Destaque, Notícias › 23/11/2018

Solenidade de Cristo Rei

Deus acima de tudo!?

Frei Gustavo Medella

A que Deus esta afirmação se refere? De quem Ele está acima? De que modo Ele está acima? Como Ele se faz de fato Rei?

No domingo que segue o Dia Mundial dos Pobres e encerra o ano litúrgico, a Festa de Cristo Rei parece oferecer algumas pistas para responder a estas perguntas e inquietações e para descrever o modo que Deus escolheu para estar “acima de tudo”. O reinado de Jesus Cristo, marcado por tronos simples e desprezíveis, da cocheira à cruz, parece estar em dissonância com a ideia de um Deus soberano, despótico, absoluto. A imagem do prisioneiro, sujo, ferido e humilhado, sujeito à covardia de um governante fraco e inconsistente, parece não corresponder à ideia d’Aquele que desde sempre existe, por quem e para quem tudo foi criado.

Tais constatações podem causar surpresa, desânimo e até frustação. Parece insano e delirante que alguém, colhendo os frutos mais amargos e espinhosos do desprezo, da violência, da irreverência e da irrelevância, mantenha-se firme na afirmação de seu reinado. Diante desta firmeza do Mestre, o discípulo é convocado a tomar uma decisão: ou considera de fato tudo uma loucura, vira as costas e segue a vida por outro caminho; ou aprende, ainda que à custa de vencer em si muitas expectativas enganosas, a identificar as verdadeiras características do Reinado de Jesus.

Jesus é um Rei que está acima à medida que se abaixa – Nesta direção, para estar acima de tudo, Jesus entregou-se sem reservas à disposição para servir. Ensinou, curou, lavou os pés, resgatou quem estava caído à beira do caminho, pensando sempre no outro antes de pensar em si. Até mesmo o alimento, vital à manutenção da vida, foi considerado por Ele secundário diante da urgência em “fazer a vontade do Pai” (Cf. Jo 4,34).

Jesus é um Rei despojado ao extremo – O grau de liberdade alcançado pelo Mestre é lição capaz de iluminar a vida de quem escolhe segui-lo. Não é um exercício fácil diante da fragilidade humana que teima em se apegar a seguranças ilusórias que invariavelmente passam pelo acúmulo de dinheiro, de bens, de fama e de poder. E, diante da força destes apegos, quanto maior grau de despojamento a pessoa alcança, mais feliz e realizada tem chance de se tornar.

Jesus é um Rei de mãos livres para abraçar – A ideia de abraço certamente está presente na Teologia de São João no Livro do Apocalipse, quando recorda que o Senhor é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, o seja, o abraço infinito que contém toda a realidade. As mãos que abraçam não podem estar cerradas para segurar posses e bens, nem armada para defender propriedades e privilégios. As mãos de Deus, d´Ele que está acima de tudo, são mãos abertas para acolher, acudir e abraçar.

Conclusão: Deus está de fato acima de tudo, mas não do modo que uma concepção superficial ou instrumentalizada da figura divina poderia levar a compreender.


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Dn 7,13-14

13“Continuei insistindo na visão noturna, e eis que, entre as nuvens do céu, vinha um como filho de homem, aproximando-se do Ancião de muitos dias, e foi conduzido à sua presença.

14Foram-lhe dados poder, glória e realeza, e todos os povos, nações e línguas o serviam; seu poder é um poder eterno que não lhe será tirado, e seu reino, um reino que não se dissolverá”.


Responsório (Sl 92)

— Deus é Rei e se vestiu de majestade, glória ao Senhor!
— Deus é Rei e se vestiu de majestade, glória ao Senhor!
— Deus é Rei e se vestiu de majestade,/ revestiu-se de poder e de esplendor!
— Vós firmastes o universo inabalável,/ vós firmastes vosso trono desde a origem,/ desde sempre, ó Senhor, vós existis!
— Verdadeiros são os vossos testemunhos,/ refulge a santidade em vossa casa,/ pelos séculos dos séculos, Senhor!


