Notícias, Reflexão Dominical › 18/05/2018

Solenidade de Pentecostes

Famílias vítimas do desabamento em Vigília no Largo do Paissandu

Pentecostes no Cenáculo e no Largo Paissandu

Frei Gustavo Medella

Os discípulos e Maria, reunidos no Cenáculo em oração, buscam discernir o caminho da fidelidade e da continuidade ao projeto de Jesus, o Ressuscitado que subiu aos céus. Dezenas de famílias, sem eira nem beira, com pouquíssimas possibilidades de escolha, unidas pela circunstância, tentam viver no prédio federal abandonado – junto com elas, as famílias – no Centro da maior e mais rica cidade do Brasil. Os primeiros têm medo da perseguição, do sentimento de orfandade pela falta do Mestre, da própria incapacidade de levar adiante um legado tão exigente. Os segundos temem o dia de amanhã, a possibilidade insistente de mais uma vez serem expulsos, a insegurança a respeito de seu futuro e de seus filhos.

Em ambos os ambientes, um sinal. No primeiro, fogo! Vem do alto, não queima, mas repousa sobre eles. Ilumina, encoraja, abre novos horizontes, aproxima, torna possível a comunicação e a comunhão. É graça e vida, ação do Espírito Santo. No segundo, fogo! – também. Vem de baixo e do alto, ou melhor, do quinto andar. Queima, destrói, intoxica, expulsa, mata.  Sinaliza o espírito de descaso e desprezo, a teimosa omissão de uma sociedade que se nega a olhar para os seus últimos, preferindo lavar as mãos num sonoro levantar de ombros de quem diz “Este problema não é meu”!

Ao celebrar esta solenidade que encerra o Tempo Pascal, que ligação se pode fazer entre o episódio bíblico narrado nos Atos dos Apóstolos e a triste tragédia que se abateu sobre os pobres habitantes do edifício incendiado no Largo Paissandu?

1) Jesus estava presente em ambas as situações. O mesmo Senhor que garante, em  Mt 18,20, “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”, em Mt 25,34ss coloca-se em pessoa na carne dos que padecem carência e privação dos bens básicos à vida, entre eles a moradia: “estive faminto e me destes de comer, estive com sede e me destes de beber, estive nu e me vestistes”. O Deus solidário apresentado por Jesus Cristo é amigo dos pobres e quem deseja segui-lo também deve buscar a proximidade com os pequenos e sofredores.

2) A possibilidade de comunhão se torna possível e presente nos dois episódios. Em Pentecostes, o Espírito de coragem e entendimento permite que, mesmo nas diferenças, homens e mulheres se compreendam, se respeitem e aprendam a trabalhar juntos pelo Reino. A tragédia do Largo Paissandu pode e deve ser um apelo à consciência coletiva, revelando que a noção de que o bem comum e o direito à satisfação das necessidades humanas básicas devem ser dois pilares éticos que unem toda a humanidade para além de qualquer diferença. Oxalá os gestos imediatos de solidariedade, como a doação de alimentos, água, roupas e itens de primeiros socorros sejam sinal para a criação de uma nova consciência mais fraterna e solidária.

3) O espírito da desconfiança e do egoísmo tenta desconstruir a ação do Espírito. O espírito da divisão (dia-bolos), fruto das contradições da vida humana quando esta se faz impermeável à ação Deus, também esteve presente entre aqueles que acompanharam e viveram os episódios do Cenáculo e do Largo Paissandu. No primeiro, a facilidade de comunicação e o entusiasmo que tomou aquela assembleia impulsionada pelo Espírito suscitaram comentários debochados e maldosos entre alguns, que diziam: “Estão todos embriagados de vinho doce” (At2,13). Ainda hoje muitos tentam tirar a força e a credibilidade do Evangelho com este tipo de afirmação moralista e leviana. No caso do Largo Paissandu, infelizmente não foram poucas as vozes a culpabilizar os pobres e os movimentos sociais que lutam por moradia pelo ocorrido. Este é o espírito de quem escolhe não enxergar, e muito menos, tornar-se solidário com a dor do próximo: zero por cento de empatia.

A Solenidade de Pentecostes seja, mais uma vez, chance valorosa para que os cristãos se empenhem em discernir os sinais do Espírito que continua, com todo vigor, a guiar os passos da Igreja. O cuidado maior deve ser o de não atrapalhá-Lo com o excesso de certezas e seguranças meramente humanas.

rodape-medella


Jesus ressuscitado está vivo na comunidade

1ª Leitura: At 2,1-11

2ª Leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13

Evangelho: Jo 20,19-23

* 19 Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 20 Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor.

