Destaque, Notícias › 02/11/2018

Solenidade de Todos os Santos

Santidade rima com criatividade

Frei Gustavo Medella

Muitos são os homens e mulheres que, percebendo-se infinitamente amados por Deus, tomaram como decisão radical entregar-se sem medidas a uma verdadeira aventura de amor. Escolheram ser sinal de salvação na vida de seus irmãos e irmãs, atualizando com seu esforço a presença do Pai Misericordioso, do Cristo do Lava-pés e do Espírito Consolador na história de tantos e tantas.

Não foi sem sofrimento e renúncia que abraçaram esta opção. Diversos deles testemunharam com a própria vida e sofreram mortes violentas: sao os mártires que levaram até a última consequência o Evangelho que assumiram como regra de vida. Outros abraçaram os ideais evangélicos na Vida Religiosa e buscaram se conformar a Jesus pela via da caridade, contemplando na figura do pobre, do frágil, do desvalido, do doente e do abandonado a presença viva do Crucificado. Há aqueles que, pela via do estudo e do intelecto, serviram ao povo oferecendo pistas e reflexões para que os fiéis tivessem mais possibilidades de se aproximarem dos mistérios divinos: são os doutores da Igreja. Existem também inúmeros que tiveram uma vida simples, constituíram família, viveram no silêncio e na discrição e, muitas vezes sem saber, fizeram a diferença na vida de tantos.

Santidade é um conceito dinâmico que rima e combina com criatividade. Não existe manual ou cartilha que ensine o cristão a ser santo. O que há é o convite insistente de Jesus: “Sede Santos, como vosso Pai Celeste é santo” (Mt 5,48). A partir daí, cada um pode e deve buscar o seu caminho, não numa perspectiva individualista de quem só se preocupa com a própria salvação, mas comprometendo-se em mergulhar com entusiasmo na realidade, sem medo ou escrúpulo, como presença alegre, humilde e serviçal na vida daqueles e daquelas que o Senhor colocar em seus caminhos.

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Leituras da Solenidade de Todos os Santos

Primeira Leitura (Ap 7,2-4.9-14)

Leitura do Livro do Apocalipse de São João

Eu, João, 2vi um outro anjo, que subia do lado onde nasce o sol. Ele trazia a marca do Deus vivo e gritava, em alta voz, aos quatro anjos que tinham recebido o poder de danificar a terra e o mar, dizendo-lhes: 3“Não façais mal à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”.

4Ouvi então o número dos que tinham sido marcados: eram cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel.

9Depois disso, vi uma multidão imensa de gente de todas as nações, tribos, povos e línguas, e que ninguém podia contar. Estavam de pé diante do trono e do Cordeiro; trajavam vestes brancas e traziam palmas na mão. 10Todos proclamavam com voz forte: “A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”.

11Todos os anjos estavam de pé, em volta do trono e dos Anciãos, e dos quatro Seres vivos, e prostravam-se, com o rosto por terra, diante do trono. E adoravam a Deus, dizendo: 12“Amém. O louvor, a glória e a sabedoria, a ação de graças, a honra, o poder e a força pertencem ao nosso Deus para sempre. Amém”. 13E um dos Anciãos falou comigo e perguntou: “Quem são esses vestidos com roupas brancas? De onde vieram?”

14Eu respondi: “Tu é que sabes, meu senhor”.

E então ele me disse: “Esses são os que vieram da grande tribulação. Lavaram e alvejaram as suas roupas no sangue do Cordeiro”.

Responsório (Sl 23)

— É assim a geração dos que procuram o Senhor!
— É assim a geração dos que procuram o Senhor!
— Ao Senhor pertence a terra e o que ela encerra,/ o mundo inteiro com os seres que o povoam;/ porque ele a tornou firme sobre os mares,/ e sobre as águas a mantém inabalável.
— “Quem subirá até o monte do Senhor,/ quem ficará em sua santa habitação?”/ “Quem tem mãos puras e inocente o coração,/ quem não dirige sua mente para o crime.
— Sobre este desce a bênção do Senhor/ e a recompensa de seu Deus e Salvador”./ “É assim a geração dos que o procuram,/ e do Deus de Israel buscam a face”.