Segunda Leitura: Ap 1,5-8

5Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primeiro a ressuscitar dentre os mortos, o soberano dos reis da terra. A Jesus, que nos ama, que por seu sangue nos libertou dos nossos pecados 6e que fez de nós um reino, sacerdotes para seu Deus e Pai, a ele a glória e o poder, em eternidade. Amém. 7Olhai! Ele vem com as nuvens, e todos os olhos o verão, também aqueles que o traspassaram. Todas as tribos da terra baterão no peito por causa dele. Sim. Amém! 8“Eu sou o Alfa e o Ômega”, diz o Senhor Deus, “aquele que é, que era e que vem, o Todo-poderoso”.


Evangelho: Jo 18,33b-37

Jesus, o Rei que dá vida

Pilatos chamou Jesus e perguntou: «Tu és o rei dos judeus?» 34 Jesus respondeu: «Você diz isso por si mesmo, ou foram outros que lhe disseram isso a meu respeito?» 35 Pilatos falou: «Por acaso eu sou judeu? O teu povo e os chefes dos sacerdotes te entregaram a mim. O que fizeste?» 36 Jesus respondeu: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue às autoridades dos judeus. Mas agora o meu reino não é daqui.» 37 Pilatos disse a Jesus: «Então tu és rei?» Jesus respondeu: «Você está dizendo que eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que está com a verdade, ouve a minha voz.»


* 33-38a: Jesus confirma que é rei. Sua realeza, porém, não é semelhante à dos poderosos deste mundo. Estes exploram e oprimem o povo, enganando-o com um sistema de idéias, para esconder sua ação. É o mundo da mentira. Jesus, ao contrário, é o Rei que dá a vida, trazendo aos homens o conhecimento do verdadeiro Deus e do verdadeiro homem. Seu reino é o reino da verdade, onde a exploração dá lugar à partilha, e a opressão dá lugar à fraternidade.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Jesus Cristo, Rei do Universo

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente”.

1. Primeira leitura: Dn 7,13-14

Seu poder é um poder eterno.

Na segunda parte do livro de Daniel (Dn 7–12), quatro visões descrevem os impérios da época, em particular, o rei Antíoco IV, perseguidor dos judeus. Os impérios são representados por terríveis animais ferozes. No contexto em que se vivia, era uma linguagem cifrada, bem entendida pelos judeus. Uma autocensura em tempos de perseguição. Depois da visão dos animais, Daniel vê um Ancião sentado num trono, para o julgamento. O Ancião é o próprio Deus, o “primeiro e o último” (cf. Is 44,6). Quando o tribunal pronuncia a sentença, os animais perdem o poder e o rei Antíoco morre (7,9-12). Por fim, no texto que ouvimos, aparece a figura de alguém “como filho de homem”. Ele não vem do céu, mas, entre as nuvens do céu, portanto, alguém que já estava presente. Este “filho de homem” agora se aproxima do “Ancião de muitos dias”, para ser entronizado. Dele recebe “poder, glória e realeza”, um poder eterno e universal sobre todos os povos, nações e línguas. O filho de homem tem um sentido coletivo (7,27), pois simboliza “os santos do Altíssimo”, isto é, os israelitas fiéis. No NT o título “Filho do Homem” assume um sentido individual. Jesus o usa muitas vezes, também quando virá “com as nuvens do céu” para o julgamento final (Mc 14,62; At 7,55-56).

Salmo responsorial: Sl 92

Deus é Rei e se vestiu de majestade, glória ao Senhor!

2. Segunda leitura: Ap 1,5-8

O soberano dos reis da terra fez de nós um reino,
sacerdotes para seu Deus e Pai.

O livro do Apocalipse, escrito no final do I século quando os cristãos eram perseguidos, começa com uma confissão de fé: Jesus é a testemunha fiel, fidelidade que o conduziu à morte. É o ressuscitado, “o soberano dos reis da terra”. É alguém que morreu por nossos pecados porque nos ama. Portanto, Jesus é testemunha fiel do amor de Deus por nós. É um texto cheio de fé pelo que Deus fez por nós em Jesus; pleno de esperança, porque em Jesus Cristo é o próprio Deus que virá para julgar e salvar os que lhe são fiéis.

