Destaque, Notícias › 03/11/2017

Solenidade de Todos os Santos

Os Santos revelam a proximidade entre terra e céu

Frei Gustavo Medella

“Diga, espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu?”. A felicidade do folião relatada no trecho da música que abre esta breve reflexão ilustra justamente o sentimento daquele que, numa explosão de plenitude, sente o céu dentro de si. Naquele momento, ele percebe para qual direção caminha o mais profundo de seus anseios. Ali ele percebe que o céu é um convite para o presente e não apenas uma promessa para o futuro. Feliz é aquele que consegue encontrar já na terra o céu dentro de si.

E o tema da felicidade está no centro da Celebração que traz presente o elo que marca a profunda intimidade entre terra e céu. Bem-aventurados são aqueles que, mesmo nas dificuldades, sentem-se chamados a dar um passo além na busca da mansidão, na luta pela justiça, na postura pacífica, no espírito de pobreza. Aí habita o núcleo do ideal de santidade proposto por Jesus àqueles que desejam segui-Lo.

Desta forma, recordar Todos os Santos é, portanto, celebrar a porta aberta que Cristo deixa a todo ser humano, a fim de transcender os próprios limites para experimentar no aqui e agora da existência a alegria de pertencer a Deus. A Solenidade de Todos os Santos nos faz perceber que não existe barreira entre os que agora trabalham pela construção do Reino e aqueles que doaram suas vidas para responder com qualidade ao belo chamamento do Senhor, à vocação ao eterno que habita no íntimo de cada ser.


Bem-aventuranças: anseio por um mundo novo

1ª Leitura: AP 7,2-4.9-14
Sl 23
2ª Leitura: 1Jo 3,1-3
Evangelho: Mt 5,1-12ª

-* 1 Jesus viu as multidões, subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos se aproximaram, 2 e Jesus começou a ensiná-los: 3 «Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu. 4 Felizes os aflitos, porque serão consolados. 5 Felizes os mansos, porque possuirão a terra. 6 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. 8 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu. 11 Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. 12 Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.»


* 5-7: O Sermão da Montanha é um resumo do ensinamento de Jesus a respeito do Reino e da transformação que esse Reino produz. Moisés tinha recebido a Lei na montanha do Sinai; agora Jesus se apresenta como novo Moisés, proclamando sobre a montanha a vontade de Deus que leva à libertação do homem.

* 5,1-12: As bem-aventuranças são o anúncio da felicidade, porque proclamam a libertação, e não o conformismo ou a alienação. Elas anunciam a vinda do Reino através da palavra e ação de Jesus. Estas tornam presente no mundo a justiça do próprio Deus. Justiça para aqueles que são inúteis ou incômodos para uma estrutura de sociedade baseada na riqueza que explora e no poder que oprime. Os que buscam a justiça do Reino são os «pobres em espírito.» Sufocados no seu anseio pelos valores que a sociedade injusta rejeita, esses pobres estão profundamente convictos de que eles têm necessidade de Deus, pois só com Deus esses valores podem vigorar, surgindo assim uma nova sociedade.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Todos os Santos, ano A

Frei Ludovico Garmus

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que nos dais celebrar numa só festa os méritos de todos os Santos, concedei-nos por intercessores tão numerosos a plenitude da vossa misericórdia”.

1. Primeira leitura: Ap 7,2-4.9-14

Vi uma multidão imensa de gente
de todas as nações, tribos, povos e línguas.

Quando o autor do Apocalipse escreve, os cristãos sofriam grandes perseguições por parte do Império Romano. O embate não se dá entre romanos e cristãos, mas entre o Império romano e Cristo, simbolizados respectivamente pelo dragão voraz e pelo Cordeiro Imolado. O vidente recebe a ordem de Cristo para escrever em seu livro tanto “as coisas presentes como as que acontecerão depois”. No presente, um anjo, com “a marca do Deus vivo”, pede que os anjos exterminadores esperem até que ele tenha assinalado os que serão salvos, antes da batalha final do Cordeiro imolado contra o dragão voraz. O visionário, por sua vez, “vê” o triunfo final dos que estão vestidos de branco porque “lavaram e alvejaram suas roupas no sangue do Cordeiro”. São 144 mil, 12 mil de cada tribo de Israel; são os mártires que deram testemunho da fé cristã pelo sacrifício da própria vida. Para o futuro, vê uma imensa multidão, representantes de nações, tribos, povos e línguas que participarão da vitória do Cordeiro ressuscitado.

Salmo responsorial: Sl 23

É assim a geração dos que procuram o Senhor!

