Destaque, Notícias › 29/06/2018

São Pedro e São Paulo

Ninguém pode prender um sonho

Frei Gustavo Medella

Herodes prendera Pedro. Percebera que sua ação demagógica agradava aos poderosos desse tempo. No entanto, vã era toda tentativa de prender o avanço da mensagem que o Apóstolo pregava. Ninguém – nem Herodes nem os poderosos, de ontem e de hoje – consegue prender um sonho. Afinal, o sonho de Pedro não era só dele, mas de um grande número de pessoas que perceberam o encanto da novidade que o humilde pescador trazia na boca e no coração, a Revolução do Evangelho de Jesus Cristo. Neste projeto, quem está no centro é o ser humano pleno e liberto, com todas as chances de oferecer ao mundo aquilo de mais nobre que ele traz em si: a generosidade, a capacidade de entrega de si mesmo, a superação do egoísmo e da autorreferencialidade, tornando-se uma pessoa inteira e feliz para além de toda ilusão entorpecente que conforto, poder e dinheiro possam oferecer.

O sonho de Pedro, que não nascia nele nem mesmo era só dele, já havia alcançado muitos outros corações valentes, como o de Saulo que, à força de situações impactantes, percebera a grandeza e a seriedade d’Aquele que o chamava. “Quem és tu, Senhor?”. Tornou-se Paulo, o Apóstolo dos gentios, capaz de exclamar, mesmo diante do mais cruéis suplícios: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,18).

Ainda hoje, os cristãos são chamados a cultivar a intrepidez destes dois Apóstolos. Diante dos desmandos da “força da grana”, da lógica da exclusão, de uma política que explora e engana em vez de servir, de um mercado cego e surdo diante dos dramas humanos, nada de resignação ou indiferença. Devemos ser movidos pelos sonhos que sonhamos juntos, em Cristo, por Cristo e em Cristo, os mesmos que Pedro e Paulo sonharam. Afinal, ninguém pode prender um sonho.

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Jesus é o Messias

1ª Leitura: At 12,1-11

Salmo: 33

2ª Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18

Evangelho: Mt 16, 13-19

* 13 Jesus chegou à região de Cesaréia de Filipe, e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» 14 Eles responderam: «Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas.» 15 Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» 16 Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.» 17 Jesus disse: «Você é feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que lhe revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu lhe digo: você é Pedro, e sobre essa pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. 19 Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu.» 20 Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias.


* 13-23: Cf. nota em Mc 8,27-33. Pedro é estabelecido como o fundamento da comunidade que Jesus está organizando e que deverá continuar no futuro. Jesus concede a Pedro o exercício da autoridade sobre essa comunidade, autoridade de ensinar e de excluir ou introduzir os homens nela. Para que Pedro possa exercer tal função, a condição fundamental é ele admitir que Jesus não é messias triunfalista e nacionalista, mas o Messias que sofrerá e morrerá na mão das autoridades do seu tempo. Caso contrário, ele deixa de ser Pedro para ser Satanás. Pedro será verdadeiro chefe, se estiver convicto de que os princípios que regem a comunidade de Jesus são totalmente diferentes daqueles em que se baseiam as autoridades religiosas do seu tempo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


São Pedro e São Paulo, ano C

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Ó Deus, que hoje nos concedeis a alegria de festejar São Pedro e São Paulo, concedei à vossa Igreja seguir em tudo os ensinamentos destes Apóstolos que nos deram as primícias da fé”.

1. Primeira leitura: At 12,1-11

Agora sei que o Senhor enviou o seu santo anjo
para me libertar do poder de Herodes.

Em At 1,8, ao se despedir de seus discípulos antes da Ascensão, Jesus traça-lhes o roteiro para a futura missão: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins do mundo”. Durante sua vida pública e depois da ressurreição Jesus preparou seus discípulos para esta missão. Escolheu doze, entre os discípulos, e os chamou de apóstolos. Entre os escolhidos destaca-se a figura de Pedro, como líder deles. Depois da última ceia prevê que todos o abandonariam, até mesmo Pedro, que lhe jura fidelidade, embora Jesus lhe dissesse que, naquela noite, haveria de negá-lo três vezes… Mas Jesus rezou por Pedro: “… eu orei por ti, para que tua fé não falhe; e tu, uma vez convertido, confirma os irmãos” (Lc 22,32). De fato, quando Jesus era condenado pelo Sinédrio Pedro negou três vezes que o conhecia. Pedro, porém, logo se arrependeu e “chorou amargamente”. E Jesus, após sua ressurreição, lhe confirma a missão, antes prometida (evangelho), de apascentar seu rebanho: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros” (Evangelho).