21 Jesus disse de novo para eles: «A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.» 22 Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: «Recebam o Espírito Santo. 23 Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados.»


* 19-23: O medo impede o anúncio e o testemunho. Jesus liberta do medo, mostrando que o amor doado até à morte é sinal de vitória e alegria. Depois, convoca seus seguidores para a missão no meio do mundo, infunde neles o Espírito da vida nova e mostra-lhes o objetivo da missão: continuar a atividade dele, provocando o julgamento. De fato, a aceitação ou recusa do amor de Deus, trazido por Jesus, é o critério de discernimento que leva o homem a tomar consciência da sentença que cada um atrai para si próprio: sentença de libertação ou de condenação.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Solenidade de Pentecostes, ano B

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora no coração dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho”.

1. Primeira leitura: At 2,1-11

Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar.

João coloca a doação do Espírito Santo no dia da Páscoa, quando Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos reunidos no Cenáculo. Lucas coloca-a no dia da festa judaica de Pentecostes. Na origem era uma festa agrícola do início da colheita do trigo, celebrada sete semanas após a festa dos ázimos, ligada à Páscoa. Era uma das três festas de peregrinação. Na festa de Pentecostes o israelita devia comparecer diante de Deus e apresentar os primeiros frutos da colheita do trigo. No II século a.C., Pentecostes passou a comemorar a promulgação da Lei de Moisés no Sinai. A doação do Espírito se dá em meio a um “barulho” e “forte ventania”, que lembram a teofania do Sinai: “trovões, relâmpagos… fortíssimo som de trombetas”, marcando a descida de Deus “em meio ao fogo” (Ex 19,16-19). Rabi Johanan dizia a respeito: “A voz saiu e se repartiu em setenta vozes ou línguas, de modo que todos os povos a entendessem; e cada povo ouviu a voz em sua própria língua”. Lucas conhecia esta tradição: Como a Lei de Moisés era conhecida em todo o mundo, agora também o Evangelho é pregado a todos os povos, citados em nosso texto. A diversidade das línguas nas quais cada um entendia a mensagem do Evangelho é um convite aos apóstolos e discípulos a levarem a mensagem de Jesus a todos os povos e culturas, impulsionados pelo Espírito Santo.

Salmo responsorial: Sl 103 (104)

Enviai o vosso Espírito Senhor
e da terra toda a face renovai.

2. Segunda leitura: 1Cor 12,3b-7.12-13

Fomos batizados num único Espírito,
para formarmos um único corpo.

Paulo fala longamente para a comunidade de Corinto sobre os dons do Espírito Santo (1Cor 11,2-16; 12,1–14,39). Sem estes dons, nada podemos fazer, nem mesmo dizer: “Jesus é o Senhor”. Os dons ou “carismas” são “atividades”, serviços ou manifestações do Espírito “em vista do bem comum”, assim como cada membro presta serviço para o bem do mesmo corpo. Paulo usa a imagem do corpo que tem muitos membros, mas forma uma única unidade. O Espírito nos unifica num só Corpo em Cristo: “judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito”. O Espírito Santo distribui seus dons / carismas não para distinguir esta ou aquela pessoa, mas em vista do bem da comunidade. A manifestação do Espírito se dá em todos os membros da comunidade. Não é privilégio do clero, dos religiosos ou de “grupos carismáticos”. A propósito, numa homilia de um autor anônimo do séc. V se diz que todos nós também “falamos em línguas” porque pertencemos à Igreja, Corpo Místico de Cristo, que anuncia o Evangelho em inúmeras línguas, pelo mundo inteiro.

Aclamação

Vinde, Espírito Divino,
e enchei com vossos dons os corações dos fiéis;
e acendei neles o amor como um fogo abrasador!

3. Evangelho: Jo 20,19-23

Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio:
Recebei o Espírito Santo!

