Destaque, Notícias › 24/11/2017

Solenidade de Cristo Rei

A tarefa de vencer as próprias “cabritices”

Frei Gustavo Medella

Ovelha e cabrito. Ela, a mãe do cordeiro. Ele, o filhote do bode. No Evangelho deste domingo de Cristo Rei (Mt 25,31-46), ao falar do Juízo Final, Jesus se utiliza da imagem destes animais para distinguir aqueles que fizeram a vontade de Deus e aqueles que se entregaram aos próprios caprichos. Os que acertaram são as ovelhas, e os que erraram, os cabritos. Para as primeiras, o convívio eterno de amor e paz junto a Deus. Aos segundos, o isolamento de uma eternidade sem esperança e angustiante. Diante da comparação, poderia se pensar: “Afinal, o que Jesus tinha contra os bodes, as cabras e os cabritos? Será que levara alguma cabeçada de um deles durantes suas andanças? Ou o berro deles o irritava?”. Mais provável é que não seja nenhuma destas hipóteses. Arrisquemos que Jesus precisava de algum animal para fazer a comparação e aí teria sobrado para o “bode expiatório” do cabrito.

E a ovelha? Por que esta predileção? Arriscando outro palpite, este, penso eu, é mais plausível, pois recordemos que a ovelha gera o cordeiro. E, como o próprio Cristo se definia como o Cordeiro de Deus, por analogia, pode-se concluir que ovelha é todo aquele ser humano que se esforçou para gerar o Cristo na própria vida e com a própria vida. E como se gera Cristo? Aí é mais fácil responder. Aliás, o próprio Evangelho dá a resposta. Gerar o Cristo significa “ser bom”, no seu sentido mais profundo e pleno. É ter empatia e saber que, se eu sinto frio, fome, tristeza, solidão etc., o outro também sente; se eu posso ficar doente, o outro também pode. É sentir-se responsável pelo outro e ir ao encontro de suas necessidades com a mente, com o coração e com as mãos. É esquecer-se um pouco de si para se lembrar mais de quem precisa. É dar menos cabeçadas e berros que ferem agridem para docilmente se colocar à disposição do Reino, sem alarde, sem muito barulho e autopromoção.

Mas e eu? Neste rebanho chamado humanidade, para Deus, sou ovelha ou cabrito? Mais importante do que achar uma resposta pronta, penso ser uma tarefa de cada um construir a sua resposta, com empenho e dedicação, dia a dia, abandonando gradualmente as próprias “cabritices” para seguir com mais liberdade e leveza ao encontro do Rei Jesus.

Confira o Caminhos do Evangelho:


O juízo final

1ª Leitura: Ez 34,11-12.15-17
Sl 22
2ª Leitura: 1Cor 15,20-26.28
Evangelho: Mt 25,31-46

* 31 «Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. 32 Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33 E colocará as ovelhas à sua direita, e os cabritos à sua esquerda. 34 Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo. 35 Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; 36 eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar’. 37 Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? 38 Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? 39 Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ 40 Então o Rei lhes responderá: ‘Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.’

41 Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastem-se de mim, malditos. Vão para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. 42 Porque eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; 43 eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar’. 44 Também estes responderão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?’ 45 Então o Rei responderá a esses: ‘Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram’. 46 Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna.»


* 31-46: Esta é a única cena dos Evangelhos que mostra qual será o conteúdo do juízo final. Os homens vão ser julgados pela fé que tiveram em Jesus. Fé que significa reconhecimento e compromisso com a pessoa concreta de Jesus. Porém, onde está Jesus? Está identificado com os pobres e oprimidos, marginalizados por uma sociedade baseada na riqueza e no poder. Por isso, o julgamento será sobre a realização ou não de uma prática de justiça em favor da libertação dos pobres e oprimidos. Esta é a prática central da fé, desde o início apresentado por Mateus como o cerne de toda a atividade de Jesus: «cumprir toda a justiça» (3,15). É a condição para participar da vida do Reino.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Solenidade de Cristo Rei

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que dispusestes restaurar todas as coisas no vosso amado Filho, Rei do Universo, fazei que todas as criaturas, libertas da escravidão e servindo à vossa majestade, vos glorifiquem eternamente.