O texto que ouvimos, fecha a 1ª parte dos Atos, dedicada mais à missão de Pedro como testemunha de Jesus Cristo. De fato, depois da ascensão de Jesus ao céu e da vinda do Espírito Santo, Pedro deu testemunho de Cristo em Jerusalém, na Judeia e na Samaria. Agora está preso o rei Herodes Agripa planeja executá-lo, como havia feito com Tiago, irmão de João. Mas é libertado milagrosamente da prisão por um anjo, a fim de continuar testemunhando a fé em Cristo e anunciando seu evangelho. No Evangelho e nos Atos dos Apóstolos Lucas deixa claro que, pela força do Espírito Santo, a Boa-Nova da Salvação não pode ficar acorrentada. Por isso, Pedro é libertado porque “enquanto ele era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente por ele” (At 12,5).

Salmo responsorial: Sl 31

De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

2. Segunda leitura: 2Tm 4,6-8.17-18

Agora está reservada para mim a coroa da justiça.

São Paulo, nas suas cartas, gosta de usar a linguagem do esporte e da guerra, ao falar de sua ação missionária e da vida cristã. Exemplos não faltam. Hoje ele nos fala que “deu tudo de si” para cumprir sua missão e por isso aguarda a recompensa que lhe está reservada. Paulo está preso. Tem presente a perspectiva do martírio que se aproxima e faz uma avaliação de sua vida missionária. Sua vida foi guiada pela fé, pela esperança e pela caridade (amor). A vida cristã é também um combate, animado pela esperança de vitória, pela fidelidade e amor a Cristo e aos irmãos de fé. É preciso “amor à camisa” (Jesus Cristo), amor ao time (a Igreja). É preciso “suar a camisa” e esperar a recompensa, a coroa da justiça, para que possamos dizer como Paulo: “missão cumprida”.

Aclamação ao Evangelho

Tu és Pedro e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja;
E as portas do inferno não irão derrotá-la.

3. Evangelho: Mt 16,13-19

Tu és Pedro e eu te darei as chaves do Reino dos Céus.

Pedro, como outros discípulos, largou tudo para seguir a Jesus. Tornou-se um entusiasta por Jesus e se destacou pela sua liderança entre os apóstolos. Quando Jesus lhe pergunta: “Quem dizeis que eu sou?” É Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus. Nesta nova Igreja Pedro recebe o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de apascentar as ovelhas e os cordeiros (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem a constrói é o próprio Cristo. Pedro é um homem como nós, frágil, humano, pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jurou que será sempre fiel a Jesus, mas o negou três vezes… Jesus o conhecia e mesmo assim o escolheu. Previu que Pedro o negaria três vezes, mas prometeu rezar- por ele, pedindo que, por sua vez, confirmasse seus irmãos na fé. Jesus prometeu dar a Pedro as chaves do reino dos Céus. A tentação é logo pensar em Pedro abrindo as portas do céu quando morremos. Mas, em Mateus, “Reino dos Céus” é a mesma coisa que “Reino de Deus” nos outros evangelhos. Como Mateus escreve, sobretudo, para judeus convertidos a Cristo, evita de pronunciar e escrever o nome de Deus; por isso escreve “Reino dos Céus”.

A missão de um pastor, além de recolher com segurança as ovelhas no seu curral, é também abrir as portas do curral em busca de verdes pastagens e de águas correntes. É isso que o Papa Francisco pede quando nos convida a sermos uma “Igreja em saída”. Porque é no dia-a-dia de nossas vidas que se anuncia e se vive o Reino de Deus. É no seguimento de Jesus Cristo, guiados pelo Papa nosso Pastor, que ganhamos o passa-porte livre para com ele entrarmos na “casa” do Pai do Céu (Jo 14,2-4).

A Igreja de Cristo é uma Igreja em saída, livre das cadeias que prendem a nossos medos e temores (Salmo responsorial). Livres, como Pedro (1ª leitura), para viver e anunciar o Evangelho nos dias de hoje.