Aclamação ao Evangelho: Mc 11,9.10

É bendito aquele que vem vindo, que vem vindo em nome do Senhor,
E o Reino que vem, seja bendito, ao que vem e a seu Reino, o louvor!

3. Evangelho: Jo 18,33b-37

Tu o dizes: eu sou rei.

Depois de ser preso, Jesus foi conduzido à casa do sumo sacerdote, onde se reuniu o sinédrio, o supremo tribunal dos judeus. O interrogatório gira em torno de questões religiosas. Jesus é acusado de querer destruir o Tempo, mas a acusação era inconsistente. Perguntado se era “o Cristo, o Filho de Deus bendito”, Jesus responde positivamente. E acrescenta: “Vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, vindo com as nuvens do céu”. O sumo sacerdote e o sinédrio consideraram isso uma blasfêmia e condenaram Jesus à morte. Os romanos, porém, reservavam para si o direito de executar a sentença. Por isso Jesus é conduzido, no dia seguinte, até Pilatos. O Evangelho que ouvimos traz parte do interrogatório diante do governador romano. Como os romanos não se interessavam por questões de doutrina dos judeus (cf. At 18,12-17), a acusação levada diante do governador é política. Os galileus haviam aclamado Jesus como o messias, filho de Davi, questão que o governador podia entender como política. À pergunta de Pilatos “És tu o rei dos judeus”? Jesus responde afirmativamente. Mas logo esclarece: “Meu reino não é deste mundo… Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”. A Verdade é o próprio Deus, com que Jesus se identifica: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Em João, Jesus é também o bom pastor, que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10,1-21); é o messias que veio para servir e não para ser servido (Mc 10,45). É o “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). Jesus morre na cruz, marcada pela sentença de morte: “Jesus nazareno, o rei dos Judeus”. Assim nos trouxe um Reino de justiça, de amor e de paz (prefácio). Como ouvimos nos evangelhos, há vários domingos, foi por causa do anúncio do Reino de Deus, como o caminho a ser seguido pelos discípulos, que Jesus foi condenado à morte.


Um rei previsto pelos Profetas

Frei Clarêncio Neotti

A resposta à pergunta de Pilatos: “Tu és o Rei dos Judeus?” (v. 33) podia ser dupla e contraditória. Podia ser um sim e podia ser um não. Por isso Jesus, a princípio, não responde, mas faz outra pergunta: se Pilatos queria saber se ele tinha pretensão de ser um rei terreno, político, com corte, ministros e exército. Caso a pergunta de Pilatos tivesse esse sentido, e Jesus respondesse sim, estava configurado o crime de subversão. E Pilatos teria por onde condená-lo. Mas se a pergunta de Pilatos tivesse o sentido bíblico-religioso (o que era possível), o sim de Jesus tinha um significado que escapava à compreensão de Pilatos, romano pouco afeito às questões bíblicas dos judeus. Por isso, Jesus não respondeu com um sim ou com um não, mas com uma explicação.

E a explicação de Jesus prende-se ao conceito de rei previsto pelos profetas, como em Daniel, na primeira leitura de hoje (Dn 7,13-14): alguém animado pelo Espírito de Deus, capaz de trazer à terra a justiça, a verdadeira piedade, a paz duradoura, a alegria do serviço, a solidez terna do bem, criando uma nova humanidade, fiel ao plano amoroso do Criador. Alguém que fosse o “conselheiro admirável, o Deus forte, o Pai para sempre, o príncipe da paz” (Is 9,5) no meio das criaturas. O Apocalipse, na segunda leitura (1,5-8), confirma a figura do rei bíblico-religioso: alguém testemunha fiel, que ama ao Pai e a nós pecadores com o máximo amor, que para fazer a vontade do Pai e salvar-nos derrama seu sangue, redimindo-nos, consagrando-nos e fazendo-nos reinar com ele.


“Tu é o Rei dos Judeus?”

