antonio Pagola

Lucas narra o anúncio do nascimento de Jesus em estreito paralelismo com o do Batista. O contraste entre as duas cenas é tão surpreendente que nos permite entrever sob uma nova luz o mistério do Filho de Deus encarnado em Jesus.

O anúncio do nascimento do Batista acontece em “Jerusalém”, a grandiosa cidade de Israel, centro político e religioso do povo judeu. O nascimento de Jesus é anunciado num povoado desconhecido das montanhas da Galileia: uma aldeia sem importância nenhuma, chamada “Nazaré’, donde ninguém espera que possa vir algo de bom. Anos mais tarde, os povoados humildes da Galileia acolherão a mensagem de Jesus anunciando a bondade de Deus. Jerusalém, pelo contrário, a rejeitará. Serão sempre os pequenos e insignificantes os que melhor entendem e acolhem a Boa Notícia de Deus.

O anúncio do nascimento do Batista ocorre no espaço sagrado do “templo”. O de Jesus numa casa pobre de uma “aldeia”. Jesus se fará presente onde as pessoas vivem, trabalham, se alegram e sofrem. Vive entre elas aliviando o sofrimento e oferecendo o perdão do Pai. Deus se fez carne, não para permanecer no templo, mas para “fazer sua morada entre os humanos” e compartilhar nossa vida.

O anúncio do nascimento do Batista ouve-o um “varão” venerável, o sacerdote Zacarias, durante uma solene celebração ritual. O de Jesus é feito a Maria, uma “jovem” de uns doze anos. Não se indica onde ela está, nem o que está fazendo: a quem pode interessar o trabalho de uma mulher? No entanto, Jesus, o Filho de Deus encarnado, olhará para as mulheres de maneira diferente, defenderá sua dignidade e as acolherá entre seus discípulos.

Por último, do Batista se diz que nascerá de Zacarias e Isabel, um casal estéril abençoado por Deus. De Jesus se anuncia algo absolutamente novo. O Messias nascerá de Maria, uma jovem virgem. a Espírito de Deus estará na origem de sua aparição no mundo. Por isso “será chamado Filho de Deus”. O Salvador do mundo não nasce como fruto do amor de dois esposos que se amam mutuamente. Nasce como fruto do Amor de Deus a toda a humanidade. Jesus não é um presente que Maria e José nos dão. É um presente que Deus nos dá.

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Anunciando o Sol

Pe. Johan Konings

O evangelho de hoje poderia ser completado com o cântico entoado pelo pai Zacarias quando do nascimento de João Batista: o Benedictus (Lc 1,68-79). É nesses versos que aparece a bela evocação da missão de João: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à frente do Senhor, preparando os seus caminhos, dando a conhecer a seu povo a salvação, com o perdão dos pecados, graças ao coração misericordioso de nosso Deus, que envia o sol nascente para nos visitar. .. ” (Lc 7,76-78). O sol nascente é Jesus. E quando crescer esse sol nascente, a luz da lua (ou da estrela da manhã?) deverá diminuir, como dirá o próprio João (Jo 3,30).

De fato, o Batista, como é apresentado na Bíblia, está totalmente em função daquele que vem depois dele, Jesus. Essa perspectiva dos evangelhos talvez não tenha sido a dos seus contemporâneos, como mostram alguns traços dele encontrados fora da Bíblia (p.ex., no autor judeu Flávio Josefo, que viveu pouco tempo mais tarde). Mesmo na Bíblia encontramos indícios de que a atividade histórica de João não foi totalmente absorvida pela de Jesus (At 19,1-6, os discípulos do Batista em Éfeso por volta de 50 d.C.). Mas, para os evangelistas obra do Batista foi o anúncio do sol que estava nascendo, a luz prometida por Deus a seu povo: Jesus de Nazaré.

Ora, não só João preparou a chegada de Jesus; ele é a plenitude de todos os profetas, sendo o último e o maior deles, o decisivo, aquele que encerra o anúncio profético do antigo Israel. “Até João, a Lei e os Profetas! A partir de então, o Reino de Deus está sendo anunciado, e todos usam de força para entrar nele” (Lc 18,16), Ele é descrito como um novo Elias, pois Elias era esperado para preparar, com sua pregação de conversão e reconciliação, a visita final de Deus a seu povo (cf. Eclo 48,10).

Estamos inclinados a pensar que a missão do Batista terminou no ano 30, quando Jesus se apresentou. Mas em todos os tempos a missão do Batista continua necessária, pois a luz do sol ainda não surgiu em todos os lugares, e pode acontecer também que em algum lugar já tenha escurecido. Anunciar o sol é uma figura para dizer que em todas as circunstâncias é preciso preparar os corações para receber o Enviado do Pai, o próprio Filho de Deus. Em nossa sociedade urbano-industrial, o sol de Cristo parece estar obnubilado – quem sabe, pela poluição … mental. Quando nesse ambiente apresentamos todo o “aparato” cristão, isso é recebido com uma mentalidade sensacionalista, comercial, não como a luz benfazeja do sol, mas como o cintilar da propaganda. Não seria melhor mandar um João Batista à frente?

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