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O construtor de pontes

Frei Clarêncio Neotti

Na festa de São Pedro e São Paulo, a Igreja lembra com carinho o Papa, sucessor direto de Pedro no governo da Igreja e herdeiro do espírito universalista de Paulo, que sempre de novo recorda que o Evangelho deve ser pregado a todos em todos os tempos e lugares. Ao Papa dirigem-se as palavras do Evangelho de hoje, com a mesma força com que foram dirigidas a Pedra em Cesareia de Filipe, perto das nascentes do rio Jordão. Ele tem a missão de ser “o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos, quer da multidão dos fiéis” (Lumen Gentium, 23). Por isso, ele é chamado de Sumo Pontífice, isto é, o maior responsável pelo lançamento de pontes (pontífice significa ‘construtor de pontes’): pontes capazes de unir dois pontos diversos, dois povos diferentes, múltiplas culturas entre si. Evidentemente que ele, como pessoa humana, não teria a consistência suficiente para essas pontes de unidade. Mas a força é de Jesus Cristo, único capaz de “fazer de dois um só povo, reconciliando ambos com Deus num só corpo pela cruz” (Ef 2,14.16).

Como Pedro, o Papa hoje é o fundamento da comunidade do povo de Deus. O Concílio o chamou de “cabeça visível de toda a Igreja” (Lumen Gentium, 18). O Papa, também chamado Santo Padre (e padre, aqui, significa pai), é o nosso pai na fé. Uma de suas principais tarefas é promover em todo o mundo a fé, a esperança e a caridade, as três virtudes pilastras da comunidade cristã.

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Afinal de contas, quem sou eu para você?

Frei Almir Guimarães

tique-20Solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo. Tempo de pensar na figura de Pedro que, de alguma forma, se perpetua na figura do Papa Francisco, aquele que é responsável pela unidade da comunidade  dos  discípulos de Cristo Jesus. Os fiéis cristãos se voltam para a figura do Cardeal Bergoglio que de Buenos Aires foi levado a ser o Pastor Universal.  Dia de preces para que  o Papa Francisco seja cercado de pessoas de total confiança e possa continuar insistindo numa Igreja acolhedora, samaritana e em saída.  Que não desanime.  Ele age sobre a rocha.

tique-20Papa Francisco e Pedro, o apóstolo, se entrelaçam. Sempre nesta solenidade de junho lemos a confissão de fé de Pedro em Cesareia de Filipe: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!”.  A pergunta de ontem continua a ressoar  e chega aos nossos ouvidos.  Precisamos sempre de novo responde-la: “Vocês, quem dizeis que eu sou?”   Cada um precisa, ao longo do tempo da vida,  ir completando sua  resposta

tique-20Para muitos tudo começou muito simples e modestamente.  Aquela gravura do Coração de Jesus na parede da sala da casa paterna.  Contemplávamos o quadro com respeito.  “Papai do céu…”. Crianças que éramos tínhamos o habito de beijar sua figura.  Nascidos em famílias católicas fizemos o catecismo,  íamos à missa,  rezávamos os mistérios do terço… nem sempre  com plena consciência…  Talvez muitos de nós tenhamos sido mais membros de uma religião do que ardorosos amigos e discípulos de    Jesus que é Deus, Jesus que faz milagres, Jesus que morre na cruz…Jesus meio maravilhoso que conservamos dentro de nós com certa nostalgia.  Jesus da Semana Santa e da missa de sétimo dia.

tique-20Até que ponto esse Jesus, de fato, veio a fazer parte de nossa história pessoal? Leva tempo para a gente “assimilar”  o tesouro da fé.  Difícil responder quem ele é, de fato, para nós. Houve tempo em que fomos sendo levados a olhar com carinho algumas cenas dos evangelhos.  Penso no lava-pés.  Fomos compreendendo que ele vinha do Mistério da Trindade, mas era um Deus diferente. Um Deus que tira o manto, lava os pés e se torna simplicidade e humildade. Na nossa juventude um sacerdote santo,  pessoas límpidas, amigas de Jesus foram nos questionando.  E, dentro de nós, havia também aquela palavra de Pedro: “A quem podemos ir, somente tu tens palavras de vida eterna!”

