Destaque, Notícias › 30/06/2017

São Pedro e São Paulo, ano A

Para ser grande, sê inteiro

Frei Gustavo Medella

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes”.
Fernando Pessoa

“Sê inteiro!”. O trecho extraído da brilhante e vasta obra do poeta português versa sobre a integridade, a inteireza do ser que orientou a vida e o ministério tanto de Pedro quanto de Paulo. Ambos foram absolutamente íntegros. Viveram com intensidade e doaram-se sem reservas a partir das escolhas que foram assumindo no decorrer de seus dias. Na vida de ambos, o encontro com Cristo foi um divisor de águas: Pedro, ao receber o convite do Mestre, deixou as águas do Mar da Galileia, onde exercia o ofício de pescador, para mergulhar no seguimento de Jesus. Paulo, embora não tenha estado pessoalmente com o Senhor, foi tocado por uma experiência de fé que o fez pular do “barco da perseguição” para nadar no “mar da adesão”. Tudo muito intenso, muito inteiro, muito íntegro!

A integridade de ambos conferiu tanta solidez a seu testemunho a ponto de serem considerados as “Colunas da Igreja”. Este título não remete a quaisquer benefícios que tenham recebido em vida. Afinal, todos os dois enfrentaram desafios de sofrimentos de variada sorte, a ponto de Pedro ter terminado seus dias crucificado de cabeça para baixo e Paulo ter perdido a cabeça cortada no fio da espada. “Ter a vida virada de cabeça para baixo” e “perder a cabeça”, além de exprimir, no sentido literal, as penas a que os dois apóstolos foram submetidos, também apresenta os “efeitos colaterais” a que estão sujeitos aqueles que desejam aderir integralmente ao seguimento do Mestre.

A vida íntegra de Pedro e Paulo é sinal eloquente da integridade primeira de Deus em Jesus Cristo. O Filho do Homem, mesmo tendo nascido sob a dura pena da pobreza e da privação, sofrido toda sorte de preconceito, desprezo e perseguição, tendo sido despedaçado sobre o madeiro da cruz e, antes disso, tendo decidido se despedaçar no pão que sacia a fome de todos, jamais perdeu a inteireza: quanto mais se dividiu, mais inteiro permaneceu.

A integridade de Pedro e Paulo apresenta às pessoas de fé um “feliz casamento” entre o ser humano e Deus. Da parte dos apóstolos, a intensidade em abraçar de corpo e alma um projeto e a adesão apaixonada à proposta de Jesus. Do lado de Deus, o chamado amoroso que suscitou no coração dos dois.


Jesus é o Messias

1ª Leitura: At 12,1-11
Sl: 33
2ª Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18
Evangelho: Mt 16,13-19

-* 13 Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» 14 Eles responderam: «Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas.» 15 Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» 16 Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.» 17 Jesus disse: «Você é feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que lhe revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu lhe digo: você é Pedro, e sobre essa pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. 19 Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu.»


13-23: Cf. nota em Mc 8,27-33. Pedro é estabelecido como o fundamento da comunidade que Jesus está organizando e que deverá continuar no futuro. Jesus concede a Pedro o exercício da autoridade sobre essa comunidade, autoridade de ensinar e de excluir ou introduzir os homens nela. Para que Pedro possa exercer tal função, a condição fundamental é ele admitir que Jesus não é messias triunfalista e nacionalista, mas o Messias que sofrerá e morrerá na mão das autoridades do seu tempo. Caso contrário, ele deixa de ser Pedro para ser Satanás. Pedro será verdadeiro chefe, se estiver convicto de que os princípios que regem a comunidade de Jesus são totalmente diferentes daqueles em que se baseiam as autoridades religiosas do seu tempo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


São Pedro e São Paulo, ano A

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que hoje nos concedeis a alegria de festejar São Pedro e São Paulo, concedei à vossa Igreja seguir em tudo os ensinamentos destes Apóstolos que nos deram as primícias da fé”.

1. Primeira leitura: At 12,1-11

Agora sei que o Senhor enviou o seu santo anjo
para e libertar do poder de Herodes.