Primeira leitura: Ez 34,11-12.15-17

Quanto a vós, minhas ovelhas,
farei justiça entre uma ovelha e outra.

Nesse texto, o profeta Ezequiel junta sua voz crítica à dos profetas Isaías, Miqueias e Jeremias, que o precederam. Os reis do Egito e da Mesopotâmia comparavam sua função à do pastor e como tais se apresentavam em função do cuidado pela segurança e pelo bem-estar de seu povo. Os pastores contra os quais Ezequiel levanta a voz são, sobretudo, os reis de Israel e Judá, mas também os dirigentes religiosos, como sacerdotes e profetas. Segundo o profeta, eles não cumpriram seu ofício de pastor, pois não cuidaram nem do bem-estar físico nem espiritual do povo de Deus. Por culpa desses maus pastores, parte da população foi levada pelos babilônios para o exílio, entre os quais estava Ezequiel. Outros puderam permanecer no território, agora ocupado pelo inimigo, mas sem liderança, ou se dispersaram pelos países vizinhos.

Porém, para Ezequiel, a história do povo de Deus não terminou. Ele aponta um futuro de esperança: Como Rei-Pastor, Deus promete cassar o ofício dos maus pastores e tomar conta, pessoalmente, das ovelhas desgarradas. Vai recolher as dispersas, cuidar das feridas, fortalecer as doentes e fracas. Vai defendê-las das ovelhas mais gordas e fortes, julgando o rebanho como juiz, segundo o direito. Deus vai devolver a saúde a seu povo, vai trazer a salvação às ovelhas no exílio e às dispersas nos países vizinhos. Vai reunir seu povo disperso na terra prometida, como o pastor reúne suas ovelhas.

Salmo responsorial: Sl 22 (23),1-2 a.2b-3.5-6

O Senhor é o pastor que me conduz, não me falta coisa alguma.

Segunda leitura: 1Cor 15,20-26.28

Entregará a realeza a Deus-Pai,
para que Deus seja tudo em todos.

Paulo explica em que consistirá o convite que o Rei fará aos justos: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou…” (Mt 25,34). Se formos solidários com Cristo, na vida (“tudo o que fizerdes ao menos dos meus irmãos…”), o seremos também na sua morte e ressurreição. Como Cristo ressuscitou, hão de ressuscitar também os que lhe pertencem. Assim que vencer tudo o que se lhe opõe – pois “o último inimigo a ser destruído é a morte” –, Cristo entregará o Reino ao Pai, para que Deus seja tudo em todos.

É esta participação no Reino dos ressuscitados que nós esperamos. Reino planejado pelo Pai “desde a criação do mundo (Mt 25,34). A herança preparada pelo Pai é a participação na alegria do Senhor (33º domingo): “Não será a alegria inteira que entrará nos que se alegram (S. Agostinho), mas, os que se alegram entrarão inteiros nesse gozo” (S. Tomás).

Aclamação ao Evangelho

É bendito aquele que vem vindo,
que vem vindo em nome do Senhor.
E o reino que vem, seja bendito;
ao que vem e a seu Reino, o louvor!

Evangelho: Mt 25,31-46

Assentar-se-á em seu trono glorioso
e separará uns dos outros.

No antigo Oriente Médio, os reis se apresentavam como pastores de seu povo, com a tarefa de cuidar, defender e julgar seus súditos. Na primeira leitura deste domingo, Ezequiel afirma que os reis de Israel não cuidaram do povo de Deus. Por isso, Deus prometeu cuidar, ele próprio, de seu povo.

E o fez, enviando seu Filho Unigênito a este mundo. Jesus é o Bom Pastor que deu sua vida para nos salvar. No evangelho, Ele aparece como Filho do Homem, como pastor messiânico, rei do universo e juiz escatológico. O critério último para julgar bons e maus será a solidariedade, o amor-compaixão que tivermos com os necessitados. Os justos não sabiam que os pobres, dos quais cuidavam, representavam o próprio Rei, que os julgava e os acolhia no Reino preparado pelo Pai celeste, desde a criação do mundo: “Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (v. 40). – “Quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).

