Destaque, Notícias › 04/01/2019

Solenidade da Epifania do Senhor

As cinco pontas da estrela de Belém

Frei Gustavo Medella

Na cena do presépio, discreta, porém luminosa, aparece a figura de uma estrela. Ela foi a responsável por guiar os pastores, e depois os magos, na direção do recém-nascido pobre e peregrino deitado sobre as palhas. Estes últimos, homens dos sinais, perceberam no céu a luz que os guiaria à verdadeira Luz. Juntos com os Reis Magos, somos convidados a fixar os olhos nesta estrela que paira sobre Jesus, Maria e José na manjedoura de Belém. É uma estrela de cinco pontas, que pode nos inspirar cinco atitudes capazes e nos aproximar cada vez mais do Menino Jesus.

A primeira ponta é a da tolerância, moeda de grande valor que anda em falta no mercado dos relacionamentos humanos. Percebe-se, especialmente nos últimos tempos, um acentuado clima de preconceito diante das diferenças. A questão migratória, por exemplo, escancara as contradições de uma sociedade que não tem sido habilidosa na arte da convivência. Fronteiras e portas fechadas, discursos racistas, atitudes de violência e exclusão ferem milhões de filhos e filhas de Deus mundo afora e também no Brasil. O Menino de Belém, apesar de frágil e pequenino, está sempre de braços abertos para acolher quem vem a seu encontro. Ele também nos convida a sermos presença de acolhida e tolerância na vida uns dos outros, especialmente daqueles que são diferentes de nós.

A segunda ponta é a do diálogo. Dialogar é partir do pressuposto de que ninguém isoladamente é dono absoluto da verdade e que o outro deve ser considerado em suas opiniões e experiências. A arte de dialogar não pode jamais abrir mão da disposição para a escuta atenta e interessada naquilo que o outro tem a me dizer, seja em gestos ou palavras.

A terceira ponta é a da humildade. Humilde é aquele que tem consciência de ter nascido da terra, conforme Adão, segundo o relato do livro dos Gênesis. Terra é matéria-prima do chão que, mesmo pisado e com frequência esquecido, é lugar de sustentação e elemento fundamental para uma caminhada. Ninguém caminha sem chão. Nascer do chão, ainda que pareça um drama, é a grande graça do ser humano que, no desapego de sua finitude, tem a alegria de se descobrir amado por Deus infinito.

A quarta ponta deriva da humildade, e se chama desapego. No presépio não existe esbanjamento. Por outro lado, nada é supérfluo. As palhas, os animais, Jesus, Maria e José, cada elemento tem o seu papel para oferecer ao Menino o pouco do que ele precisa para se fazer presença entre nós. A exemplo do Menino de Belém, de muito mais não precisamos para viver: teto, terra, trabalho, relações, saúde, educação, repouso. É motivo de tristeza e preocupação vivermos numa sociedade que tem fracassado em oferecer este mínimo necessário a seus filhos e filhas. Falta-nos desapego.

A quinta e última ponta é a Misericórdia. Na raiz desta palavra, o coração. Um dos grande desafios do Natal é treinarmos o ouvido para escutar as batidas fracas, mas fundamentais, do coração do Menino Deus. Ouvir o ritmo desta pulsação divina permite nos coloquemos na mesma sintonia de um coração treinado desde sempre para amar e servir. Quando nosso coração começa a bater no ritmo do coração de Deus, passamos a perceber a urgência de sermos presença divina nos lugares onde Deus deseja continuar nascendo.


Leituras bíblicas para esta solenidade

1ª Leitura: Is 60, 1-6

1Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor.

2Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. 3Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora.

4Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços. 5Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte, pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações; 6será uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor.

Responsório (Sl 71)

— As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!

— As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!

— Dai ao Rei vossos poderes, Senhor Deus, vossa justiça ao descendente da realeza! Com justiça ele governe o vosso povo, com equidade ele julgue os vossos pobres.

— Nos seus dias a justiça florirá e grande paz, até que a lua perca o brilho! De mar a mar estenderá o seu domínio, e desde o rio até os confins de toda a terra!

— Os reis de Társis e das ilhas hão de vir e oferecer-lhe seus presentes e seus dons; e também os reis de Seba e de Sabá hão de trazer-lhe oferendas e tributos. Os reis de toda a terra hão de adorá-lo, e todas as nações hão de servi-lo.