No domingo passado meditamos que Jesus, antes de subir aos céus, enviou os apóstolos em missão: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura”. O evangelista Marcos nos lembrava que os apóstolos partiram em missão; pregavam em toda a parte e o Senhor Jesus “os ajudava, confirmando sua palavra por milagres que a acompanhavam”. Portanto, a Ascensão marca o fim da missão de Cristo aqui na terra e o começo da missão de seus discípulos. Hoje nos é revelado como se dará esta presença de Cristo entre nós. Jesus aparece no meio dos discípulos, saúda-os duas vezes e os tranquiliza com a sua presença, dizendo: “A paz esteja convosco”. Em seguida, se identifica mostrando-lhes as mãos e o lado perfurados. Ele é o mesmo Jesus crucificado, que cumpriu sua missão, a obra de nossa salvação, e pode voltar ao Pai: “Subo para o meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20,17). Antes de voltar ao Pai, porém, deixa-nos a tarefa de continuar sua missão: “Como o Pai me enviou também eu vos envio”. Jesus estará para sempre conosco pelo seu Espírito, o Advogado e Consolador, que estará sempre ao lado de seus discípulos: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Pelo dom de sua vida Jesus nos reconciliou com Deus, manifestando o amor misericordioso do Pai. Agora confia aos seus discípulos a missão de manifestar esta mesma misericórdia: “A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados”. Em geral pensamos que só o sacerdote pode perdoar pecados em nome de Deus. No entanto, a reconciliação é uma tarefa de todo cristão: “Perdoai nossas ofensas assim como nós perdoamos”. O poder de “ligar e desligar” é uma tarefa para todos. Se não perdoar a meu irmão, fico ligado, amarrado a ele pela raiva, ódio e desejo de vingança. Quando lhe concedo o perdão, fico livre para amar. Quando lhe peço perdão, restabeleço os laços de amor rompidos. Para este gesto de perdão e reconciliação Deus nos concede o dom do Espírito Santo.

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Um Deus com milhões de rostos

Frei Clarêncio Neotti

Jesus chamou o Espírito Santo de Paráclito, palavra grega que significa literalmente ‘aquele que é chamado para ajudar’ (Jo 14,16.26; 15,26; 16,7). Os latinos traduziram com o verbo ‘ad-vocare‘, que significa ‘chamar para perto’, de onde se originou o substantivo ‘advogado’. Alguns preferiram traduzir o termo grego por ‘consolador, alguém que, a nosso lado, nos conforta e ajuda a superar as dificuldades. Jesus também o chama de ‘Espírito de Verdade’ (Jo 16,13).

Os sábios da Igreja procuraram sempre explicar a pessoa e a presença do Espírito Santo. Orígenes, sábio que viveu em Alexandria na primeira metade do século III, disse que o Espírito Santo é beijo. O Pai beija, o Filho é beijado. O Espírito Santo é o beijo. Uma figura bonita, compreensível, mas não diz como pode um beijo ser pessoa. E nós sabemos, por revelação de Jesus, que o Espírito Santo é pessoa divina como ele, Jesus, e como o Pai. Outros doutores da Igreja dizem que o Espírito Santo é abraço. O Pai abraça o Filho com todo o amor. Esse abraço é o Espírito Santo. Ora, poderíamos dizer a mãe abraça e beija o filho com todo o amor de mãe, querendo dar-se inteiramente nesse beijo e abraço. Nem por isso consegue dar-se totalmente. Como, então,
pode Deus doar-se em amor tal que esse amor se torne pessoa? A mãe é criatura, é matéria. Deus é puro espírito. A criatura humana é limitada na sua força de doação. Deus, por ser Deus, é a
própria força do amor que é e que se dá.

Costumamos dizer que conhecemos o rosto de Deus na encarnação de Jesus. O rosto do Espírito Santo tem milhões de maneiras de aparecer, como o amor, que tem um modo de ser cada vez que se ama um irmão, um filho, uma mãe, um amigo. O amor tem milhões de expressões, milhões de rostos. Se isso acontece com o amor expresso por criatura, o que não será com o amor que é divino?

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Solenidade de Pentecostes

Frei Almir Guimarâes

Atos 2, 1-11; 1
Coríntios 12, 3-7. 12-13;
João 20, 19-23

Esse vento diferente…

tique-20Belíssima solenidade esta do fogo, do vento violento e brisa suave. O Espírito, o Advogado, o Defensor… Mistério da Trindade. O Pai, o Filho unidos. O Filho gerado, não criado. Entre eles um sopro do Espírito. O Pai envia o Filho e o Espírito o unge nas águas do Jordão. O Filho e o Espírito. O Filho é o Ungido. No alto da cruz, no momento da morte, segundo João, “Jesus entrega o seu Espírito”. Espírito com E maiúsculo. Ele cumpriu a promessa de não nos deixar órfãos. Esse Espírito que pairava sobre o caos primordial para tudo organizar, depois da Ascensão do Senhor, paira sobre os apóstolos na manhã de Pentecostes. Vento e fogo, sopro que movimenta e chamas que iluminam e que ardem. Vivemos a era do Espírito. A Igreja não tem outra finalidade senão a de auscultar o vento do Espírito. Ela é criatura do Espírito.