Frei Almir Ribeiro Guimarães

Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor, aquele que é, que era e que vem (Apocalipse 1, 8)

Solenidade de Cristo, Rei do universo e final do ano litúrgico da vida da Igreja. Ao longo de 2028 seguimos a figura e a ação de Cristo Jesus segundo o evangelista Marcos. Hoje somos levados a escutar um diálogo entre Jesus e Pilatos, segundo o evangelista João.  Solenidade de Cristo Rei e dia dos leigos.  Os fiéis cristãos leigos, de modo particular, inscrevem as leis do amor e o do universo de Cristo na teia do mundo da família, da cidade, do trabalho, da política. Com suas palavras e sua vida falam da urgência de se construir uma sociedade segundo o coração de Deus.

O evangelista nos fala de diálogo reservado, de uma audiência particular. Pilatos é representante do imperador romano. Vem a Jerusalém para certificar-se que tudo funcione bem e que os impostos e riquezas sejam encaminhados para Roma e que ninguém se arvore a fazer tumultos. A ordem em primeiro lugar.

Um condenado e um procurador romano. Pilatos procura saber alguma coisa a respeito de Jesus, de maneira direta, sem intermediações.  Há uma acusação a respeito do desejo de Jesus de ser rei. Pilatos, por dentro,  ri disso.  Talvez com ligeira pontinha de deboche pergunta:

– “Tu és o rei dos judeus?”

–  Pilatos, estás fazendo esta pergunta  por ti mesmo, queres saber de verdade ou simplesmente se trata de um esclarecimento judiciário,  uma investigação de tua parte para satisfazer ao poder? Percebo qualquer coisa de irônico em tua voz.  Tu perguntas mesmo se sou rei dos judeus?

– Onde é que se viu… vamos lá… eu não sou judeu…Estou diante da tarefa de julgar-te. Teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim… Que tu fizeste?  Tenho que resolver esta questão.  Tu és rei?

–  Pilatos, senhor governador, eu sou rei, para isso vim, para isso o Pai me inventou. Não te preocupes porque não tenho a menor pretensão de disputar o poder imperial com Tibério… Não pertenço ao esquema a partir do qual estás a me julgar… Meu reino não é desse mundo… Não se apoia na força das armas. Vim para dar testemunho da verdade. Nada mais… É sonho de meu Pai “reinar”, fazer-se presente no mundo que saiu de suas mãos e que ele ama. Por isso eu existo e vim ao mundo.  Repito: para dar testemunho da verdade.

Podemos imaginar que Pilatos tenha se sentido um tanto perturbado, mas precisava continuar a dar a impressão de estar realizando um processo… para dar satisfação aos acusadores.  Ele estava convencido da inocência daquele homem “forte” que estava diante dele… mas a máquina  precisava girar…

Jesus, uma criança frágil a se remexer no berço de seu nascimento e um frágil e debilitado corpo pregado ao madeiro. Antes que o mundo existisse, antes que as águas jorrassem e as trevas desaparecessem com o sol e a lua, antes que fosse tirado do barro o primeiro homem, Deus belo pensou em conviver com os  mortais e sonhou de viver entre nós.  Pensou na encarnação do Filho…. imaginou uma mulher que o trouxesse. O Filho era o primeiro nas suas intenções. Para seu Filho tudo haveria de convergir… centro de tudo… rei de verdade.

Para ele as plantas da terra, os ventos e as brisas, as fontes e nascentes, para ele todos os seres humanos… ele é o princípio, o rei, o centro de tudo, o alfa e o ômega. Os olhos de todos em todos os tempos se voltarão para esse Jesus que falou e testemunhou a criação de um mundo novo.  Deus sonhou com seu enviado, seu Cristo, que deveria aparecer na plenitude dos tempos. Rei, centro de tudo. Tudo foi feito por ele, para ele e nele.

O Senhor nos deu um rei diferente, um rei coroado de espinhos, sentado no trono da cruz, empunhando um ridículo bastão. Não nos deu um rei que fosse encarnação do êxito e do sucesso, mas um soberano  fracassado, um Jesus humilhado, coberto de injúrias, não respondendo  às acusações contra ele proferidas. Deus nos deu um soberano sentado na incômoda, áspera e dura cadeira da cruz.  Rei do serviço e rei crucificado

Dia de Cristo rei, dia do fiel cristão leigo.  Quis a Igreja no momento em que se fecham as cortinas do ano litúrgico dirigir seu olhar para esses milhões de fiéis leigos, homens e mulheres, jovens e idosos, professores, advogados, pedreiros e padeiros, balconistas, alfaiates, cuidadores, vereadores, motoristas, pais e mães, caminhoneiros, plantadores de alface e de soja, criadores de rebanhos e comunicadores.  Estes todos sabem que têm a honrosa missão de colocar no meio do mundo o espírito do rei  Cristo Jesus, morto e ressuscitado.  Com ele constroem um reino de justiça e de paz, de fraternidade e de solidariedade.