Segunda Leitura (1Jo 3,1-3)

Leitura da Primeira Carta de São João

Caríssimos: 1Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai.

2Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. 3Todo o que espera nele purifica-se a si mesmo, como também ele é puro.


Evangelho:  Mt 5, 1-12ª

Bem-aventuranças: anseio por um mundo novo

-* 1 Jesus viu as multidões, subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos se aproximaram, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 «Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. 4 Felizes os aflitos, porque serão consolados. 5 Felizes os mansos, porque possuirão a terra. 6 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. 8 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. 11 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. 12 Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.»

* 5-7: O Sermão da Montanha é um resumo do ensinamento de Jesus a respeito do Reino e da transformação que esse Reino produz. Moisés tinha recebido a Lei na montanha do Sinai; agora Jesus se apresenta como novo Moisés, proclamando sobre a montanha a vontade de Deus que leva à libertação do homem.

* 5,1-12: As bem-aventuranças são o anúncio da felicidade, porque proclamam a libertação, e não o conformismo ou a alienação. Elas anunciam a vinda do Reino através da palavra e ação de Jesus. Estas tornam presente no mundo a justiça do próprio Deus. Justiça para aqueles que são inúteis ou incômodos para uma estrutura de sociedade baseada na riqueza que explora e no poder que oprime.

Os que buscam a justiça do Reino são os «pobres em espírito.» Sufocados no seu anseio pelos valores que a sociedade injusta rejeita, esses pobres estão profundamente convictos de que eles têm necessidade de Deus, pois só com Deus esses valores podem vigorar, surgindo assim uma nova sociedade.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Todos os Santos, ano B

Frei Ludovico Garmus, ofm

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos dais celebrar numa só festa os méritos de todos os Santos, concedei-nos por intercessores tão numerosos a plenitude da vossa misericórdia”.

1. Primeira leitura: Ap 7,2-4.9-14

Vi uma multidão imensa de gente
de todas as nações, tribos, povos e línguas.

Quando o autor do Apocalipse escreve, os cristãos sofriam grandes perseguições por parte do Império Romano. O embate não se dá entre romanos e cristãos, mas entre o Império e o imperador simbolizados no dragão voraz, e o Cordeiro Imolado, que é Cristo Jesus. O vidente recebe a ordem de Cristo para escrever em seu livro tanto “as coisas presentes como as que acontecerão depois”. No presente, um anjo, com “a marca do Deus vivo”, pede que os anjos exterminadores esperem até que ele tenha assinalado os que serão salvos, antes da batalha final do Cordeiro imolado contra o dragão voraz. O visionário, por sua vez, “vê” o triunfo final dos que estão vestidos de branco porque “lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro”. São 144 mil, 12 mil de cada tribo de Israel; são os mártires que deram testemunho da fé cristã pelo sacrifício da própria vida. Para o futuro, vê uma imensa multidão, representantes de nações, tribos, povos e línguas que participarão da vitória do Cordeiro ressuscitado.

Salmo responsorial: Sl 23

É assim a geração dos que procuram o Senhor.

2. Segunda leitura: 1Jo 3,1-3

Veremos Deus tal como é.

O autor desta Carta se encanta com o “presente de amor que o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus”, e o somos de fato. Viver consciente dessa fé nos enche de uma alegre esperança, porque “quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos tal como ele é”. O caminho para chegarmos a esta comunhão com Cristo, o Filho de Deus, foi seguido pelos Santos. É o caminho das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus” (Evangelho). Para “ver a Deus” é preciso seguir o caminho de Jesus Cristo, como o fez o cego de Jericó no domingo passado (30º domingo, ano B).

Aclamação ao Evangelho

Vinde a mim todos vós que estais cansados,
e penais a carregar pesado fardo,
e descanso eu vos darei, diz o Senhor.

3. Evangelho: Mt 5,1-12a

Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.