— Libertará o indigente que suplica, e o pobre ao qual ninguém quer ajudar. Terá pena do indigente e do infeliz, e a vida dos humildes salvará.

Segunda Leitura (Ef 3,2-3a.5-6)

 Irmãos: 2Se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, 3ae como, por revelação, tive conhecimento do mistério.

5Este mistério, Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.

Jesus, perigo ou salvação?

Evangelho: Mt 2, 1-12

* 1 Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judéia, no tempo do rei Herodes, alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, 2 e perguntaram: «Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para prestar-lhe homenagem.»

3 Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém. 4 Herodes reuniu todos os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei, e lhes perguntou onde o Messias deveria nascer. 5 Eles responderam: «Em Belém, na Judéia, porque assim está escrito por meio do profeta: 6 ‘E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais cidades de Judá, porque de você sairá um Chefe, que vai apascentar Israel, meu povo.’ «7 Então Herodes chamou secretamente os magos, e investigou junto a eles sobre o tempo exato em que a estrela havia aparecido. 8 Depois, mandou-os a Belém, dizendo: «Vão, e procurem obter informações exatas sobre o menino. E me avisem quando o encontrarem, para que também eu vá prestar-lhe homenagem.»

9 Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até que parou sobre o lugar onde estava o menino. 10 Ao verem de novo a estrela, os magos ficaram radiantes de alegria.

11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e lhe prestaram homenagem. Depois, abriram seus cofres, e ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra. 12 Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, partiram para a região deles, seguindo por outro caminho.»


* 2,1-12: Jesus é o Rei Salvador prometido pelas Escrituras. Sua vinda, porém, desperta reações diferentes. Aqueles que conhecem as Escrituras, em vez de se alegrarem com a realização das promessas, ficam alarmados, vendo em Jesus uma séria ameaça para o seu próprio modo de viver. Outros, apenas guiados por um sinal, procuram Jesus e o acolhem como Rei Salvador. Não basta saber quem é o Messias; é preciso seguir os sinais da história que nos encaminham para reconhecê-lo e aceitá-lo. A cena mostra o destino de Jesus: rejeitado e morto pelas autoridades do seu próprio povo, é aceito pelos pagãos.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Comentários de Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, que hoje revelastes o vosso Filho às nações, guiando-as pela estrela, concedei aos vossos servos e servas que já vos conhecem pela fé, contemplar-vos um dia face a face no céu”.

Primeira leitura: Is 60,1-6

Apareceu sobre ti a glória do Senhor.

Em 597 aC, Nabucodonosor conquistou Jerusalém e levou a elite governante de Judá, inclusive o sacerdote Ezequiel. Na época pós-exílica, o profeta anônimo, autor deste texto, anima os exilados a retornarem a Jerusalém. O Templo estava sendo reconstruído e a cidade aumentaria sua população; as luzes das lamparinas, sinal de vida nas casas novamente habitadas, haveriam de se multiplicar na escuridão das ruínas da cidade, em reconstrução. Jerusalém se tornaria brilhante, como um facho luminoso que atrairá os povos pagãos. Se no passado Jerusalém foi saqueada pelos dominadores, agora camelos e dromedários haveriam de trazer riquezas de todas as partes. Com seu incenso proclamarão a glória do Senhor. No exílio os judeus aprenderam a conviver com outros exilados de nações diferentes. O profeta anuncia que essas nações também farão parte do novo Israel. O Deus de Israel é o Deus de todos os povos.

Salmo responsorial: Sl 71

As nações de toda a terra hão de adorar-vos, ó Senhor!

 Segunda leitura: Ef 3,2-3a.5-6

 Agora foi-nos revelado que os pagãos são co-herdeiros das promessas.

O Evangelho que Paulo pregava era dirigido para judeus e pagãos, escravos e livres, sem distinção. Entende que as promessas de um Salvador não se restringiam apenas aos judeus, mas incluíam a todos os povos. A esta nova forma de anunciar a salvação em Jesus Cristo, Paulo considera como uma revelação que lhe foi dada pelo Espírito, um mistério escondido no passado e agora revelado: Não só os judeus são destinatários da salvação trazida por Jesus Cristo, mas também todos os pagãos. Paulo abre seu coração à comunidade cristã de Éfeso, formada, sobretudo, por pagãos convertidos: “Se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito”. – Hoje nos alegramos com a vinda dos magos para adorar o Menino Jesus, salvador de toda a humanidade (Evangelho).

