Destaque, Notícias › 23/12/2018

Solenidade do Natal do Senhor

Natal é “A Festa”!

 Frei Gustavo Medella

Natal é a festa dos extremos. Afinal, Deus, sendo infinito, onipotente, onisciente e onipresente, escolhe se tornar um menino frágil, pequeno, dependente e pobre. Assim Ele abraça de cheio nossa humanidade, especialmente nas situações em que ela se apresenta mais fragilizada. No Natal, o Senhor nos acolhe em nossa fraqueza.

Natal é a festa da profecia. Mesmo sem saber ainda falar, ao nascer pobre, numa situação de improviso e carência, Jesus denuncia o sofrimento de tantos homens e mulheres que experimentam na pele a dor do egoísmo e da ganância de uma sociedade que tem dificuldade em aprender a lição da partilha.

Natal é a festa da generosidade. A verde árvore repleta de enfeites coloridos, a mesa farta e a troca animada de presentes vêm recordar que, em Jesus, Deus se entrega a nós por inteiro, sem reservas, e nos chama a esta mesma generosidade. O Natal é o convite máximo para sermos pessoas solidárias e capazes de partilhar, especialmente com aquele que nada têm.

Natal é a festa do encontro. Encontro entre divino e humano, entre o céu e a terra, entre familiares e amigos, entre pessoas que estão com as relações abaladas, mas que nesta época decidem considerar a graça de pedir, oferecer, dar e acolher o perdão.

Natal é a festa do recomeço. Deus, que nasce dia a dia nas situações mais imprevistas, como fez na pobre gruta de Belém, recorda-nos que sempre é tempo de recomeçar. Quem caiu, sabe que é possível levantar, quem se perdeu no caminho, percebe que pode retomar a rota, quem se sentia paralisado pelo medo, aprende que reavivar a coragem para seguir em frente é a melhor decisão a ser tomada.

Natal é a festa das famílias. De todas as famílias, sem exceção. É a declaração absoluta de amor que Deus faz para a humanidade.

Natal é a festa de todos. Ninguém deve se sentir excluído. Independente de crença, raça, religião ou nível social, todos somos convidados a nos encontrar na gruta de Belém, diante do Menino que desarma nosso orgulho, que transforma nosso coração, que nos dá a chance de aprimorar dentro de nós aquilo que temos de melhor para depois oferecê-lo a nosso irmão.

Um grande abraço, Feliz Natal!

Publicado na Revista “Casa e Campo” (suplemento do Jornal “Tribuna de Petrópolis”), edição de dezembro de 2018


Leituras bíblicas para esta solenidade

Primeira Leitura: Isaías 52,7-10

7Como são belos, andando sobre os montes, os pés de quem anuncia e prega a paz, de quem anuncia o bem e prega a salvação, e diz a Sião: “Reina teu Deus!” 8Ouve-se a voz de teus vigias, eles levantam a voz, estão exultantes de alegria, sabem que verão com os próprios olhos o Senhor voltar a Sião. 9Alegrai-vos e exultai ao mesmo tempo, ó ruínas de Jerusalém; o Senhor consolou seu povo e resgatou Jerusalém. 10O Senhor desnudou seu santo braço aos olhos de todas as nações; todos os confins da terra hão de ver a salvação que vem do nosso Deus. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: 97(98)

  1. Os confins do universo contemplaram / a salvação do nosso Deus.

Cantai ao Senhor Deus um canto novo, / porque ele fez prodígios! / Sua mão e o seu braço forte e santo / alcançaram-lhe a vitória. – R.

O Senhor fez conhecer a salvação, / e às nações, sua justiça; / recordou o seu amor sempre fiel / pela casa de Israel. – R.

Os confins do universo contemplaram / a salvação do nosso Deus. / Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, / alegrai-vos e exultai! – R.

Cantai salmos ao Senhor ao som da harpa / e da cítara suave! / Aclamai, com os clarins e as trombetas, / ao Senhor, o nosso rei! – R.