Há dois domingos o Evangelho apontava para o jovem rico o caminho do seguimento de Jesus como o caminho seguro do Reino de Deus, para alcançar a vida eterna. Hoje, Festa de todos os Santos, o evangelista Mateus explicita nas bem-aventuranças o programa do Caminho a seguir nesta vida, para ganharmos a “grande recompensa nos céus (v. 10 e 12). Antes de tudo é preciso ter presente que “Reino dos Céus” em Mateus equivale a “Reino de Deus” em Marcos e em Lucas. Portanto, “Reino dos Céus” não se identifica com a recompensa final da vida eterna em Deus (cf. Mc 10,17-30). Antes, é o caminho que Jesus preparou para o cristão percorrer, aqui na terra, para ganhar a vida eterna. Mateus escreve para cristãos de origem judaica. Por isso, em respeito à tradição judaica, evita pronunciar a palavra “Deus” e a substitui pela palavra “Céus”.

Entre os bem-aventurados Mateus cita três grupos (Raul Ruijs). O primeiro grupo é dos sofredores: os pobres, os aflitos, os mansos (humildes) e os que têm fome e sede de justiça (v. 3-6). O segundo grupo é dos que socorrem os necessitados do primeiro grupo: são os misericordiosos, os puros de coração e os que promovem a paz (v. 7-9). O terceiro grupo é composto pelos do primeiro e do segundo grupo, que vivem o projeto do Reino de Deus, anunciado e vivido por Jesus. São perseguidos porque são solidários com os pobres, os aflitos, os humildes e injustiçados e os defendem. São caluniados e perseguidos pelo simples fato de serem cristãos.

Não podemos pensar que a formulação de algumas bem-aventuranças no futuro signifique algo que Deus vai realizar sem a nossa participação, somente na vida eterna. Deus enviou seu Filho ao mundo para nos trazer o Reino de Deus, o Reino que pedimos no Pai-Nosso. Jesus pôs em prática o programa deste Reino que veio anunciar. Quem quer seguir o caminho de Jesus deve assumir também o seu programa. Assim, os aflitos serão consolados quando nós os consolarmos. Os mansos possuirão a terra quando nós lutarmos com eles. Os que têm fome e sede de justiça serão saciados quando nós os defendermos. Os miseráveis e pobres alcançarão misericórdia quando nós tivermos compaixão deles. Os Santos que hoje festejamos seguiram o exemplo de Jesus e colocaram em prática as bem-aventuranças. Ele é o modelo para todos nós: “Jesus percorria todas as cidades e aldeias ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda enfermidade e doença. Vendo o povo, Jesus sentiu compaixão dele porque estava cansado e abatido como ovelhas sem pastor” (Mt 9,35-36). – O Bom Pastor que deu a vida pelas suas ovelhas, depois de nos ter alimentado pela Palavra de Deus, vai agora nos alimentar pela Eucaristia. Assim alimentados, vamos também nós cuidar de nossos irmãos sofredores, mostrando a eles o amor misericordioso de nosso Bom Pastor. Aos que assim o fizerem, Jesus Cristo como justo juiz os acolherá na vida eterna: “Vinde, abençoados por meu Pai… porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, estive nu e me vestistes…” (Mt 25,34-35).

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Ponto de vista humano, ponto de vista de Deus

Frei Clarêncio Neotti

A primeira e a última bem-aventuranças (o versículo 11 é uma explicitação do 10) trazem o verbo no presente: é o Reino dos Céus. O tempo do verbo no presente sugere-nos que o Reino dos Céus já está no nosso meio, como afirmou Jesus (Lc 17,21). De fato o reino dos Céus identifica-se primeiro com a pessoa de Jesus e, depois, abrange os que creem nele e vivem sua doutrina. E Jesus continua presente no meio de nós (Mt 28,20), como confessamos em todas as Missas, quando o Celebrante nos diz: “0 Senhor esteja convosco!” As outras bem-aventuranças trazem o verbo no futuro: possuirão, alcançarão, serão. Isso sugere algo que acontecerá em tempo mais longínquo, talvez depois da morte. Mas isso vale só do ponto de vista da linguagem e da esperança humana, porque as coisas de Deus não têm presente e futuro. A questão do tempo e do espaço é coisa das criaturas, não do criador.