Os fiéis cristãos leigos não são feitos apenas para circular nos espaços das sacristias e em torno aos altares. Vivem no mundo, se ocupam das coisas do mundo. Desejam criar uma terra de fraternidade, de justiça e de inclusão dos mais abandonados. Deveriam até mesmo gritar um pouco mais forte nas tribunas dos parlamentos para que o mundo que Jesus veio anunciar não seja simplesmente um sonho que descansa nas  páginas lidas ou não lidas do que chamamos de “Escrituras”.

Oração

IRMÃO JESUS

Irmão Jesus,
sabe, é assim que gosto de te chamar.
Pronunciar teu nome já é rezar.
É como empurrar a porta de teu coração que não tem tranca.
Sabes bem quantas vezes bato.
Os caminhos de minha fé
estão pontilhados de interrogações.
Encontrei algumas respostas para elas
nos olhos  que brilham refletindo teu amor.
Os donos desses olhos escrevem o teu nome com letras maiúsculas
em cada um de seus gestos.
Falam no silêncio, amadurecidos por tua presença.
Quando nada dizem é pare te escutar melhor
e quando falam  é tua voz que ouço.

Irmão Jesus,
vejo-te glorificado nos vitrais das catedrais,
mas estás conosco quando à noite
acendemos a fogueira em nossos acampamentos.
Vejo-te crucificado no madeiro ou no mármore,
mas tenho certeza de que vives no canto do pássaro
e numa espiga de milho,
nos primeiros rebentos da primavera.
Tentei encontrar no vento teu respiro e tua imagem
e os encontrei no canto e na dança.
Esperavas de mim um sinal de confiança
e já me abrias os braços no dia da promessa.

Senhor, algumas vezes te procurei
no esplendor de uma  igreja românica.
Vim, no entanto, perceber-te no riso de uma criança,
no coração dos pequenos, dos excluídos, dos pobres.
Nunca estás onde pensamos te encontrar e
estarás onde não se pode imaginar.

Se eu tivesse certeza de ter encontrado
sentiria até mesmo saudade  dos dias em que te buscava.
Tenho necessidade de ti para continuar.
Dá-me o tempo para atravessar meus desertos
e ter mais  fome e mais  sede de ti.

Irmão Jesus,
gosto de dizer teu nome.
Sim, dizer teu nome, já é rezar.

Inspirado e adaptado de
Jean-Pierre Bonsirven
Revista “Prier”,  julho-agosto  1986, p. 4-5


Contra a mentira

José Antonio Pagola

Não é raro escutar alguém que defende o direito à verdade. A pessoa se pergunta por que não se ouvem em nossa sociedade gritos de protesto contra a mentira, ao menos com a mesma força com que se grita contra a injustiça.

Será que não estamos conscientes da mentira que nos envolve por toda parte? Será que, quando exigimos justiça, nos sentimos só vítimas e nunca opressores? Será que para gritar contra a mentira, a hipocrisia e o engano é necessário viver com um mínimo de sinceridade pessoal?

A mentira é hoje um dos pressupostos mais firmes de nossa convivência social. O mentir é aceito como algo necessário, tanto no complexo mundo do trabalho político e na informação social, como na “pequena comédia” de nossas relações pessoais de cada dia.

Todos nós nos vemos hoje obrigados a pensar, decidir e atuar envoltos numa névoa de mentira e falsidade. Indefesos diante de um cerco de enganos, falácias e embustes do qual é difícil libertar-se. Como saber a “verdade” que se oculta por trás das decisões políticas dos diversos partidos? Como descobrir os verdadeiros interesses que se encerram nas campanhas e ações que se nos pede defender ou recusar? Como agir com lucidez no meio da informação deformada, parcial e interessada que diariamente nos vemos obrigados a consumir?

