Notícias › 28/05/2019

Solenidade da Ascensão do Senhor

Ascensão: formatura na Escola de um Deus Educador

Frei Gustavo Medella

O termo “educar”, a partir de sua etimologia, significa “conduzir para fora”. A tarefa do educador seria, portanto, a de proporcionar ao educando a possibilidade de sair de si mesmo, de olhar para além dos próprios limites e perceber nas diferenças um lugar de encontro e comunhão, aprendendo a viver e conviver em sociedade.

Em Jesus Cristo, Deus se faz educador de seus e filhos e filhas. Toda a caminhada do Filho de Deus se deu num processo constante de educação, no qual o Senhor incansavelmente se dispôs a conduzir os seus. O núcleo de seus ensinamentos está contido nas lições do Tríduo Pascal e passa pelo Lava-Pés, pelo Mandamento do Amor, pela Paixão e pela Morte na Cruz e, finalmente, pela Páscoa da Ressurreição. Em todos estes episódios, Jesus faz um esforço absoluto para provocar seus seguidores a saírem de si, a vencerem o medo, a se entregarem sem reservas à missão.

Vencedor absoluto do pecado e da morte, o Ressuscitado segue pacientemente seu caminho de educador a fim de solidificar no coração dos seus o vigor apostólico necessário à construção do Reino. Na introdução aos Atos dos Apóstolos (At 1,1-11), proclamada na Primeira Leitura nesta Solenidade da Ascensão, o autor sagrado faz um resumo das aparições do Ressuscitado a seus discípulos.

Finalmente sobe aos céus. É como se fosse a solenidade de formatura na Escola de Jesus Educador. O Mestre, sempre presente, percebe que o fruto da missão está maduro no coração dos seus. Garante a permanência próxima e, ao mesmo tempo, entrega à comunidade o compromisso de testemunhar as maravilhas de um mundo a ser construído conforme os planos e sonhos de Deus. O diploma na escola de Cristo Educador não deve, portanto, ser pendurado na parede como relíquia, mas configura-se num convite permanente aos batizados e batizadas a fim de que levem para todos os cantos a Boa-Nova da Salvação.


Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: At 1,1-11

1No meu primeiro livro, ó Teófilo, já tratei de tudo o que Jesus fez e ensinou, desde o começo, 2até o dia em que foi levado para o céu, depois de ter dado instruções pelo Espírito Santo aos apóstolos que tinha escolhido. 3Foi a eles que Jesus se mostrou vivo depois da sua paixão, com numerosas provas. Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus. 4Durante uma refeição, deu-lhes esta ordem: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai, da qual vós me ouvistes falar: 5‘João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias’”.

6Então, os que estavam reunidos perguntaram a Jesus: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino em Israel?”

7Jesus respondeu: “Não vos cabe saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com a sua própria autoridade. 8Mas recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra”. 9Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo.

10Os apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia. Apareceram então dois homens vestidos de branco, 11que lhes disseram: “Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”.


Responsório: Sl 46

— Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta!

— Por entre aclamações Deus se elevou, o Senhor subiu ao toque da trombeta!

— Povos todos do universo, batei palmas,/ gritai a Deus aclamações de alegria!/ Porque sublime é o Senhor, o Deus Altíssimo,/ o soberano que domina toda a terra.

— Por entre aclamações Deus se elevou,/ o Senhor subiu ao toque da trombeta. / Salmodiai ao nosso Deus ao som da harpa,/ salmodiai ao som da harpa ao nosso Rei!

— Porque Deus é o grande Rei de toda a terra,/ ao som da harpa acompanhai os seus louvores!/ Deus reina sobre todas as nações,/ está sentado no seu trono glorioso.


Segunda Leitura: Ef 1,17-23

Irmãos: 17O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, vos dê um espírito de sabedoria que vo-lo revele e faça verdadeiramente conhecer. 18Que ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos, 19e que imenso poder ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com a sua ação e força onipotente.

20Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, 21bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania ou qualquer título que se possa mencionar, não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro.

22Sim, ele pôs tudo sob os seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja, 23que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal.