Em At 1,8, ao se despedir de seus discípulos antes da Ascensão, Jesus traça-lhes o roteiro para a futura missão: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins do mundo”. Durante sua vida pública e depois da ressurreição Jesus preparou seus discípulos para esta missão. Escolheu doze, entre os discípulos, e os chamou de apóstolos. Entre os escolhidos destaca-se a figura de Pedro, como líder deles. Depois da última ceia prevê que todos o abandonariam, até mesmo Pedro, que lhe jura fidelidade, embora Jesus lhe dissesse que, naquela noite, haveria de negá-lo três vezes… Mas Jesus rezou por Pedro: “… eu orei por ti, para que tua fé não falhe; e tu, uma vez convertido, confirma os irmãos” (Lc 22,32). De fato, quando Jesus era condenado pelo Sinédrio Pedro negou três vezes que o conhecia. Pedro, porém, logo se arrependeu e “chorou amargamente”. E Jesus, após sua ressurreição, lhe confirma a missão, antes prometida (evangelho), de apascentar seu rebanho: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros”.

O texto que ouvimos, fecha a 1ª parte dos Atos, dedicada mais à missão de Pedro como testemunha de Jesus Cristo. De fato, depois da ascensão de Jesus ao céu e da vinda do Espírito Santo, Pedro deu testemunho de Cristo em Jerusalém, na Judeia e na Samaria. Agora está preso e Herodes Agripa planeja executá-lo, como havia feito com Tiago, irmão de João. Mas é libertado milagrosamente da prisão por um anjo, o da prisão para continuar testemunhando a fé em Cristo e anunciando seu evangelho. É libertado porque “enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente por ele” (At 12,5).

O Papa Francisco pede que continuemos rezando por ele, para que Deus o proteja de possíveis ameaças, de dentro e de fora da Igreja, e tenha as luzes do Espírito Santo para cumprir fielmente sua missão de confirmar os fiéis na fé cristã.

Salmo responsorial: Sl 31

De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2. Segunda leitura: 2Tm 4,6-8.17-18

Agora está reservada para mim a coroa da justiça.

São Paulo, nas suas cartas, gosta de usar a linguagem do esporte e da guerra, ao falar de sua ação missionária e da vida cristã. Exemplos não faltam. Hoje ele nos fala que “deu tudo de si” para cumprir sua missão e por isso aguarda a recompensa que lhe está reservada. Paulo está preso. Tem presente a perspectiva do martírio que se aproxima e faz uma avaliação de sua vida missionária. Sua vida foi guiada pela fé, pela esperança e pela caridade (amor). A vida cristã é também um combate, animado pela esperança de vitória, pela fidelidade e amor a Cristo e aos irmãos de fé. É preciso “amor à camisa” (Jesus Cristo), amor ao time (a Igreja). É preciso “suar a camisa” e esperar a recompensa, a coroa da justiça, para que possamos dizer como Paulo: “missão cumprida”.

Aclamação ao Evangelho

Tu és Pedro e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja;
E as portas do inferno não irão derrotá-la.

3. Evangelho: Mt 16,13-19

Tu és Pedro e eu te darei as chaves do Reino dos Céus.

Pedro, como outros discípulos, largou tudo para seguir a Jesus. Tornou-se um entusiasta por Jesus e se destacou pela sua liderança entre os apóstolos. Quando Jesus lhe pergunta: “Quem dizeis que eu sou?” É Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus. Nesta nova Igreja Pedro recebe o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de apascentar as ovelhas e os cordeiros (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Jesus. Pedro é um homem como nós, frágil, humano, pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jura que será sempre fiel a Jesus, mas o nega três vezes… Jesus o conhecia e mesmo assim o escolheu. Previu que Pedro o negaria três vezes, mas prometeu rezar- por ele, pedindo que, por sua vez, confirmasse seus irmãos na fé. Eis a missão de Pedro e do Papa Francisco, que também se confessa frágil e pecador. Rezemos sempre pelo Papa Francisco, como ele próprio nos pediu.