Dir-se-ia que a mentira é necessária para atuar com eficácia na construção de uma sociedade mais livre e mais justa. Mas, na verdade, será que há alguém que possa garantir que estamos fazendo um mundo mais humano quando, a partir dos centros de poder, se oculta a verdade, quando entre nós se utiliza a calúnia para destruir o adversário, quando se obriga o povo a ser protagonista de sua história a partir de uma situação de engano e de ignorância?

No fundo de todo ser humano há uma busca de verdade e dificilmente se construirá algo verdadeiramente humano sobre a mentira ou a falsidade. Na mensagem de Jesus há um apelo para viver na verdade diante de Deus, diante de si mesmo e diante dos outros. “Eu vim para ser testemunha da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”. Não é absurdo que se tornem a ouvir em nossa sociedade aquelas palavras inesquecíveis de Jesus que são um desafio e uma promessa para toda pessoa que busca sinceramente uma sociedade mais humana: “A verdade vos libertará” (Jo 8,32).


Cristo reina pelo testemunho da verdade

Pe. Johan Konings

O último domingo do ano litúrgico é a festa de Cristo, Rei do Universo. Cristo reina. Reinar ou governar não significa mandar arbitrariamente, mas exercer a responsabilidade da decisão última num projeto de sociedade. Interrogado por Pôncio Pilatos, Jesus diz que seu reinado não é deste mundo (evangelho). Não deve seu reinado a nenhuma instância deste mundo. Ele não é como os reis locais, no Oriente, que eram nomeados pelo Imperador de Roma; nem como o Imperador, cujo poder dependia de seus generais, os quais por sua vez dependiam do poder de … quem? De uma estrutura que se chama “este mundo”. Como hoje. Os governantes deste mundo – estabelecidos por “este mundo” – dependem de toda uma constelação de poderes, influências e trâmites escusos. Devem pactuar, conchavar, corromper. E, no fim, caem de podres. Pensam que são donos do mundo enquanto, na realidade, o mundo é dono deles.

O que são os reinos deste mundo aparece bem na 1ª leitura: quatro feras que tomam conta do mundo e se digladiam entre si. Mas então aparece uma figura com rosto humano, um “como que filho do homem”, que desce do céu, de junto de Deus, e que representa o reinado de Deus que domina as quatro feras, os reinos deste mundo. Jesus na sua pregação se auto-intitula “filho do homem” no sentido de ser aquele que traz esse reinado de Deus ao mundo.

O reinar de Jesus não pertence a este mundo, nem lhe é concedido por este mundo. É reinado de Deus, Deus é seu dono. Mas, embora não sendo deste mundo, este reino não está fora do mundo. Está bem dentro do mundo, mas não depende deste por uma relação de pertença, nem procura impor-se ao mundo por aqueles laços que o prenderiam: força bruta, astúcia, diplomacia, mentira … Jesus ganha o mundo para Deus pela palavra da verdade.

“Para isto eu nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” (Jo 18,37). Jesus é a palavra da verdade em pessoa. Nele a verdade é levada à fala. E que verdade? A verdade lógica, científica? Não. Na Bíblia, verdade significa firmeza, confiabilidade, fidelidade. Jesus é a palavra “cheia de graça e verdade” (Jo 1,14), a palavra em que o amor leal e fiel de Deus vem à tona e se dirige a nós: amor e fidelidade em palavras e atos. É Deus se manifestando. Essa “verdade”, Jesus a revela dando sua vida até o fim. Esse é o sentido desta declaração, feita três horas antes de sua morte, ao ser interrogado por Pôncio Pilatos, que não entende …

Jesus é o Reino de Deus em pessoa. Não reino de opressão, mas reino de amor fiel, reino de rosto humano – o amor humano de Deus por nós, manifestado no dom da vida de Jesus, que reina desde a cruz. A opressão exercida pelos reinos deste mundo, Jesus a venceu definitivamente pela veracidade do amor fiel de Deus. Ora, quem faz existir o amor fiel de Deus no mundo de hoje somos nós. Por isso Jesus nos convida: “Quem é da verdade escuta a minha voz”.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

 

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