tique-20Ele é movimento, empurra para frente. Vento, chama crepitante, água viva, pomba que se desloca. Sopra, dilata, recria, transforma, inspira.

tique-20É ação. Preside os começos do universo. Age na concepção do Verbo Encarnado, no batismo do Messias, nos primeiros passos da Igreja, na luminosa e ventosa manhã de Pentecostes. Paulo nos convida a entrarmos na dinâmica do Espírito: “Se vivemos do Espírito, andemos também segundo o Espírito” (Gl 5,25).

tique-20É Não nos escraviza na lei fria, no legalismo, no rubricismo. Onde está o Espírito de Deus está a liberdade. Faz com que a Igreja se liberte dos grilhões históricos, culturais, ideológicos e religiosos. Na medida em que vai se libertando de tudo isso, torna-se Igreja libertadora.

tique-20É novidade. Normalmente se atribui ao Espírito o excepcional, o extraordinário. Ele não se compraz com caminhos batidos. É força de vida nova, fonte inesgotável de criatividade. Entra em conivência com toda sorte de novidade quando esta venha a favorecer a instauração do Reino. A presença do Espírito na Igreja faz com que esta se embrenhe por caminhos de um futuro não previsível.

tique-20O Espírito é impregnação. É agua que penetra tudo. Ao lado das imagens do Espírito como movimento e ação, há outras que apontam para impregnação, interiorização, habitação, morada. Nesta mesma linha vão as imagens do óleo e da unção. Apoiado nessas imagens Agostinho haverá de falar do Espírito como alma da Igreja. Dizemos que estamos “repletos” do Espírito Santo.

tique-20O Espírito é comunhão. Abolindo fronteiras e barreiras, o Espírito liga, une, reúne. O relato da manhã de Pentecostes bem ilustra essa dimensão de comunhão. Várias línguas, várias culturas e todos se entendendo. Completamente impregnada do Espírito, a comunidade encontra nele saúde, equilíbrio e alegria.

tique-20O Espírito é memória. Jesus mesmo disse que quando ele e o Pai enviassem o Espírito, ele haveria de permitir que os discípulos se lembrassem de tudo quando ele havia dito. O Espírito atualiza no hoje de cada geração a presença de Jesus de Nazaré que passando pela morte foi ressuscitado pelo Pai. Graças ao Espírito pudemos nos transformar em filhos no Filho. A vinda de Cristo na proclamação da Escritura e na celebração sacramental se realiza graças à invocação do Espírito, dita “epíclese”. Não existe oração eucarística sem esta imploração do Espirito sobre as pessoas e os dons.

Sopro vital da Igreja

Sem o Espírito, Deus se faz distância,
o Cristo permanece no passado,
o Evangelho é letra morta,
a Igreja é uma simples organização,
a autoridade, dominação,
a missão, uma propaganda,
o culto, uma evocação,
o agir cristão uma moral de escravo.

Mas nele:
O cosmos é soerguido e geme na parturição do Reino,
Cristo Jesus se faz presente,
o Evangelho é dinamismo de vida,
a Igreja significa comunhão trinitária,
a autoridade é um serviço libertador,
a missão é um Pentecostes,
a liturgia é memorial e antecipação
e o agir cristão é deificado,

Metropolita Ignatios de Lattaquié (Síria).

rodape-almir


Novo começo

 José Antonio Pagola

Apavorados com a execução de Jesus, os discípulos se refugiaram numa casa conhecida. Estão de novo reunidos, mas Jesus não está mais com eles. Na comunidade há um vazio que ninguém pode preencher. Falta-Ihes Jesus. Não podem escutar suas palavras cheias de fogo. Não podem vê-lo

abençoando com ternura os desgraçados. A quem seguirão agora?

Está anoitecendo em Jerusalém e também em seu coração. Ninguém pode consolar sua tristeza. Pouco a pouco, o medo vai tomando conta de todos, mas não têm Jesus para que fortaleça seu ânimo. A única coisa que lhes dá uma certa segurança é “fechar as portas’: Ninguém mais pensa em sair pelos caminhos para anunciar o reino de Deus e curar a vida. Sem Jesus, como vão transmitir sua Boa Notícia?

O evangelista João descreve de maneira insuperável a transformação que se opera nos discípulos quando Jesus, cheio de vida, se faz presente no meio deles. O ressuscitado está de novo no centro de sua comunidade. Assim há de ser para sempre. Com Ele tudo é possível: libertar-nos do
medo, abrir as portas e pôr a caminho a evangelização.