tique-20Houve um tempo em que deixamos de comungar o seu corpo por rotina e costume. A vida foi colocando dentro de nós fome e sede de beleza, de arrumação interior, de  .. E esse Jesus dos evangelhos  foi se desenhando  como vida de nossas vidas. Sobretudo fomos  reconhecendo, tomando consciência  que o Menino das Palhas e o Mártir do Calvário não é personagem do passado, mas vive, está em ação, está no meio de nós,  na Palavra que ecoa na Igreja,  no pão da eucaristia, no amor dos esposos, no rosto dos mais humildes e na voz rouca de tantos e tantas. Ele foi arrancando de nós uma resposta do homem maduro.  “Tu és o absoluto da vida”.

tique-20Palavras de José Antonio Pagola: “Jesus continua vivo. Nós, cristãos não pudemos disseca-lo  com nossa mediocridade.  Ele não permite que o disfarcemos. Não se deixa etiquetar nem  reduzir a ritos, fórmulas e costumes.  Jesus sempre desconcerta quem se aproxima dele com postura aberta e sincera. Sempre é diferente do que esperávamos. Sempre abre novas brechas em nossa vida,  rompe nossos esquemas e nos atrai para uma vida nova. Quanto mais o conhecemos, mais sabemos que  ainda estamos começando a descobri-lo  (…). Vamos conhecendo a Jesus na medida  em que nos entregamos a ele. Só há um caminho  para aprofundarmos em seu mistério:  segui-lo. Seguir humildemente seus passos, abrir-nos com ele ao Pai, reproduzir seus gestos de amor e de ternura, olhar a vida com seus olhos, compartilhar seu destino doloroso, esperar sua ressurreição” ( Pagola, Mateus, p. 201).

tique-20Nada mais urgente para os cristãos do que fomentar e alimentar encontros pessoais com Cristo.  Frequentar com avidez as páginas do Sermão da Montanha,  degustar sua presença na comunidade dos fieis,  ler os  salmos e encontrar neles o Mestre,  levar uma vida interior e não derramada num fuzuê sem nexo.

Palavras fortes do Papa Francisco:

tique-20Todos os cristãos, em qualquer lugar e situação em que se encontrem, estão convidados a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por ele, de procura-lo dia a dia, sem cessar.  (A alegria do Evangelho, n. 3).

tique-20Com sua novidade Jesus pode renovar nossa vida e nossa comunidade, e a proposta cristã ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. Jesus Cristo pode romper também  os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisiona-lo e surpreende-nos com sua criatividade divina”  ( A alegria do Evangelho, n.11).

Prece

Jesus,
tu me conheces e sabes o que quero,
tanto meus projetos quanto minhas fraquezas.
Não posso ocultar-te nada, Jesus.
Gostaria de  deixar de pensar em mim
e dedicar  mais tempo a ti.
Gostaria de entregar-me inteiramente a ti.
Gostaria de seguir-te aonde fores.
Mas nem isso me atrevo a dizer-te,  porque sou fraco.
Tudo o sabes melhor do que eu.
Sabes de que barro sou feito
tão frágil e inconstante.
Por isso mesmo preciso ainda mais de ti, para que me guies sem cessar, para que sejas  meu apoio e meu descanso.
Obrigado, Jesus, por tua amizade”

(Autor anônimo)

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Confessar a Jesus com a vida

José Antonio Pagola

“Quem dizeis vós que Eu sou?” Todos os evangelistas sinóticos citam esta pergunta dirigida por Jesus a seus discípulos na região de Cesareia de Filipe. Para os primeiros cristãos era muito importante lembrar sempre de novo a quem estavam seguindo, como estavam colaborando em seu projeto e por quem estavam arriscando sua vida.

Quando escutamos hoje esta pergunta, temos a tendência de pronunciar as fórmulas que foram sendo cunhadas pelo cristianismo ao longo dos séculos: Jesus é o Filho de Deus feito homem, o Salvador do mundo, o Redentor da humanidade … Será que basta pronunciar estas palavras para converter-nos em “seguidores” de Jesus?

Infelizmente se trata com frequência muito mais de fórmulas aprendidas numa idade infantil, aceitas de maneira mecânica, repetidas de forma ligeira e afirmadas verbalmente, do que vividas seguindo os passos de Jesus.

Confessamos a Cristo por costume, por piedade ou por disciplina, mas vivemos na maioria das vezes sem captar a originalidade de sua vida, sem escutar a novidade de seu apelo, sem deixar-nos atrair por seu amor apaixonado, sem contagiar-nos por sua liberdade e sem esforçar-nos em seguir sua trajetória.