E foi levado para o céu

Evangelho: Lc 24,46-53

46 E continuou: «Assim está escrito: ‘O Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia, 47 e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém’. 48 E vocês são testemunhas disso.

49 Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu. Por isso, fiquem esperando na cidade, até que vocês sejam revestidos da força do alto.»

50 Então Jesus levou os discípulos para fora da cidade, até Betânia. Aí, ergueu as mãos e os abençoou. 51 Enquanto os abençoava, afastou-se deles, e foi levado para o céu. 52 Eles o adoraram, e depois voltaram para Jerusalém, com grande alegria. 53 E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus.

* 44-53: A missão cristã nasce da leitura das Escrituras, onde se percebe o testemunho de Jesus (vida-morte-ressurreição) como seu centro e significado. Essa missão continua no anúncio de Jesus a todos os povos, e provoca a transformação da história a partir da atividade de Jesus voltada para os pobres e oprimidos. A conversão e o perdão supõem percorrer o caminho de Jesus na própria vida e nos caminhos da história. A missão é iluminada pelo Espírito do Pai e de Jesus (a «força que vem do alto»). O Evangelho de Lucas termina em Jerusalém e no Templo, como havia começado. Daí os apóstolos partirão para a missão «até os confins da terra» (At 1,8).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Começa o tempo da Igreja

Frei Clarêncio Neotti

Lucas é o Evangelista que sempre recorda a universalidade da redenção. Volta a acentuá-la hoje (v. 47). Todos os povos, todas as pessoas podem encontrar a santidade no nome de Jesus (At 4,12). Isaías havia predito: “Toda a carne verá a salvação de Deus” (Is 40,5). Simeão, com o Menino nos braços, no templo, profetizara: “Ele será luz (salvação) para todos os povos” (Lc 2,32). Em Cristo começou o tempo propício para a salvação (2Cor 6,2). Na sua morte e ressurreição, acontecidas historicamente em Jerusalém, todos podem beber na fonte da plenitude da vida (Jo 10,10). Agora, completada a obra, Jesus diz aos Apóstolos que a partir de Jerusalém, isto é, de sua morte e ressurreição, a salvação deve ser levada a todos (v. 48) e ser sua principal missão. Começa o tempo da Igreja. Cristo parte, mas permanece.

A Igreja é seu corpo (Ef 1,23) e sua plenitude. Os cristãos são as testemunhas vigilantes da morte, ressurreição e glória do Senhor. Começa o tempo do despertar e crescer das sementes do Reino. Da nova e definitiva Aliança. Da nova e eterna primavera. Do tempo da “esperança depositada no céu” (Cl 1,5). Nada de orfandade. Somos a nova família de Deus, vivemos em comunhão com ele, porque “amamos Jesus e guardamos sua palavra” (Jo 14,23). Por isso louvamos a Deus (v. 53) com “grande alegria” (v. 52).


O Senhor Jesus está na glória

Temos saudades do céu?

Frei Almir Guimarães

Teria sido bom poder retê-lo entre nós. O vazio de sua presença viria nos fazer mergulhar em terrível angústia. Tivemos nele, afinal, alguém de insubstituível. Não nos incomodava. Era, na verdade, o contrário de alguém que perturba: nosso apoio, nosso sustentáculo; ele era bom, de uma bondade tão simples que a havíamos tomado como qualquer coisa de ordinário.
Karl Ranher

♦ Ressoam aos nossos ouvidos os relatos do Novo Testamento que falam da Ascensão do Senhor Jesus. Ele, o mais belo dos filhos dos homens, não podia, com efeito, permanecer definitivamente entre nós. Seu lugar, sua casa definitiva era no seio da Trindade. Não o tivemos mais entre nós daquela maneira tão singela como até então: bebendo de nossas fontes, sentando-se à mesa com puros e não tão puros, contando histórias de moedas e ovelhas perdidas, de administradores corruptos, de fermento, de sal, de luz, de gente jogada à beira das estrada… Quantas histórias ele sabia contar! Ele havia prevenido que tinha que voltar para o seu Pai e nosso Pai.