Termina, assim e nesta semana, o ano Litúrgico A. Durante este ano nos acompanhou o Evangelho de Mateus, o evangelho da Igreja como comunidade que procura viver o Reino de Deus. Muito aprendemos com Mateus sobre como viver em comunidade. Mas o Reino de Deus não se limita aos que seguem Jesus Cristo. Na hora do julgamento final não seremos perguntados se fomos seus discípulos, mas pelo que fizemos ao próximo, incluindo a todos as pessoas amadas por Deus.


Quando o olhar do Rei a todos penetrar

O que vai decidir a sorte final não é a religião na qual viveram, nem a fé que as pessoas confessaram durante sua vida. O decisivo é viver com compaixão, ajudando a quem sofre e necessita de nossa ajuda. O que se faz a pessoas famintas, imigrantes, indefesos, enfermos,  desvalidos ou encarcerados esquecidos por  todos,   está sendo feito ao próprio  Deus, encarnado em Jesus. A religião mais agradável ao  Criador é a ajuda ao que sofre (Pagola, Mateus, p. 321).

Frei Almir Guimarães

Festa grandiosa de Cristo-Rei do Universo. Grandiosa até certo ponto.  Solenidade inventada para que todos fixem seu olhar  nesse Jesus que é o centro de  tudo. Antes que qualquer ser existisse, antes que as águas jorrassem das pedras, que nos campos as flores desabrochassem, antes que o sol e a lua  passeassem pelo firmamento,  que o grão de areia rodopiasse  ao vento de deserto e se pudesse ouvir o doce ruído da neve caindo na terra, esse Jesus já estava no pensamento do Pai.  O primeiro de todos. Aquele que foi sonhado desde sempre. O primeiro nascido no plano de Deus. Rei, centro, figura fundamental. Para ele os povos todos, para ele o cosmos, para ele tudo. Sem ele o cosmos e a vida se tornariam um indecifrável enigma.  Um dia, na terra dos homens, ele apareceria.  Os que existiram antes voltaram para ele seu olhar.  Os que vieram depois nada mais fazem do que tê-lo como ponto de referência. O centro de tudo.  Ele é Rei. Antes dele, o tempo dele e depois dele.

Há toda sorte de reis nesse nosso mundo.  Reis e rainhas. Rei do carnaval e rainha das cervejas, rei das casas de fast-food, rei do rock e do petróleo, reis do show business, do tênis, do futebol, o rei da especulação imobiliária e o rei das pizzas. Talvez os homens e mulheres de ontem e de hoje quisessem que Deus nos tivesse dado um rei espetacular. Leda ilusão.

O Senhor nos deu um rei diferente, um rei coroado de espinhos, sentado no trono da cruz, com um bastão ridículo na mão. Não nos deu rei que fosse o sucesso em pessoa, mas um soberano fracassado, um Jesus humilhado, coberto de injúrias, mudo diante de Pilatos. Teríamos querido alguém colocado em trono de majestade e Deus nos deu um  homem sentado na cadeira incômoda, áspera e dura da cruz.  Rei do serviço  e rei crucificado.

Dia de Cristo rei, dia do leigo, do fiel cristão leigo.  Quis a Igreja no momento em que se fecham as cortinas de um ano litúrgico olhar para esses milhões de homens e mulheres, de professores, advogados, balconistas, alfaiates,  trabalhadores do mundo da eletrônica, solteiros, casados, motoristas de coletivos, senadores e vereadores, pais e mães de família, plantadores de soja e criadores de rebanhos,  comunicadores e formadores de opinião pública. Esses fiéis cristãos leigos responsáveis por colocar no grande mundo o espírito do rei Cristo Jesus, morto e ressuscitado, vivendo na fé de todos eles. Os leigos são diretos representantes do Cristo Rei na imensa terra dos homens. Com ele constroem um reino de justiça e de paz, de fraternidade e de solidariedade.