2. Segunda leitura: 1Jo 3,1-3

Veremos Deus tal como é.

O autor desta Carta se encanta com o “presente de amor que o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus” e o sermos de fato. Viver consciente dessa fé nos enche de uma alegre esperança, porque “quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos tal como ele é”. O caminho para chegarmos a esta comunhão com Cristo, o Filho de Deus, foi seguido pelos Santos. É o caminho das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus” (Evangelho).

Aclamação ao Evangelho

Vinde a mim todos vós que estais cansados,
e penais a carregar pesado fardo,
e descanso eu vos darei, diz o Senhor.

3. Evangelho: Mt 5,1-12a

Alegrai-vos e exultai, porque será grande
a vossa recompensa nos céus.

No 28º Domingo, Mateus contou a parábola dos convidados para a festa de casamento do filho do rei. Os convidados, porém, desprezaram o convite e até maltrataram ou mataram os empregados do rei. Na parábola, o rei mandou convidar todo tipo de pessoas da rua, das esquinas e encruzilhadas; mas depois entrou na sala do banquete e expulsou um homem que não estava vestido com roupa de casamento. Vimos que o convite de Deus é gratuito, não merecido, mas exige do convidado que se respeitem as normas devidas. Os santos e santas, que hoje festejamos, estão vestidos com a veste branca da fidelidade e do amor (1ª leitura); foram capazes de entregar a própria vida pela fé em Cristo Jesus. No Evangelho de hoje, Mateus aponta nas bem-aventuranças o caminho mais curto para alcançar a glória celeste em Deus, junto com os santos. O discípulo que seguir este caminho deve atender com presteza ao clamor dos sofredores, dos pobres e injustiçados, e alcançará a “grande recompensa nos céus (v. 10 e 12). Antes de tudo é preciso ter presente que “Reino dos Céus” em Mateus equivale a “Reino de Deus” em Marcos e Lucas. Mateus escreve para cristãos de origem judaica e em respeito à tradição judaica, evita pronunciar a palavra “Deus”, substituindo-a pela palavra “Céus”. O “Reino dos Céus” não se identifica com a recompensa final da vida eterna em Deus (cf. Mc 10,17-30). Antes, é o caminho a percorrer na vida cristã para ganhar a vida eterna.

Entre os bem-aventurados Mateus cita três grupos. O primeiro grupo é dos sofredores: os pobres, os aflitos, os mansos (humildes) e os que têm fome e sede de justiça (v. 3-6). O segundo grupo é dos que socorrem os necessitados do primeiro grupo: são os misericordiosos, os puros de coração e os que promovem a paz (v. 7-9). O terceiro grupo é composto pelos do primeiro e do segundo grupo; são os que vivem o projeto do Reino de Deus, anunciado e vivido por Jesus. São perseguidos porque são solidários com os pobres, os aflitos, os humildes e injustiçados e os defendem. São caluniados e perseguidos pelo simples fato de serem cristãos.

Não podemos pensar que a formulação de algumas bem-aventuranças no futuro signifique algo que Deus vai realizar sem a nossa participação, somente na vida eterna. Deus enviou seu Filho ao mundo para nos trazer o Reino de Deus, o Reino que pedimos no Pai-Nosso. Jesus pôs em prática o programa deste Reino que veio anunciar. Quem quer seguir o caminho de Jesus deve assumir também este programa. Assim, os aflitos serão consolados quando nós os consolarmos. Os mansos possuirão a terra quando nós lutarmos com eles. Os que têm fome e sede de justiça serão saciados quando nós os defendermos. Os miseráveis e pobres alcançarão misericórdia quando nós tivermos misericórdia com eles. Os Santos que hoje festejamos seguiram o exemplo de Jesus e colocaram em prática as bem-aventuranças do Reino de Deus. Jesus é o modelo para todos nós: “Jesus percorria todas as cidades e aldeias ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando toda enfermidade e doença. Vendo o povo, sentiu compaixão dele porque estava cansado e abatido, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,35-36). – O Bom Pastor que deu a vida pelas suas ovelhas, depois de nos ter alimentado pela Palavra de Deus, vai agora nos alimentar pela Eucaristia. Assim, com a força de seu Espírito colocaremos em prática as bem-aventuranças.


Conteúdo inesgotável

José Antonio Pagola

Quem se aproxima sempre de novo das bem-aventuranças de Jesus percebe que seu conteúdo é inesgotável. Sempre surgem novas ressonâncias. Sempre encontramos nelas uma luz diferente para o momento que estamos vivendo. Assim “ressoam” hoje para mim as palavras de Jesus:

Felizes os que têm espírito de pobre, os que sabem viver com pouco. Estes terão menos problemas, estarão mais atentos aos necessitados e viverão com mais liberdade. O dia em que chegarmos a entender isto seremos mais humanos.