Segunda Leitura: Hebreus 1,1-6

1Muitas vezes e de muitos modos, falou Deus outrora aos nossos pais pelos profetas; 2nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo. 3Este é o esplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser. Ele sustenta o universo com o poder de sua palavra. Tendo feito a purificação dos pecados, ele sentou-se à direita da majestade divina, nas alturas. 4Ele foi colocado tanto acima dos anjos quanto o nome que ele herdou supera o nome deles. 5De fato, a qual dos anjos Deus disse alguma vez: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”? Ou ainda: “Eu serei para ele um Pai, e ele será para mim um filho”? 6Mas, quando faz entrar o Primogênito no mundo, Deus diz: “Todos os anjos devem adorá-lo!” – Palavra do Senhor.

A luz verdadeira

Evangelho: Jo 1, 1-18

* 1 No começo a Palavra já existia: a Palavra estava voltada para Deus, e a Palavra era Deus. 2 No começo ela estava voltada para Deus. 3 Tudo foi feito por meio dela, e, de tudo o que existe, nada foi feito sem ela. 4 Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. 5 Essa luz brilha nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la. 6 Apareceu um homem enviado por Deus, que se chamava João. 7 Ele veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele. 8 Ele não era a luz, mas apenas a testemunha da luz. 9 A luz verdadeira, aquela que ilumina todo homem, estava chegando ao mundo. 10 A Palavra estava no mundo, o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não a conheceu. 11 Ela veio para a sua casa, mas os seus não a receberam. 12 Ela, porém, deu o poder de se tornarem filhos de Deus a todos aqueles que a receberam, isto é, àqueles que acreditam no seu nome. 13 Estes não nasceram do sangue, nem do impulso da carne, nem do desejo do homem, mas nasceram de Deus. 14 E a Palavra se fez homem e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória: glória do Filho único do Pai, cheio de amor e fidelidade. 15 João dava testemunho dele, proclamando: «Este é aquele, a respeito de quem eu falei: aquele homem que vem depois de mim passou na minha frente, porque existia antes de mim.» 16 Porque da sua plenitude todos nós recebemos, e um amor que corresponde ao seu amor. 17 Porque a Lei foi dada por Moisés, mas o amor e a fidelidade vieram através de Jesus Cristo. 18 Ninguém jamais viu a Deus; quem nos revelou Deus foi o Filho único, que está junto ao Pai.


* 1,1-18: O Prólogo de João lembra a introdução do Gênesis (1,1-31; 2,1-4a). No começo, antes da criação, o Filho de Deus já existia em Deus, voltado para o Pai: estava em Deus, como a Expressão de Deus, eterna e invisível. O Filho é a Imagem do Pai, e o Pai se vê totalmente no Filho, ambos num eterno diálogo e mútua comunicação. A Palavra é a Sabedoria de Deus vislumbrada nas maravilhas do mundo e no desenrolar da história, de modo que, em todos os tempos, os homens sempre tiveram e têm algum conhecimento dela. Jesus, Palavra de Deus, é a luz que ilumina a consciência de todo homem. Mas, para onde nos conduziria essa luz? A Bíblia toda afirma que Deus é amor e fidelidade. Levado pelo seu imenso amor e fiel às suas promessas, Deus quis introduzir os homens onde jamais teriam pensado: partilhar a própria vida e felicidade de Deus. E para isso a Palavra se fez homem e veio à sua própria casa, neste seu mundo. A humanidade já não está condenada a caminhar cegamente, guiando-se por pequenas luzes no meio das trevas, por pequenas manifestações de Deus, mas pelo próprio Jesus, Manifestação total de Deus. Com efeito, Jesus Cristo, que é a luz, veio para tornar filhos de Deus todos os homens. Um só é o Filho, porém, todos podem tornar-se bem mais do que filhos adotivos: nasceram de Deus. Deus tinha dado uma lei por meio de Moisés. E todos os judeus achavam que essa lei era o maior presente de Deus. Na realidade, era bem mais o que Deus tinha reservado para todos. Porque Jesus, o Deus Filho, o verdadeiro e total Dom do Pai, é o único que pode falar de Deus Pai, porque comunica o amor e a fidelidade do Deus que dá a vida aos homens.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Comentários de Frei Ludovico Garmus