Aclamação ao Evangelho

Vimos sua estrela no Oriente

e viemos adorar o Senhor. 

Evangelho: Mt 2,1-12

            Viemos do Oriente adorar o Rei.

Magos veem do oriente, orientados pela profecia de Balaão em Nm 24.  Eles procuram o rei recém-nascido, segundo lhes parecia, no palácio de Herodes um rei recém-nascido. Herodes fica alarmado com a notícia vista como ameaça ao seu trono, e com ele toda Jerusalém, pois era um homem violento. Herodes consulta os entendidos na Bíblia, para poder responder aos magos onde deveria nascer o tal futuro rei. Os sumos sacerdotes e escribas respondem, citando a profecia de Miqueias, que o futuro rei, esperado como o salvador do povo, deveria nascer em Belém de Judá. Os doutores não acreditam, mas sabem ler as Escrituras e interpretá-las. Herodes finge interesse, mas tem más intenções. Só os magos, pagãos, acreditaram nas profecias de Balaão, um profeta pagão, famoso na Transjordânia e citado na Bíblia: “Vejo-a, mas não é agora, contemplo-a, mas não está perto: Uma estrela avança de Jacó, um cetro se levanta de Israel (…), um dominador sairá de Jacó” (Nm 24,17-19). Os magos, iluminados pelas Escrituras Sagradas, são novamente guiados pela estrela até Belém. Chegando a casa onde moravam os pais com o menino, os magos e prostram em adoração e oferecem-lhe seus presentes: ouro porque ele é rei; incenso porque é Deus e mirra porque é homem e será embalsamado com mirra e aloés…

Há dois modos de nos achegamos a Deus: Pelos sinais da natureza e pelos Livros Sagrados. Os magos leram os sinais nas estrelas e chegaram até Jerusalém. Julgavam que um rei que deveria nascer num palácio. Mas iluminados pela Palavra de Deus, encontraram uma casa simples onde o menino-rei morava com seus pais, Maria e José. Santo Agostinho fala de dois livros escritos por Deus: um livro são as obras da Criação, outro são as Escrituras Sagradas. Estes são os livros que nos levam ao encontro com o Salvador da humanidade.


Dos que anseiam encontrar a Casa de Deus

Da cidade real, onde julgavam dever encontrar o rei, os Magos dirigem-se à pequena cidade de Belém. Entram no estábulo e encontram um recém-nascido envolto em panos. Não se aborrecem com o estábulo, nem se chocam com os panos: prostram-se, veneram-no como rei, adoram-no como Deus.
São Bernardo de Claraval

>> Domingo da Epifania, domingo dos Magos. Desde a nossa infância, no tempo do Natal, esses personagens foram se insinuando em nossa atenção e em nosso coração. Já estava lá o presépio na sala da casa. De repente, no dia 6 de janeiro, se tirava de uma caixa de papelão essas três figuras com coroas e presentes, montados em camelos e dando ao singelo presépio uma tonalidade um tanto grandiosa. Misteriosos personagens. Apenas Mateus faz alusão a essa visita inopinada e inesperada. O evangelista diz que eram Magos, nada mais. Depois pensadores e homens da mística nos disseram que eles, de alguma forma, representam a peregrinação dos buscadores de Deus rumo à casa do Altíssimo. Peregrinos de Deus. Que significado tem para nós esse episódio que vai fechando o ciclo do Natal?

>> É a nossa história, o relato de nossa aventura humana que aí estão retratados. Mateus nos fala que vieram de longe, guiados pela estrela, obstinados vencedores da imensidão dos desertos questionam as autoridades locais a respeito do nascimento do Menino. Vencem obstáculos e adoram o Deus grande na simplicidade das coisas mais simples: uma casa de pobres e uma frágil criança, um menino envolto em panos.