Cada uma das bem-aventuranças vem motivada por um ‘porque’. É o motivo em que se fundamenta a bem-aventurança. Também os motivos contrariam os valores humanos, no sentido de que, diante de Deus, são felizes justamente aqueles que o mundo considera fracos, pobres, infelizes. Por isso mesmo devemos ler os motivos com os olhos de Deus e não com os nossos. Por exemplo: herdarão a terra não significa que um dia todos os despossuídos terão terra e casa. Isso seria pouco, ainda que muito do ponto de vista humano. Mas significa, do ponto de vista de Deus, aquela terra prometida, onde o sol não se levanta nem se deita, porque a glória de Deus é a luz que ilumina e a luz que ilumina é o próprio Cristo Senhor (Ap 21,23). Esta ‘terra’ não fica no além. Além e aquém também são conceitos humanos. Esta ‘terra’ é a comunhão com Deus a que somos chamados a viver agora e depois de nossa morte.

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O belíssimo cortejo dos santos

Frei Almir Guimarães

A santidade é uma grande paixão. Nela há qualquer coisa da loucura do amor, a própria loucura da cruz que desconsidera os cálculos e a sabedoria dos homens. (Pierre Claverie).

Os santos são pessoas que se viram livres de si mesmas, de tanto se doarem aos outros (Ambroise-Marie Carré, op).

Existe apenas uma tristeza: a de não ser santo (Léon Bloy)

Novembro dos agapantos, da comemoração dos falecidos que deixaram tanta saudade em nossos corações, festa de todos os santos, desses habitantes do país onde o sol brilha sempre e onde todas as lágrimas serão enxugadas, onde a terra e o céu se encontram. João Crisóstomo, Terezinha de Lisieux, Pedro de Alcântara, Francisco de Assis, Edith  Stein, João Paulo II, Isabel da Hungria, Oscar Romero. E tantos outros santos anônimos: Dona Cremilda, seu Zezinho, Ana Lucia. Jovens de coração reto, casais impecáveis, sacerdotes zelosos, médicos dedicados, motoristas atenciosos, plantadores de soja, enfermeiros balconistas. Muitos nunca terão imagens nas igrejas, nem serão padroeiros de paróquias, mas já circulam hoje nos espaços da glória de Deus.

Nós, discípulos de Jesus, somos chamados à santidade. Não fomos feitos para um cristianismo de rotina, de ritos, do frio elenco de doutrinas. A santidade não tem a ver com “halterofilismo espiritual”. Não é resultado de meros empenhos pessoais. É o Senhor que nos santifica porque só ele é santo. Temos as marcas do pecado que torna seres dilacerados. Os santos são obras primas do amor de Deus.

É o Altíssimo que nos santifica. Aos poucos homens de todos os tempos, todas as raças e nações foram deixando espaço para que Deus deles se apossassem. Foram se achegando a Cristo e deixaram o amor do Senhor manifestado no peito aberto no alto da cruz e na água que saiu do peito do Senhor os lavasse.

As bem-aventuranças de Mateus, de alguma forma, traçam o perfil do santo segundo o coração de Deus.

Os pobres de coração são aqueles se colocam na dependência do Senhor. Eles foram se libertando e se livrando de todas as coisas que atravancavam sua vida. Foram sendo libertados de vaidades, complacências e riquezas de toda sorte. Pobres de ideias fixas. Capazes de acolher o diferente. Pobres por dentro e por fora. Pobres que vivem na dependência de Deus. Seres leves e transparentes. Capazes de dar aos outros a plenitude de sua atenção.

Os não violentos, os mansos possuirão a terra. Quanta violência! Violência de prisões arbitrárias de ladrões de galinha, atentados, torturas, assassinatos. Cenas horríveis. Os que buscam ser fiéis à ação de Deus neles vão se livrando da cólera, da agressividade. Os mansos procuram convencer e não vencer. Aprendem a se desarmar. Sabem que existe uma força nos meios frágeis.

Os que choram serão consolados. Certamente o olhar do Senhor se volta para os que choram. No Evangelho vemos Jesus ter imensa compaixão pela viúva de Naim que enterrava seu filho único. As lágrimas dizem a alma não se enrijeceu.   Os santos mostram ternura para com os aflitos, ajudam-nos a carregar seus fardos. Recolhemos as lágrimas de Deus no rosto dos que sofrem. Todos os soluços através dos tempos serão recolhidos no mundo definitivo do Reino.