Natal do Senhor

Frei Ludovico Garmus, ofm

 Oração: “Ó Deus, que admiravelmente criastes o ser humano e mais admiravelmente restabelecestes a sua dignidade, dai-nos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade”.

Primeira leitura: Is 52,7-10

Os confins da terra contemplaram

a salvação que vem do nosso Deus.

Os reis de Israel e de Judá não conseguiram trazer a salvação ao povo. Em consequência, o reino de Israel foi destruído pelos assírios e boa parte de sua população, levada para o exílio, ao norte da Assíria (772 a.C.). O mesmo aconteceu entre 597 e 585 aC, com o reino de Judá, cuja população foi levada ao exílio pelo novo dominador, o rei de Babilônia. Os profetas Jeremias, Ezequiel e os autores deuteronomistas interpretam o dramático fim dos reinos de Israel e de Judá, como punição divina pelas infidelidades e crimes cometidos pelos governantes dos dois reinos. Passada uma geração no exílio, os discípulos do profeta Isaías, à luz da fé em Javé, Deus de Israel e de Judá, lêem os novos acontecimentos políticos de seu tempo: O domínio dos babilônios agonizava e um novo domínio surgia, o do Império persa. Estes profetas erguem então sua voz, em meio ao desânimo dos exilados, e levantam a bandeira da esperança. Agora, nosso Deus vai por um fim à dominação de Babilônia. Ciro, rei dos persas, será o instrumento nas mãos de Deus para punir os cruéis babilônios e executar o seu plano de salvação. Deus mesmo vai consolar o seu povo sofredor. Vai trazer seu povo de volta à sua terra e as ruínas de Jerusalém serão reconstruídas. Então, todas as nações saberão que “a salvação vem do nosso Deus”.

Salmo responsorial: Sl 97

Os confins do universo contemplaram

a salvação do nosso Deus.

  1. Segunda leitura: Hb 1,1-6

Deus falou-nos por meio de seu Filho.

Na revelação cristã, Deus não é um ser solitário. Deus é comunhão de três pessoas: Pai, filho e Espírito santo. Deus é Amor. É Amor que se comunica “dentro de si” mesmo. Deus é Amor que se expande para “fora” de si mesmo, enquanto cria o universo, cria todos os seres vivos de nosso planeta Terra. Cria o ser humano à sua imagem e semelhança, comunica-se com ele e o convida a entrar na comunhão de seu amor. No passado – diz o autor da Carta aos Hebreus – Deus se comunicava com seu povo por meio dos profetas. Por meio deles exortava o povo à fidelidade, à conversão e lhe anunciava a salvação. Agora, Deus se comunica conosco por meio de seu Filho, o herdeiro de todas as coisas, o criador do universo e o esplendor de sua glória. Pelo poder de sua palavra sustenta o universo e nos purifica dos pecados. Como filho de Deus, o cristão deve ser o reflexo de Cristo, que é “o esplendor da glória do Pai, a expressão do seu ser” (v. 3). Em Jesus Cristo cumpre-se a promessa feita a Davi: “Eu serei para ele um pai, e ele será para mim um filho” (2Sm 7,14). O Filho de Deus, ao assumir no seio da Virgem Maria a “carne” humana, tornou-se nosso irmão. O autor de Hebreus afirma isso muito bem: “Por isso, Jesus não se envergonha de chamá-los de irmãos” (2,11). Que maravilha! Deus que nos criou se fez nosso irmão! Vinde, adoremos!