>> Buscadores sinceros de Deus! Que bom se esta afirmação fosse verdadeira para nós e nossos tempos. Muitos de nós nascemos no seio de famílias católicas e fomos sendo envolvidos em ritos e símbolos. Passamos a viver uma “religião”. Fomos batizados e recebemos os outros sacramentos. Alguns tiveram a chance de viver numa família esclarecida. Outros foram vivendo separando a vida da fé. A fé, tenha talvez passado alguma coisa pessoal, privada e nada mais. Tais pessoas foram perdendo o fogo do Evangelho. Deus não pode um ser mero acessório, um à coté, ao lado daquilo que chamamos de vida. O que conta não é a vida?

>> Há, aqueles que tiveram uma catequese por demais sumária e meramente nocional e que depois de um certo tempo deixaram tudo. No começo formularam perguntas. Foram achando Deus mudo demais. Alheio a tudo. Para alguns Deus morreu. Ou nunca tenha existido.

>> Há aqueles que, interpelados pelo maravilhoso, pelo inesperado ou pelo trágico da vida sentiram brilhar uma estrela, o frágil cintilar de uma estrela: o nascimento de um filho, a ameaça de fracasso do casamento, uma derrocada financeira, o inferno das drogas, a visita de uma pessoa que parecia um anjo a cair do céu.

>> Há os que encontram ou reencontram a fé frequentando as páginas dos evangelhos e tentando descobrir o Deus de Jesus Cristo nas parábolas, nos ditos do Mestre, na esperança que saía da boca e da figura de Jesus. São pessoas que, aos poucos, vão dando suas mãos a Levi e a Zaqueu. Vão se identificando com filho pródigo e sentem o abraço do Pai das misericórdias. Essas pessoas começam a abrir tesouros e presentes ao Deus que cativa.

>> Muitos chegam a descobrir a Deus na dedicação aos outros. Sentem-se felizes quando podem ser para e sendo para desconfiam que assim é Deus…Ser para… E lembram-se das aulas de catecismo onde haviam aprendido que quando dão um copo de água fria ao menor de seus irmãos é a Jesus que o ofertam.

>> Deus que vem nos visitar e chega na simplicidade de um nascimento e termina seus dias no alto de uma cruz completamente injustiçado e despojado, até de suas vestes. Um Deus que não mora nas alturas, mas chega perto de cada um de nós. O Menino deitado nas palhas, no despojamento total é a verdadeira luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo. Veio para todo o orbe. Fora dele não há claridade. Através dos tempos fomos vendo a procissão dos peregrinos iluminados pela estrela da fé. Jesus mesmo um dia haveria de afirmar que Deus se revela aos pequenos e humildes e se esconde dos satisfeitos. Os Magos representam os homens e as mulheres que carregam questionamentos e interrogações, que não estão satisfeitos com a vida pela metade, que buscam um sentido mais pleno dos dias que vivem. Pertencem ao irrequietos de coração de que fala Agostinho de Hipona.

Texto para a meditação e reflexão

> Hoje, os Magos que procuravam o Senhor resplandecente nas estrelas, o encontram num berço. Hoje os Magos veem claramente envolvido em panos aquele que há muito tempo buscavam de modo obscuro nos astros. Hoje os Magos contemplam maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e incluído no corpo pequenino de uma criança, aquele que o universo não pode conter. Vendo-o proclamam sua fé e não discutem oferecendo-lhe místicos presentes, incenso a Deus, ouro ao rei e mirra ao que havia de morrer (São Pedro Crisólogo).


Matar ou Adorar

José Antonio Pagola

Herodes e sua corte representam o mundo dos poderosos. Tudo vale nesse mundo, desde que assegure o próprio poder: o cálculo, a estratégia e a mentira. Vale inclusive a crueldade, o terror, o desprezo ao ser humano e a destruição de inocentes. Parece um mundo grande e poderoso e se apresenta a nós como defensor da ordem e da justiça, mas é fraco e mesquinho, pois acaba sempre buscando o menino “para matá-lo”.

Segundo o relato de Mateus, magos vindos do Oriente irrompem neste mundo de trevas. Alguns exegetas interpretam hoje a lenda evangélica recorrendo à psicologia do profundo. Os magos representam o caminho seguido por aqueles que escutam os anseios mais nobres do coração humano; a estrela que os guia é a nostalgia do divino; o caminho que percorrem é o desejo. Para descobrir o divino no humano, para adorar o menino em vez de buscar sua morte, para reconhecer a dignidade do ser humano em vez de destruí-la, é preciso percorrer um caminho oposto ao seguido por Herodes.