Nós o adoramos como “Deus”, mas Ele não é o centro de nossa vida. Nós o confessamos como “Senhor”, mas vivemos de costas para seu projeto, sem saber muito bem qual era esse projeto e o que pretendia. Nós o chamamos de “Mestre”, mas não vivemos motivados pelo que motivava a vida dele. Vivemos como membros de uma religião, mas não somos discípulos de Jesus.

Paradoxalmente, a “ortodoxia” de nossas fórmulas doutrinais pode dar-nos segurança, dispensando-nos de um encontro mais vivo com Jesus. Há cristãos muito “ortodoxos” que vivem uma religiosidade instintiva, mas não conhecem por experiência o que é nutrir-se de Jesus. Sentem-se “proprietários” da fé, vangloriam-se inclusive de sua ortodoxia, mas não conhecem o dinamismo do Espírito de Cristo.

Não devemos enganar-nos. Cada um de nós deve colocar-se diante de Jesus, deixar-se olhar diretamente por Ele e escutar do fundo do seu ser esta pergunta que Ele nos faz: Quem sou eu realmente para vós! Responde-se a esta pergunta muito mais com a vida do que com palavras sublimes.

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O Papa, o missionário e a comunidade

Pe. Johan Konings

Popularmente, a festa de hoje é chamada o Dia do Papa, sucessor de Pedro. Mas não podemos esquecer que ao lado de Pedro é celebrado também Paulo, o Apóstolo, ou seja, missionário, por excelência.

No evangelho, o apóstolo Simão responde pela fé de seus irmãos. Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro. Este nome é uma vocação: Simão deve ser a “pedra”(rocha) que deve dar solidez à comunidade de Jesus (cf. Lc 22,32). Esta “nomeação” vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (cidade, reino) do inferno não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do reino “dos Céus” (= de Deus). A 1ª leitura ilustra essa promessa: Pedro é libertado da prisão pelo anjo do Senhor. Pedro aparece, assim, como o fundamento institucional da Igreja.

Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão de Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, ele se transforma em apóstolo e realiza, mais do que os outros apóstolos inclusive, a missão que Cristo lhes deixou, de serem suas testemunhas até os extremos da terra (At 1,8). Apóstolo dos pagãos, Paulo torna realidade a universalidade da Igreja, da qual Pedro é o guardião. A 2ª leitura é o resumo de sua vida de plena dedicação à evangelização entre os pagãos, nas circunstâncias mais difíceis: a palavra tinha que ser ouvida por todas as nações (v. 17). Não esconder a luz de Cristo para ninguém! O mundo em que Paulo se movimentava estava dividido entre a religiosidade rígida dos judeus farisaicos e o mundo pagão, cambaleando entre a dissolução moral e o fanatismo religioso. Neste contexto, o apóstolo anunciou o Cristo Crucificado como sendo a salvação: loucura para os gregos, escândalo para os judeus, mas alegria verdadeira para quem nele crê. Missão difícil. No fim de sua vida, Paulo pode dizer que “combateu o bom combate e conservou a fé/fidelidade”, a sua e a dos fiéis que ele ganhou. Como Cristo – o bom pastor – não deixa as ovelhas se perderem, assim também o apóstolo – o enviado de Cristo – conserva-lhes a fidelidade.

Pedro e Paulo representam duas dimensões da vocação apostólica, diferentes mas complementares. As duas foram necessárias, para que pudéssemos comemorar hoje os fundadores da Igreja universal. Esta complementariedade dos carismas de Pedro e Paulo continua atual na Igreja hoje: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Pode até provocar tensões, por exemplo, uma teologia “romana” versus uma teologia latino-americana. Mas é uma tensão fecunda. Hoje, sabemos que o pastoreio dos fiéis – a pastoral – não é monopólio dos “pastores constituídos” como tais, a hierarquia. Todos fiéis são um pouco pastores uns para com os outros. Devemos conservar a fidelidade a Cristo – a nossa e a dos nossos irmãos – na solidariedade do “bom combate”.

E qual será, hoje, o bom combate? Como no tempo de Pedro e Paulo, uma luta pela justiça e a verdade em meio a abusos, contradições e deformações. Por um lado, a exploração desavergonhada, que até se serve dos símbolos da nossa religião; por outro, a tentação de largar tudo e de dizer que a religião é um obstáculo para a libertação. Nossa luta é, precisamente, assumir a libertação em nome de Jesus, sendo fiéis a ele; pois, na sua morte, ele realizou a solidariedade mais radical que podemos imaginar.

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