Segundo o relato, o que Jesus infunde primeiro em sua comunidade é sua paz. Nenhuma censura por tê-lo abandonado, nenhuma queixa nem reprovação. Só paz e alegria. Os discípulos sentem seu sopro criador. Tudo começa de novo. Impulsionados por seu Espírito, continuarão colaborando ao longo dos séculos no mesmo projeto salvador que o Pai encomendou a Jesus.

O que a Igreja de hoje precisa não é só de reformas religiosas e apelos à comunhão. Precisamos experimentar em nossas comunidades um “novo começo”, a partir da presença viva de Jesus no meio de nós. Só Ele há de ocupar o centro da Igreja. Só Ele pode impulsionar a comunhão. Só Ele
pode renovar nossos corações.

Não bastam nossos esforços e trabalhos. É Jesus quem pode desencadear a mudança de horizonte, a libertação do medo e da apreensão, o clima novo de paz e serenidade de que tanto necessitamos para abrir as portas e sermos capazes de compartilhar o Evangelho com os homens e mulheres do nosso tempo.

Mas temos de aprender a acolher com fé a presença de Jesus no meio de nós. Quando Ele torna a apresentar-se, depois de oito dias, o narrador nos diz que as portas ainda continuavam fechadas. Não é só Tomé que deve aprender a crer com confiança no Ressuscitado. Também os outros
discípulos devem ir superando aos poucos as dúvidas e medos que ainda os fazem viver com as portas fechadas à evangelização.

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A obra de Cristo e o Espírito Santo

Pe Johan Konings

“É bom para vós que eu me vá: se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se eu for, eu o enviarei a vós” (Jo 16,7). Meditando sobre a festa de Pentecostes, poderíamos dizer assim: Jesus foi a presença de Deus “em carne”, em existência humana, limitada no tempo e no espaço. Mas a presença de Deus na história da humanidade e no universo não se esgota em Jesus. O Espírito de Deus enche a terra e, contendo o universo, tem conhecimento de todo som” (Sb 1,7). O espaço que Jesus deixou ao encerrar sua missão na terra é preenchido pelo Espírito que vem do Pai, e que é também o Espírito de Jesus, pois, diferente dos dois, é o que une os dois.

Assim, o Espírito vem para continuar a obra de Jesus. Ele leva os discípulos a pregar o evangelho de Jesus (1ª Leitura). Ele é dado à Igreja para vencer o pecado (evangelho), como fez Jesus, “cordeiro que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). A Igreja tem por missão limpar o mundo do pecado, do ódio, de tudo o que exclui Deus, tanto nas pessoas como nas estruturas da sociedade, na vida individual e na vida política – tudo isso, no poder do Espírito. Agindo assim, a Igreja completará a obra que Jesus selou com o dom da própria vida e mostrará que Jesus, “exaltado”  na cruz, lhe confiou o Espírito. O Espírito é a atualidade de Jesus. Por isso, é a alma do Corpo de Cristo, que é a Igreja (2ª leitura). Ele faz com que Jesus atue no mundo de hoje, por meio da Igreja. Ele faz com que a  Igreja não seja mera instituição burocrática, preocupada apenas em perpetuar-se a si mesma, mas constante  encarnação do Espírito que veio sobre Jesus no batismo e o levou a realizar sua  missão de ser a palavra de amor que Deus dirige ao mundo. Assim, ele é o Espírito do Pai e do Filho, como diz o Credo. Ele é o Espírito do Senhor glorioso, laço de amor divino que nos une, e que transforma o mundo em nova criação, na qual todos se abrem à voz de Deus.

Ninguém pode reclamar para si esse Espírito se não está na linha de Jesus. Mas o inverso é verdade também. Ninguém pode cumprir a missão recebida do Senhor glorioso se não se deixa animar pelo Espírito, que Jesus mesmo pede ao Pai para nós (Jo 14,16). Cristo é dinâmico e atual em nós  graças ao Espírito Santo. Assim, Pentecostes continua acontecendo como se mostrou no Concílio Vaticano II, quando a Igreja se voltou para os pobres e excluídos, e em tantas outras coisas que não chamam a atenção, mas que mostram a verdadeira “renovação da face da terra” (que o Sl 104 [103], atribui ao Espírito de Deus)

O Espírito do Senhor enche a terra, contém o universo. Nada escapa a seu calor, se o deixarmos penetrar. Não desejemos o Espírito para brilhar, para sermos diferentes dos outros, mas para sermos condutores de seu calor, para que atinja a todos.

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