Não é um caminho fácil. Não basta ouvir o chamado do coração: é preciso pôr-se a caminho, expor-se, correr riscos. O gesto final dos magos é sublime. Não matam o Menino, mas o adoram. Inclinam-se respeitosamente diante de sua dignidade; descobrem o divino no humano. Esta é a mensagem de sua adoração ao Filho de Deus encarnado no Menino de Belém.

Podemos vislumbrar também o significado simbólico dos presentes que lhe oferecem. Com o ouro reconhecem a dignidade e o valor inestimável do ser humano: tudo deve ficar subordinado à sua felicidade; um menino merece que se ponham a seus pés todas as riquezas do mundo.

O incenso resume o desejo de que a vida desse menino desabroche e sua dignidade se eleve até o céu: todo ser humano é chamado a participar da própria vida de Deus. A mirra é medicamento para curar a enfermidade e aliviar o sofrimento: o ser humano necessita de cuidados e consolo, não de violência e agressão.

Com sua atenção para com o frágil e sua ternura para com o humilhado, este Menino nascido em Belém introduzirá no mundo a magia do amor, única força de salvação que já desde agora faz tremer o poderoso Herodes.


Cristo para os de longe

Pe. Johan Konings

Na Igreja oriental, 6 de janeiro é Natal. Na Igreja ocidental romana, é a Epifania, manifestação do Senhor. A Epifania, que acrescenta ao Natal? A manifestação de Cristo aos que vêm de longe. Deus avisou os magos do oriente a respeito do nascimento do Salvador. Os magos viviam em países longínquos, que o povo de Israel lembrava com certa amargura: a Babilônia, terra do exílio; a Arábia, terra inóspita … Representantes dessas terras tão alheias vão adorar o Messias na cidade de Davi, Belém – assim anunciam a 1ª leitura e o evangelho! A 2ª leitura aponta a unificação de Israel com os “gentios” (os pagãos do mundo grego, da Europa), no novo povo de Deus, que é a Igreja, corpo e presença atuante de Cristo no mundo de hoje. Todos participam da mesma herança: a salvação em Cristo Jesus.

O menino nascido em Belém atraiu os que viviam longe de Israel geograficamente. Mas a atração exercida por Jesus envolve também os social e religiosamente afastados, os pobres, os leprosos, os pecadores e pecadoras … Todos aqueles que de alguma maneira estão longe da religião estabelecida e acomodada recebem em Jesus um convite de Deus para se aproximarem dele.

Quem seriam esses “longínquos” hoje? Os muçulmanos do Iraque (a antiga Babilônia) e da Arábia? Por que não? Mas talvez a estrela brilhe de modo especial para os que, em nosso próprio ambiente católico, ficaram afastados do templo. O povinho que ficava no fundo da igreja, ou que não podia ir à igreja porque não tinha roupa decente … Graças a Deus estão surgindo capelas nos barracos das favelas, bem semelhantes ao lugar onde Jesus nasceu e onde a roupa não causa problema.

Há também os que se afastaram porque seu casamento despencou (muitas vezes se pode até questionar se ele foi realmente válido). Jesus se aproximou da samaritana, da pecadora, da adúltera … será que para estas pessoas não brilha alguma estrela em Belém?

E os que viraram as costas aos problemas do povo? Haverá um convite para esses, também?

Será que, numa Igreja renovada, o Menino Jesus poderá de novo brilhar para todos esses afastados, como sinal de salvação e libertação? Depende um pouco da atitude dos “fiéis”. Se ser fiel significa permanecermos com o nosso grêmio, com os nossos costumes de sempre, bem protegidos contra quem possa ter outra experiência de vida, outra visão do mundo, então a luz de Cristo não vai ser vista muito longe. Mas se ser fiel é entendido como a imitação da vida missionária de Jesus, que ia ao encontro daqueles que estavam longe, então vale lembrar os reis do oriente e celebrar a Epifania, a gloriosa manifestação do Filho de Deus.

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