Pedro e Paulo, colunas da Igreja

Frei Almir Guimarães

Pedro e Paulo, fundamentos de nossa fé crista, colunas da Igreja. A liturgia nos faz ouvir Paulo, o arrojado e intrépido Paulo, que afirma ter combatido o bom combate, insiste no fato de que o Senhor esteve sempre a seu lado e deu-lhe forças para a anunciar a mensagem. Pedro, em Cesareia de Filipe,  faz ecoar  sua profissão de fé: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!” Dois apóstolos sempre presentes quando se pensa em Igreja, quando se fala de Igreja. Paulo, o grande ídolo de todos os missionários e pregadores, Pedro que continua sempre vivo na figura do Papa, sucessor desse apóstolo que vive e age para confirmar a fé da Igreja. Belamente, o Prefácio da solenidade assim se exprime: “Pedro, o primeiro a proclamar a fé, fundou a Igreja primitiva, sobre a herança de Israel. Paulo, o mestre e doutor das nações, anunciou-lhes o evangelho da salvação”.

O que as pessoas andam dizendo a respeito de Jesus? Esta a pergunta que fora feita a Pedro e aos apóstolos e continua, através dos tempos, a  ressoar para todos os seguidores de Cristo. O que dizemos a respeito de Cristo?

Esse Jesus das gravuras e dos textos, das preces e das liturgias, esse Jesus dos evangelhos e propalado pelas primeiras gerações cristãs  como Senhor vem do Mistério de Deus. Trata-se da “encarnação” da Palavra, da Comunicação de Deus. Vem na fragilidade de uma criança e morre no alto do patíbulo, sem mais, sem defesa, sem ninguém, mas entregando-se confiantemente ao Pai que o amava.  Deus humanado que se ama até o fim.

Ele é homem, homem mesmo, nada de camuflagem, nada de aparência.  Homem que corre, anda, sonha, ama, espera, exulta de alegria, aprecia a postura simples da mulher que coloca no tesouro do templo todo seu dinheirinho, homem que chora diante da dureza do coração dos homens ou da morte de seu amigo. Homem de coração delicado e sensível, capaz de se enternecer com uma criança e ter toda compreensão para uma mulher surpreendida em adultério e condenada a ser apedrejada por  falsos senhores e doutores da verdade da lei, mas sem coração.

Passa pelo túnel da morte, sorve até o fim o cálice do abandono e é levado até à mansão dos mortos. De lá arranca Adão e todos os que jaziam nas trevas da morte. Depois de passar um tempo nas trevas da morte é arrancado dali pelo Pai. Vive, é o Vivo, o Ressuscitado. Parte o pão com os discípulos em Emaús. Surpreende Maria à beira do sepulcro. Diz que permanecerá com os seus até a consumação dos tempos.   Incruentamente se oferece conosco ao Pai na mesa do Pão Branco.  Insere-se misteriosamente nos sacramentos: água que dá vida, óleo que purifica e fortalece,  amor dos esposos  fortificado em seu amor.  Vive e está em nosso meio.

Somos convidados a conhecê-lo cada vez mais. Não bastam noções intelectuais e a repetição do Credo. Vamos convivendo com ele,   impregnamo-nos de suas palavras,  deixamos que a seiva do tronco que é ele nos atinja profundamente.

Hoje, fala-se muito da necessidade que os discípulos tenham um encontro pessoal com o Mestre.  O Papa Francisco fala muito do tema desse encontro pessoal.

Textos para a reflexão:

Encontrar-nos com Jesus

“Nós cristãos, esquecemos com muita frequência que a fé não consiste em crer em algo, mas crer em Alguém. Não se trata de aderir fielmente a um credo, menos ainda em aceitar cegamente  “um conjunto estranho de doutrinas”, mas de encontrar-nos  com Alguém vivo  que dá sentido radical à nossa vida.

Verdadeiramente decisivo é encontrar-nos com a pessoa de Jesus  Cristo e descobrir, por experiência pessoal, que ele o único que pode responder de maneira plena a nossas perguntas mais decisivas, a nossos desejos mais profundos e a nossas necessidades últimas.