Os fiéis cristãos leigos não são feitos apenas para circular nos espaços das sacristias e em torno dos altares. São pessoas animadas interiormente pelo Cristo vivo e, ressuscitado e que tentam, com todas as forças, criar uma terra de fraternidade, de justiça, de atenção pelos  mais abandonados. Fundam famílias que sejam  Igrejas domésticas.  Deveriam mesmo chegar a gritar um pouco mais das tribunas dos parlamentos  para que o mundo que Jesus veio anunciar não seja simplesmente um sonho que descansa nas páginas não lidas do que chamamos de  “Escrituras”.

Ah… essa parábola… que incomoda. Um rei sentado com a tarefa de julgar. Rei e Juiz!  Vitoriosos são os compassivos. Condenados os que não usaram de misericórdia. Claro que estamos sendo julgados aqui, agora, em cada momento. Estamos já agora nos aproximando ou nos afastando de Cristo. A religião que agrada ao Criador é a ajuda ao que sofre.

De maneira límpida e transparente assim escreve Pagola a quem damos com muito o gosto a última palavra: “Na cena evangélica não se pronunciam grandes palavras como “justiça”, “solidariedade” ou “democracia”. Todas essas pouco importam, se não houver ajuda real aos que sofrem.  Jesus fala de comida, roupa para vestir, algo para beber e um  teto  para abrigar-se. Também não se fala de “amor”. Para Jesus esta linguagem lhe parece muito abstrata. Praticamente ele nunca a usou. Aqui ele fala de coisas bem concretas como “dar de comer”, “vestir”, “hospedar”, “visitar”, “acudir”. No “entardecer da  vida” não seremos examinados  sobre o “amor”; seremos examinados sobre o que fizemos em concreto diante das pessoas que precisavam de  nossa ajuda”  (Pagola, Mateus  p.321-322).

E assim o olhar do Rei penetrara os cantinhos todos de todas as existências.


Irmão Jesus

Irmão  Jesus,
é assim que gosto de dizer teu nome.
Pronunciar teu nome já é rezar,
É abrir a porta do teu coração
onde bato muitas vezes
Os caminhos de minha fé
estão pontilhados de interrogações.
Encontrei  algumas respostas  no olhar
daqueles cujos olhos brilham com teu amor.
Escrevem teu nome com letras maiúsculas
em cada um de seus gestos.
Falam no silêncio
amadurecidos por tua presença.
Quando nada dizem
é para te escutar melhor
e quando falam deles
é tua voz que ouço.

Irmão  Jesus,
vejo-te glorificado nos vitrais das catedrais
mas estás conosco  na fogueira dos acampamentos.
Vejo-te crucificado no madeiro ou no mármore
mas tenho certeza de vives no canto do pássaro,
numa espiga de milho
nos  primeiros rebentos da primavera.
Tentei encontrar no vento,
teu  respiro e tua imagem,
e o percebi no canto e na dança.
Esperavas de mim um sinal de confiança
e me abrias os braços no dia da promessa.

Senhor, algumas vezes te procurei
no esplendor de uma igreja românica.
Vim a perceber-te no riso de uma criança,
no coração dos pequenos, dos excluídos, dos pobres.
Nunca estarás onde pensamos te encontrar
e estarás  onde se pode imaginar.

Se eu tivesse  certeza de te ter encontrado
sentiria até mesmo saudades dos dias em que te buscava.
Tenho necessidade de ti para continuar;
dá-me, no entanto, o tempo
dos meus desertos,
de ter fome e sede de ti.

Irmão  Jesus,
gosto de dizer teu nome.
Sim, dizer teu nome já é rezar

Jean-Pierre Bonsirven
Revista Prier, julho-agosto  1986, p.4-5


A surpresa final

José Antonio Pagola

Nós, cristãos, levamos vinte séculos falando de amor. Repetimos constantemente que o amor é o critério último de toda atitude e comportamento. Afirmamos que a partir do amor será pronunciado o juízo definitivo sobre todas as pessoas, estruturas e realizações dos seres humanos. Não obstante, com essa linguagem tão bela do amor, podemos muitas vezes estar ocultando a mensagem autêntica de Jesus, muito mais direta, simples e concreta.