 Aclamação ao Evangelho

Despontou o santo dia para nós:
Ó nações, vinde adorar o Senhor Deus,
porque hoje grande luz brilhou na terra!

  1. Evangelho: Jo 1,1-18

A Palavra se fez carne e habitou entre nós.

Deus é Amor, é comunicação. No passado Deus se comunicava com seu povo pelos profetas. Agora se comunica conosco pelo seu próprio Filho, a Palavra feita carne. A Palavra, no princípio, estava junto de Deus (v. 1-2), era o próprio Deus, que é amor-comunicação. Sendo Deus amor-comunicação, expande-se para “fora” de si mesmo como criador do universo. Por Jesus, a Palavra feita carne, tudo foi feito (v. 3) e agora são dadas a graça e a verdade (v. 17). Na Palavra estava a vida e a vida era a luz dos homens, luz que brilha em meio às trevas (v. 4-5).

Ela é a Luz que veio a este mundo. Há os que rejeitaram esta Luz (v. 5.9-11). Mas a nós que cremos e a recebemos, nos é dada a plenitude da graça (v. 16) e o poder de nos tornarmos filhos de Deus (v. 12). Tudo aconteceu porque a Palavra, o Filho de Deus, “se fez carne e habitou entre nós” (v. 14). Louvemos a nosso Deus que assumiu a fragilidade de nossa carne, para fazer em nós a sua morada!


Uma encantadora fragilidade

Frei Almir Guimarães

> “A humildade é a veste de Deus”, diz Isaac, o Sírio (se. VIII). “O encontro com Deus só se produz na humildade. É preciso que me entendas bem:  trata-se da humildade de Deus antes de tudo, porque como dizia São  Francisco de Assis, Deus é humildade e ele sempre se abaixa quando quer falar conosco” (Enzo Bianchi).

> A onipotência se manifesta em sua fragilidade. Tudo ficará muito claro lá, no final da trajetória: um jovem adulto sem apoios exteriores, um ser na plenitude de suas forças sendo ridicularizado, despojado de tudo, vilipendiado, amarrado, desrespeitado, insultado, abandonado. Remexendo-se de dor no alto da cruz, torturado pela sede, tentado pelo desânimo, sorvendo gole a gole o cálice da amargura:  eis um Deus frágil. A fragilidade do Menino das Palhas acompanhou a caminhada de nosso Mestre. Sem casa, sem pedra para reclinar a cabeça, peregrino sempre pedindo abrigo no coração das pessoas embora muitas portas  lhe foram se fechando. E ele sempre  andando buscando abrigo nos corações, sempre adiante. Tudo havia começado naquela noite antiga no Oriente, na noite despojada da gruta de Belém.

> Vivemos tempos novos. Tempos em que somos convidados a simplificar a vida. Tempos de facilitar a encarnação de Deus no humano.  Hoje, mais do que nunca, as pessoas serão bem sucedidas na perquirição de Deus na medida em que o buscarem nas coisas pequenas e não na tão decantada onipotência.  Ele está nos campos de concentração de ontem e de hoje, está nas chacinas que ceifam vidas de pessoas que amamos. No coração de tudo não está o Deus tonitruante, mas o frágil Menino das Palhas e o torturado do  Gólgota.  Natal, tempo de serena e profunda alegria. Um Menino nasceu para nós.  Um Deus que quer fazer com as batidas de seu coração batam com as batidas de nosso peito.  Um Deus que abdica da sua onipotência para estar perto da humanidade.