Os santos não se contentam com isso ou aquilo, este alimento meio leve e essa água não tão transparente. São famintos e sedentos de plenitude, de santidade. Os santos, na fé, contemplam a Face do Senhor. Nunca estão plenamente satisfeitos. A samaritana que encontrou Jesus no poço tinha dentro dela uma sede diferente daquela que é apaziguada pela água. Felizes os que têm fome e sede de Deus. Felizes os santamente inquietos.

Deus é misericórdia. Ele se volta para os corações pequenos e carentes de tudo. Misericórdia é o nome de Deus. Nós, pobres mortais e viandantes errantes calculamos, julgamos, condenamos. Contabilizamos as ofensas e preparamos revanches. Deus perdoa, confia. Não conhece o dar quando se recebe.

Profunda e encantadora esse pensamento-oração de Gilbert Cesbron: “Tu que, alegremente acolhes o filho pródigo, que tudo deixas de lado para buscar a ovelha perdida, que prestas atenção no operário da undécima hora num fantástico ato de fé, esperança e caridade. Deus de ternura e generosidade, do sorriso e da gratuidade, dá-nos a loucura da Misericórdia”.

Os santos lutam por manter a transparência do olhar. O coração deixa de ser puro pela inveja, ambição, hipocrisia e desejo de posse das pessoas. Deseja que seu coração seja como água pura. Pureza e transparência. Nada de  preconceitos, nem espírito de cálculo. Puros de coração, de corpo e de mente. Uma tal transparência que as pessoas podem ver no olhar do santo, ou do que tende à santidade, a claridade do olhar de Deus.

Os santos, os que buscam ser santos, trabalham pela paz e são chamados filhos de Deus. A paz precisa, antes de tudo, ser  estabelecida em nosso interior, não como um armistício  mas como conquista de nossas fraquezas e contradições. Reconciliando-nos conosco mesmos procuramos os outros e lutamos com nossas forças contra privilégios, opressão e desordens estabelecidas. Os santos batalham pela busca da paz inseparável da justiça. Num mundo de tantos conflitos os santos mais bonitos são certamente são aqueles que trabalham pela reconciliação.

Há ainda a bem-aventurança dos perseguidos por causa do nome de Jesus. E quantos!!!  Esses todos lembram Jesus, o justo que sofreu. Esses têm em seu rosto fortes traços do semblante de  Jesus.

Oração

Felizes os que têm espírito de pobre, os que sabem viver com pouco.

Terão menos problemas, estarão mais atentos aos necessitados  e viverão com mais liberdade.

Felizes os mansos porque esvaziaram o coração da violência e da agressividade. Constituem uma dádiva para nosso mundo violento

Felizes os que choram por verem os outros sofrer. São pessoas boas. Com elas podemos construir um mundo mais fraterno  e solidário.

Felizes os que têm fome e sede de justiça porque não perderam o desejo de serem justos, nem a vontade de construir uma sociedade mais digna.

Felizes os misericordiosos porque sabem perdoar do fundo do coração. Só Deus conhece sua luta interior e sua grandeza. Eles nos ensinam a lição da reconciliação.

Felizes os que mantêm o coração limpo de ódios, falsidades e interesses ambíguos. Neles se pode confiar para construir o futuro.

Felizes os que trabalham pela paz sem desanimar.

Felizes os que são perseguidos, eles nos ajudam a vencer o mal com o bem.

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O Deus dos que sofrem

José Antonio Pagola

Se algo se mostra claro nas bem-aventuranças é que Deus é dos pobres, dos oprimidos, dos que choram e sofrem. Deus não é insensível ao sofrimento. Não é apático. Deus “sofre onde sofre o amor” (Jürgen Moltmann). Por isso, o futuro projetado e querido por Deus pertence aos que sofrem, porque dificilmente há um lugar para eles na sociedade e no coração dos irmãos.

Não são raros os pensadores que creem observar um aumento crescente da apatia na sociedade moderna. Parece que está crescendo a nossa incapacidade de perceber o sofrimento alheio. É a atitude do cego que já não percebe a dor. É o embotamento de quem permanece insensível diante do sofrimento.