♦ Deu ao enigma de nossa vida o nome de Pai. Ele era a misericórdia de Deus e sabedoria eterna morando entre nós. Pudemos representar Deus de uma maneira diferente das abstrações filosóficas. Deus, um Pai que nos ama! Na terra finalmente vivia alguém que não precisava de palavras eruditas e complicadas para falar das coisas de Deus. Servia-se de silêncios e usava palavras curtas, colocava gestos e toques eloquentes.

♦ Ele não podia continuar entre nós naquela figura simplesmente humana. Ele havia conhecido a realidade da morte e nesse preciso momento conferiu-lhe um sentido de amor, de dom de sai para o bem de todos. Deu sua vida para que ninguém mais precisasse temer a morte. Sua morte se transformou em vida para que o seus fossem libertados de todo temor e medo. Levou para a morte o nosso corpo que ele havia adquirido de uma mulher de nossa raça. Pela sua morte corporal, nosso irmão mais velho, vencer nossa morte e nas alturas prepara um lugar para nós.

♦ Nossos olhos estão fitos nas alturas, na glória. Lá é nossa casa definitiva. Estamos, no entanto, ainda no tempo da peregrinação e das andanças. Ainda na caminhada e, misteriosamente, ele nos acompanha. Prepara um lugar para aqueles que morreram a si mesmos e renasceram para o mundo novo que começou a existir com sua encarnação, pregação, paixão, morte e ressurreição.

♦ Jesus viera do Mistério do Alto. Esse Jesus que se remexia nas palhas do presépio e que precisou se contorcer no alto da cruz foi a realização do sonho de Deus: morar na casa dos homens, na sua intimidade, viver sua vida e sempre apontar para o alto. Um alto que não é geográfico como as alturas das montanhas e dos espaços siderais. Um Alto diferente. O Alto das coisas de Deus. O Alto do Mistério. Nos espaços da Trindade penetrou nossa natureza humana. Ele subiu ao mais alto dos céus.

♦ Segundo os Atos dos Apóstolos a nuvem, a nuvem de Deus cobriu Jesus, o irmão mais velho, e os apóstolos não puderam mais vê-lo. Os anjos ou o Espírito sussurraram que não era para ficar olhando para o céu. Uma nova missão: “Homens da Galileia, por que ficais ai olhando parados para o céu”. Começava, naquele momento, para valer a missão dos anunciadores da Boa Nova. Ir pelo mundo anunciar sua vitória, seu evangelho, sua força. E não podemos descansar. Anunciar que ele vive e que um pedaço de nós, a carne humana de Jesus de Nazaré, está na esfera da glória. Lá é nosso lugar e nossa casa.


Para a oração e meditação

AO ENTRAR NA GLÓRIA

Bela página cheia de poesia de Santo Epifânio, bispo:

A maior das festas é aquela diante da qual todo discurso nada mais é do que um simples balbucio. Na verdade, hoje, na festa da ascensão, jorra uma torrente de delícias e tudo se enche de alegria. Hoje, o Cristo, abre a porta do céu refulgente de luz. Vinde e contemplai esse cocheiro que, de modo maravilhoso, atravessa os espaços celestes. Ninguém, nem mesmo Elias, mais subiu ao céu, mas somente aquele que de lá desceu, o Filho Unigênito de Deus. Ele mesmo o afirma claramente: Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu. Na verdade, esse bom Pastor, que havia deixado nas montanhas celestes as noventa e nove ovelhas. Isto é, os anjos, para procurar a ovelha que se havia perdido, tendo-a encontrado, colocou-a misericordiosamente sobre os ombros e a reconduziu ao aprisco celeste. Ofereceu-a então ao Pai do céu, dizendo: “Pai, encontrei a ovelha perdida que a serpente havia induzido ao erro. Tendo-a visto coberta de lama de uma vida de pecado, estendendo a minha mão divina, imediatamente a levantei e, impelido por uma profunda compaixão, lavei-a no rio Jordão, perfumando-a depois com a unção do Espírito Santo. Agora, ressuscitado venho à tua presença para oferecer à tua divindade este dom digno de ti: a ovelha reencontrada”.