Em nosso tempo se torna cada vez mais difícil crer em algo. As ideologias mais sólidas, os sistemas mais poderosos e as teorias mais brilhantes foram aos poucos cambaleando aos mostrar suas limitações e profundas deficiências.

O ser humano de hoje, desiludido  com tantos dogmas e ideologias, talvez ainda esteja disposto  em crer em pessoas  que o ajudem a viver  dando um novo sentido à sua vida.  Por isso pode dizer o teólogo Karl Lehmann que “o homem moderno só será crente quando tiver  uma autêntica adesão à pessoa de Jesus  Cristo”.

É triste observar a atitude de setores católicos cuja única obsessão  parece ser “conservar a fé” como “um depósito de doutrinas” que se deve saber defender contra o assalto das novas ideologias e correntes.

Crer é outra coisa. Antes de tudo, nós crentes  devemos reavivar nossa adesão profunda à pessoa de Jesus Cristo. Só quando vivermos “seduzidos” por ele e trabalhados pela força regeneradora de sua pessoa, poderemos transmitir hoje seu espírito e sua visão de vida. Do contrário, proclamaremos com os lábios doutrinas sublimes, mas vamos continuar vivendo uma fé medíocre e pouco convincente.

Nós, cristãos, devemos responder  com sinceridade a essa pergunta interpelante de  Jesus:  “ E vós, quem dizeis que eu sou?”  Ibn Arabi  escreveu que  “aquele que foi contagiado por essa enfermidade que se chama Jesus, não pode mais curar-se””. (José Antonio Pagola,  Mateus  p. 203-204)

Jesus propõe um estilo de vida verdadeiramente alternativo

Os valores que Jesus propõe como capazes de levar o ser humano a seu máximo desenvolvimento não deixam de ser, à primeira vista,  desconcertantes:  perdão diante da violência, partilhar em vez de acumular, cooperar em vez de competir, ser austeros e não consumistas, amar sem esperar nada em troca, dar a vida aos outros em vez  em vez de querer ser sempre  desfrutar tudo e reservar para si todo o possível. Trata-se de uma sabedoria alternativa  que só  pode transmitir aquele  que experimentou em sua própria existência  que este caminho – estreito –  leva a uma vida abundante e que pode mesmo chegar à vivência de uma alegria completa.
(Pedro José  Gómez Serrano)


Confessar a Jesus com a vida

José Antonio Pagola

“Quem dizeis vós que Eu sou?” Todos os evangelistas sinóticos citam esta pergunta dirigida por Jesus a seus discípulos na região de Cesareia de Filipe. Para os primeiros cristãos era muito importante lembrar sempre de novo a quem estavam seguindo, como estavam colaborando em seu projeto e por quem estavam arriscando sua vida.

Quando escutamos hoje esta pergunta, temos a tendência de pronunciar as fórmulas que foram sendo cunhadas pelo cristianismo ao longo dos séculos: Jesus é o Filho de Deus feito homem, o Salvador do mundo, o Redentor da humanidade … Será que basta pronunciar estas palavras para converter-nos em “seguidores” de Jesus?

Infelizmente se trata com frequência muito mais de fórmulas aprendidas numa idade infantil, aceitas de maneira mecânica, repetidas de forma ligeira e afirmadas verbalmente, do que vividas seguindo os passos de Jesus.

Confessamos a Cristo por costume, por piedade ou por disciplina, mas vivemos na maioria das vezes sem captar a originalidade de sua vida, sem escutar a novidade de seu apelo, sem deixar-nos atrair por seu amor apaixonado, sem contagiar-nos por sua liberdade e sem esforçar-nos em seguir sua trajetória.

Nós o adoramos como “Deus”, mas Ele não é o centro de nossa vida. Nós o confessamos como “Senhor’: mas vivemos de costas para seu projeto, sem saber muito bem qual era esse projeto e o que pretendia. Nós o chamamos de “Mestre”, mas não vivemos motivados pelo que motivava a vida dele. Vivemos como membros de uma religião, mas não somos discípulos de Jesus.