De mil maneiras vamos evitando a relação e o contato com os que sofrem. Levantamos muros que nos separam da experiência e da realidade do sofrimento alheio. Procuramos manter-nos o mais longe possível da dor. Só nos preocupamos com o que é nosso e vivemos “assepticamente” em nosso mundo privado, depois de colocar o correspondente “Do not disturb”.

Por outro lado, a organização da vida moderna parece ajudar a encobrir a miséria e solidão das pessoas, ocultando o sofrimento. Raramente experimentamos de forma sensível e imediata o sofrimento e a angústia dos outros. É difícil encontrar-se de perto com o rosto perdido de um ser humano marginalizado. Não sentimos a solidão e o desespero de quem vive junto de nós.

Reduzimos os problemas humanos a números e dados. Contemplamos o sofrimento alheio de forma indireta, através da tela de TV. Corremos para as nossas ocupações, sem tempo para deter-nos diante de quem sofre.

Mas, no meio dessa apatia social, torna-se mais significativa a fé cristã em um “Deus amigo dos que sofrem”, um Deus crucificado, que quis sofrer junto com os abandonados deste mundo: o Deus das bem-aventuranças.

“Podemos mudar as condições sociais sob as quais sofrem as pessoas … Podemos fazer retroceder e inclusive suprimir o sofrimento que ainda hoje se cria para proveito de uns poucos. Mas em todos esses caminhos tropeçamos com fronteiras que não se deixam ultrapassar. Não é só a morte … , mas também o embrutecimento e a falta de sensibilidade. O único meio de ultrapassar essas fronteiras consiste em compartilhar a dor com os que sofrem, não deixá-los sozinhos e tornar mais eficaz seu grito” (Dorothee Sölle).

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A comunhão dos Santos

Pe. Johan Konings

Atualmente pouco se ouve falar na “comunhão dos santos”. Além disso, muitos fiéis talvez tenham uma ideia muito restrita a respeito de quem são os santos … Nas suas cartas, Paulo chama os fiéis em geral de “santos”. Todos os que pertencem a Cristo e seu Reino constituem uma comunidade viva e real, a “Comunhão dos Santos”.

As bem-aventuranças (evangelho) proclamam a chegada do Reino de Deus e, por isso, a boa ventura daqueles que “combinam com ele”. Assim, caracterizam a comunidade dos “santos”, os “filhos do Reino”, e proclamando a sua felicidade e salvação. Jesus felicita os “pobres de Deus”, os que confiam mais em Deus do que na prepotência, os que produzem paz, os que veem o mundo com a clareza de um coração puro etc. Sobretudo os que sofrem por causa do Reino, pois sua recompensa é a comunhão no “céu”, isto é, em Deus. Dedicando sua vida à causa de Deus, eles “são dele”. É o que diz S. João (2ª leitura): já somos filhos de Deus, e nem imaginamos o que seremos! Mas uma coisa sabemos: seremos semelhantes a ele, realizaremos a vocação de nossa criação (Gn 1,26). O amor de Deus tomará totalmente conta de nosso ser, ao ponto de nos tornar iguais a ele.

A santidade não é o destino de uns poucos, mas de uma imensa multidão (1ª leitura): todos aqueles que, de alguma maneira, até sem o saber, aderiram e aderirão à causa de Cristo e do Reino: a comunhão ou comunidade dos santos.

Ser santo significa ser de Deus. Não é preciso ser anjo para isso. Santidade não é angelismo. Significa um cristianismo libertado e esperançoso, acolhedor para com todos os que “procuram Deus com um coração sincero” (Oração Eucarística IV). Mas significa também um cristianismo exigente. Devemos viver mais expressamente a santidade de nossas comunidades (a nossa pertença a Deus e a Jesus), por uma prática da caridade digna dos santos e por uma vida espiritual sólida e permanente.

Sobretudo: santidade não é beatice, não é medo de viver. É uma atitude dinâmica, uma busca de pertencer mais a Deus e assemelhar-se sempre mais a Cristo. Não exige boa aparência!

Desprezar os pobres é desprezar os santos! Mas exige disponibilidade para se deixar atrair por Cristo e entrar na solidariedade dos fiéis de todos os tempos, santificados e unidos por ele.

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