Lecionário Monástico III, p.547


O céu começa na terra

José Antonio Pagola

Falar do céu pode parecer a muitos não só escapismo e evasão covarde dos problemas que nos envolvem, mas até um insulto insuportável e uma zombaria. Não é com o céu que nos devemos importar, mas com a terra, a nossa terra.

Provavelmente muitos subscreveriam de alguma forma as palavras apaixonadas de Friedrich Nietzsche: “Eu vos conjuro, meus irmãos, permanecei fiéis à terra e não creiais nos que vos falam de experiências supraterrenas. Consciente ou inconscientemente são uns envenenadores … A terra está cansada deles: que vão embora de uma vez!”

Mas, o que é ser fiel a esta terra que clama por uma plenitude e reconciliação totais? O que é ser fiel a esta humanidade que não pode alcançar essa libertação e essa paz que tão ardentemente busca? O que é ser fiel ao ser humano e a toda a sede de felicidade que ele encontra em seu ser?

Nós crentes fomos acusados de ter fixado os olhos no céu e esquecido a terra. Sem dúvida é verdade que uma esperança mal-entendida levou muitos cristãos a abandonar a construção da terra, e inclusive a suspeitar das conquistas humanas nesta vida.

No entanto, a esperança cristã consiste precisamente em buscar e esperar a plenitude total desta terra. Crer no céu é procurar ser fiel a esta terra até o fim, sem defraudar nem desesperar de nenhum anseio ou aspiração
verdadeiramente humanos.

A esperança que nos leva a desinteressar-nos dos problemas e sofrimentos desta terra não é esperança cristã. Precisamente porque crê, busca e espera um mundo novo e definitivo, o crente não pode conformar-se com este mundo cheio de lágrimas, sangue, injustiça, mentira e violência.

Quem não faz nada para mudar este mundo não crê em outro melhor. Quem não trabalha para desterrar a violência não crê numa sociedade fraterna. Quem não luta contra a injustiça não crê num mundo mais justo. Quem não trabalha para libertar o ser humano de suas escravidões não crê num mundo novo e feliz. Quem não faz nada para mudar a terra não crê no céu.


O Espírito do Senhor Jesus e nossa missão

Pe. Johan Konings

A 1ª leitura e o evangelho nos contam como os apóstolos viveram as últimas aparições de Jesus ressuscitado: como despedida provisória e como promessa. Jesus não voltaria até a consumação do mundo, mas deixou nas mãos deles a missão de levar a salvação e o perdão dos pecados a todos que quisessem converter-se, no mundo inteiro. E prometeu-lhes o Espírito Santo, a força de Deus, que os ajudaria a cumprir sua missão.

A vitalidade e juventude da Igreja, até hoje, tem sua raiz nesta herança que Deus lhe deixou. “É bom para vocês que eu me vá – diz Jesus no evangelho de João – porque, senão, não recebereis o Paráclito, o Espírito da Verdade” (1016,7). Jesus salvou o mundo movido pelo Espírito e dando a sua vida pelos homens. Agora, nós devemos dar continuidade a esta obra, geração após geração. O Espírito de Jesus e do Pai deve animar em nós, e através de nós, um testemunho igual ao de Jesus: deve fazer revi ver Jesus em nós. O que salva o mundo não é a presença física de Jesus para todas as gerações, mas sim o Espírito que ele gerou em nós pela morte por amor – o Espírito do Pai e dele mesmo.

A Igreja não caiu no vazio depois da Ascensão de Jesus. Antes, entrou com ele na plenitude do tempo da salvação e da reconciliação, embora não de vez e por completo. Tem que lutar para realizar o que Jesus já vive em plenitude. Ainda não está na mesma glória, na mesma união definitiva com Deus em que está o seu fundador, mas vive movida pelo mesmo Espírito, e este nunca lhe faltará até a hora do reencontro completo. A Igreja terá que expor às claras as contradições, as injustiças, as opressões que impedem a reconciliação e o perdão. Terá que urgir opção e posicionamento, e também transformação dos corações e das estruturas do mundo, para que um dia o Cristo glorioso seja a realidade de todos nós.

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