Paradoxalmente, a “ortodoxia” de nossas fórmulas doutrinais pode dar-nos segurança, dispensando-nos de um encontro mais vivo com Jesus. Há cristãos muito “ortodoxos” que vivem uma religiosidade instintiva, mas não conhecem por experiência o que é nutrir-se de Jesus. Sentem-se “proprietários” da fé, vangloriam-se inclusive de sua ortodoxia, mas não conhecem o dinamismo do Espírito de Cristo.

Não devemos enganar-nos. Cada um de nós deve colocar-se diante de Jesus, deixar-se olhar diretamente por Ele e escutar do fundo do seu ser esta pergunta que Ele nos faz: Quem sou eu realmente para vós? Responde-se a esta pergunta muito mais com a vida do que com palavras sublimes.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


O Papa, o missionário e a comunidade

Pe. Johan Konings

Popularmente, a festa de hoje é chamada o Dia do Papa, sucessor de Pedro. Mas não podemos esquecer que ao lado de Pedro é celebrado também Paulo, o Apóstolo, ou seja, missionário, por excelência. No evangelho, o apóstolo Simão responde pela fé de seus irmãos. Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro. Este nome é uma vocação: Simão deve ser a “pedra” (rocha) que deve dar solidez à comunidade de Jesus (cf. Lc 22,32). Esta “nomeação”vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (cidade, reino) do inferno não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do reino “dos Céus” (= de Deus). A 1ª leitura ilustra essa promessa: Pedro é libertado da prisão pelo anjo do Senhor. Pedro aparece, assim, como o fundamento institucional da Igreja.

Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão de Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, ele se transforma em apóstolo e realiza, mais do que os outros apóstolos inclusive, a missão que Cristo lhes deixou, de serem suas testemunhas até os extremos da terra (At 1,8). Apóstolo dos pagãos, Paulo torna realidade a universalidade da Igreja, da qual Pedro é o guardião. A 2ª leitura é o resumo de sua vida de plena dedicação à evangelização entre os pagãos, nas circunstâncias mais difíceis: a palavra tinha que ser ouvida por todas as nações (v. 17). Não esconder a luz de Cristo para ninguém! O mundo em que Paulo se movimentava estava dividido entre a religiosidade rígida dos judeus farisaicos e o mundo pagão, cambaleando entre a dissolução moral e o fanatismo religioso. Neste contexto, o apóstolo anunciou o Cristo Crucificado como sendo a salvação: loucura para os gregos, escândalo para os judeus, mas alegria verdadeira para quem nele crê. Missão difícil. No fim de sua vida, Paulo pode dizer que “combateu o bom combate e conservou a fé/fidelidade”, a sua e a dos fiéis que ele ganhou. Como Cristo – o bom pastor – não deixa as ovelhas se perderem, assim também o apóstolo – o enviado de Cristo – conserva-lhes a fidelidade.

Pedro e Paulo representam duas dimensões da vocação apostólica, diferentes mas complementares. As duas foram necessárias, para que pudéssemos comemorar hoje os fundadores da Igreja universal. Esta complementariedade dos carismas de Pedro e Paulo continua atual na Igreja hoje: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Pode até provocar tensões, por exemplo, uma teologia “romana” versus uma teologia latino-americana. Mas é uma tensão fecunda. Hoje, sabemos que o pastoreio dos fiéis – a pastoral – não é monopólio dos “pastores constituídos” como tais, a hierarquia. Todos fiéis são um pouco pastores uns para com os outros. Devemos conservar a fidelidade a Cristo – a nossa e a dos nossos irmãos – na solidariedade do “bom combate”.

E qual será, hoje, o bom combate? Como no tempo de Pedro e Paulo, uma luta pela justiça e a verdade em meio a abusos, contradições e deformações. Por um lado, a exploração desavergonhada, que até se serve dos símbolos da nossa religião; por outro, a tentação de largar tudo e de dizer que a religião é um obstáculo para a libertação. Nossa luta é, precisamente, assumir a libertação em nome de Jesus, sendo fiéis a ele; pois, na sua morte, ele realizou a solidariedade mais radical que podemos imaginar.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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