Felizes os mansos, os que esvaziam seu coração de violência e agressividade. Estes são uma dádiva para o nosso mundo violento. Quando todos agirmos assim, poderemos conviver em verdadeira paz.

Felizes os que choram ao ver os outros sofrer. São pessoas boas. Com elas se pode construir um mundo mais fraterno e solidário.

Felizes os que têm fome e sede de justiça, os que não perderam o desejo de ser mais justos, nem a vontade de construir uma sociedade mais digna. Neles sobrevive o melhor do espírito humano.

Felizes os misericordiosos, os que sabem perdoar do fundo do seu coração. Só Deus conhece sua luta interior e sua grandeza. Eles são os que podem melhor nos aproximar da reconciliação.

Felizes os que mantêm seu coração limpo de ódios, falsidades e interesses ambíguos. Neles se pode confiar para construir o futuro.

Felizes os que trabalham pela paz com paciência e com fé, sem desanimar diante dos obstáculos e dificuldades, buscando sempre o bem de todos. Precisamos deles para reconstruir a convivência.

Felizes os que são perseguidos porque agem com justiça e respondem com mansidão às injustiças e ofensas. Eles nos ajudam a vencer o mal com o bem.

Felizes os que são insultados, perseguidos e caluniados porque seguem fielmente a trajetória de Jesus. Seu sofrimento não se perderá inutilmente.

No entanto, deformaríamos o sentido destas bem-aventuranças, se não acrescentássemos algo que é sublinhado em cada uma delas. Com belas expressões, Jesus coloca Deus diante de seus olhos como garantia última da felicidade humana. Aqueles que vivem inspirando-se neste programa de vida, “serão consolados”, “ficarão saciados de justiça”, “alcançarão misericórdia”, “verão a Deus” e desfrutarão eternamente em seu reino.

Texto extraído do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, de José Antonio Pagola, Editora Vozes.


A comunhão dos Santos

Pe. Johan Konings

Atualmente pouco se ouve falar na “comunhão dos santos”. Além disso, muitos fiéis talvez tenham uma ideia muito restrita a respeito de quem são os santos…

Nas suas cartas, Paulo chama os fiéis em geral de “santos”. Todos os que pertencem a Cristo e seu Reino constituem uma comunidade viva e real, a “Comunhão dos Santos”.

As bem-aventuranças (evangelho) proclamam a chegada do Reino de Deus e, por isso, a boa ventura daqueles que “combinam com ele”. Assim, caracterizam a comunidade dos “santos”, os “filhos do Reino”, e proclamando a sua felicidade e salvação. Jesus felicita os “pobres de Deus”, os que confiam mais em Deus do que na prepotência, os que produzem paz, os que vêem o mundo com a clareza de um coração puro etc. Sobretudo os que sofrem por causa do Reino, pois sua recompensa é a comunhão no “céu”, isto é, em Deus. Dedicando sua vida à causa de Deus, eles “são dele”. É o que diz S. João (2ª leitura): já somos filhos de Deus, e nem imaginamos o que seremos! Mas uma coisa sabemos: seremos semelhantes a ele, realizaremos a vocação de nossa criação (Gn 1,26). O amor de Deus tomará totalmente conta de nosso ser, ao ponto de nos tornar iguais a ele.

A santidade não é o destino de uns poucos, mas de uma imensa multidão (1ª leitura): todos aqueles que, de alguma maneira, até sem o saber, aderiram e aderirão à causa de Cristo e do Reino: a comunhão ou comunidade dos santos.

Ser santo significa ser de Deus. Não é preciso ser anjo para isso. Santidade não é angelismo. Significa um cristianismo libertado e esperançoso, acolhedor para com todos os que “procuram Deus com um coração sincero” (Oração Eucarística IV). Mas significa também um cristianismo exigente. Devemos viver mais expressamente a santidade de nossas comunidades (a nossa pertença a Deus e a Jesus), por uma prática da caridade digna dos santos e por uma vida espiritual sólida e permanente.

Sobretudo: santidade não é beatice, não é medo de viver. É uma atitude dinâmica, uma busca de pertencer mais a Deus e assemelhar-se sempre mais a Cristo. Não exige boa aparência!

Desprezar os pobres é desprezar os santos! Mas exige disponibilidade para se deixar atrair por Cristo e entrar na solidariedade dos fiéis de todos os tempos, santificados e unidos por ele.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com