É surpreendente observar que Jesus dificilmente pronuncia nos evangelhos a palavra “amor”, também não nesta parábola que nos descreve a sorte final da humanidade. No final não seremos julgados de maneira geral sobre o amor, mas sobre algo muito mais concreto: O que fizemos quando encontramos com alguém que precisava de nós? Como reagimos diante dos problemas e sofrimentos de pessoas concretas que fomos encontrando no nosso caminho?

O decisivo na vida não é o que dizemos ou pensamos, o que cremos ou escrevemos. Tampouco bastam os belos sentimentos ou os protestos estéreis. O importante é ajudar a quem precisa de nós.

Os cristãos, em sua maioria, sentem-se satisfeitos e tranquilos porque não fazem nenhum mal especialmente grave a ninguém. Mas esquecem que, segundo a advertência de Jesus, estão preparando seu fracasso final sempre que fecham seus olhos às necessidades alheias, sempre que eludem qualquer responsabilidade que não seja em benefício próprio, sempre que se contentam em criticar tudo, sem estender a mão a ninguém.

A parábola de Jesus nos obriga a fazer-nos perguntas bem concretas: Estou fazendo algo por alguém? A que pessoas posso prestar ajuda? O que faço para que reine um pouco mais de justiça, solidariedade e amizade entre nós? O que mais eu poderia fazer?

O último e decisivo ensinamento de Jesus é este: o Reino de Deus é e sempre será dos que amam o pobre e o ajudam em sua necessidade. Isto é o essencial e definitivo. Um dia nossos olhos se abrirão e vamos descobrir com surpresa que o amor é a única verdade, e que Deus reina ali onde há homens e mulheres capazes de amar e preocupar-se com os outros.

Trecho do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


Jesus, Rei do Universo

Pe. Johan Konings

Ensina o profeta Ezequiel: Deus, no tempo de sua intervenção, assumirá pessoalmente o governo do seu povo, como um dono que quer cuidar pessoalmente do seu rebanho – já que os pastores não prestavam (1ª leitura).

No evangelho de hoje, último domingo do ano litúrgico, Jesus evoca essa imagem para falar do Juízo no tempo final. Ao mesmo tempo “rei” e “pastor”, o “Filho do Homem” vai separar os bons dos maus, como o pastor separa os bodes dos carneiros. E o critério dessa separação será o amor ao próximo, especialmente ao mais pequenino. Aliás, Jesus se identifica com esses pequenos. Conforme tivermos acudido a esses, nas suas necessidades, Jesus nos deixará participar do seu reino para sempre – ou não.

A 2ª leitura completa esse quadro pela grandiosa visão de Paulo sobre Jesus, Rei do Universo. Ele subjuga todos os inimigos, inclusive a morte; e então, ele mesmo se submeterá a Deus, para que este seja tudo em todos. Assim, a obediência e o despojamento de Jesus o acompanham até na glória.

Chamar Jesus Rei do Universo significa que é ele quem dirige a História. Sua mensagem, selada pelo dom da própria vida, é a última palavra. A mensagem do amor fraterno gratuito, manifestado ao mais pequenos dos irmãos, é o critério que decide sobre a nossa vida e sobre a História.

Entretanto, vivemos num mundo de pouca gratuidade. Até aquilo que deve simbolizar a gratuidade é explorado e comercializado (indústria dos brindes…). Esforçar-se por alguém ou por algo sem visar proveito parece um absurdo. Contudo, é isso que vence o mundo. É deste amor não interesseiro que Cristo pedirá contas na hora decisiva.

Ora, olhando bem, descobrimos que esse amor gratuito existe no mundo. Mas por sua própria natureza, ele fica na sombra, age no escondido, produzindo, contudo, uma transformação irresistível e sempre renovada. Temos assim exemplos de pessoas individuais que optaram pelo amor gratuito, ou também de grupos que vencem a exclusão pelo modo solidário de viver. Evangelho é educar as pessoas para a caridade não interesseira e criar estruturas que a favoreçam (contra o consumismo, a competição exacerbada, o classismo e o racismo e todas as formas de negação dos nossos semelhantes). Neste sentido, os humildes projetos de solidariedade não interesseira (creches de favela, hortas comunitárias, escolas atendidas por voluntários etc) são uma coroa para Cristo Rei, que hoje celebramos.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

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