> “O Natal nos lembra que a presença de Deus  nem sempre corresponde às nossas expectativas, porque ele se apresenta onde menos o esperamos. Certamente devemos procurá-lo  na oração e no silêncio, na superação do egoísmo, na vida fiel e obediente  à sua vontade, mas Deus pode se apresentar a nós, quando quer  e como quer, inclusive no mais ordinário e comum da vida. Sabemos que podemos encontrá-lo em qualquer ser indefeso e fraco que precisa de nossa acolhida.  Ele pode estar nas lágrimas de uma criança ou na solidão de um ancião. No rosto de qualquer irmão podemos descobrir a presença desse Deus que quis encarnar-se no humano. Esta é a fé revolucionária do Natal, o escândalo maior do cristianismo, expresso de maneira lapidar  por Paulo: “Cristo, apesar de sua condição divina, não se apegou  à sua igualdade com Deus; pelo contrário despojou-se de sua categoria e assumiu a condição de servo, fazendo-se um entre tantos, apresentando-se como simples homem” (Fl 2, 6-7). O Deus cristão não é um deus desencarnado, longínquo e inacessível. É um Deus encarnado, próximo, vizinho. Um Deus que podemos tocar  de certa maneira  sempre que tocamos o humano”  ( Pagola, O caminho aberto por  Jesus,  Lucas)

> “Mais do que nenhuma outra festividade, Francisco de Assis celebrava com inefável  alegria o nascimento  do Menino Jesus e chamava festa das festas o dia em que  Deus, feito menino, se amamentava como todos os filhos dos homens.  Beijava mentalmente, com esfomeada avidez as imagens do Menino que o espirito lhe construía, e, dele entranhadamente compadecido, balbuciava palavras de ternura, à maneira das crianças. E o seu nome era para ele como um favo de mel na boca” (Tomás de Celano,  Vida Segunda, n. 199).


Deus entre nós

José Antonio Pagola

O evangelista João, ao falar-nos da encarnação do Filho de Deus, não nos diz nada de todo esse mundo tão familiar dos pastores, do presépio, dos anjos e do Menino Deus com Maria e José. João nos convida a penetrar nesse mistério a partir de outra profundidade.

Em Deus estava a Palavra, a Força de comunicar-se própria de Deus. Essa Palavra pôs em marcha toda a criação. Nós mesmos somos fruto dessa Palavra misteriosa. Essa Palavra agora se fez carne e habitou entre nós.

Tudo isto continua a parecer-nos muito belo para ser verdade: um Deus feito carne, identificado com nossa fraqueza, respirando nosso alento e sofrendo nossos problemas. Por isso continuamos buscando a Deus nos céus, quando Ele está aqui embaixo, na terra, bem perto de nós.

Uma das grandes contradições dos cristãos é confessar com entusiasmo a encarnação de Deus e esquecer depois que Cristo está no meio de nós. Deus desceu ao mais profundo de nossa existência, e a vida continua parecendo-nos vazia. Deus veio habitar no coração humano e sentimos um vazio interior insuportável. Deus veio reinar entre nós e parece estar totalmente ausente em nossas relações. Deus assumiu nossa carne e continuamos sem saber viver dignamente o carnal.

Também entre nós se cumprem as palavras de João: “Veio aos seus e os seus não o receberam”. Deus busca acolhida em nós, mas nossa cegueira fecha as portas a Deus. E, no entanto, é possível abrir os olhos e contemplar o Filho de Deus “cheio de graça e de verdade”. Quem crê, sempre vê algo. Vê a vida envolta em graça e em verdade. Tem em seus olhos uma luz para descobrir, no fundo da existência, a verdade e a graça desse Deus que plenifica tudo.

Estamos ainda cegos? Vemos só a nós mesmos? Nossa vida reflete só as pequenas preocupações que levamos em nosso coração? Deixemos que nosso coração se sinta penetrado por essa vida de Deus que também hoje quer habitar em nós.


Os pobres anunciam a graça de Deus

Pe. Johan Konings

Quando um paroquiano da catedral, piedoso, classe média, por acaso participa da celebração de Natal numa capela de periferia, fica impressionado porque aí a celebração é bem mais alegre do que na catedral. Por que será?

A 2ª leitura de hoje nos anuncia que se manifestou o carinho de Deus para com a humanidade. No evangelho, os mais pobres, os pastores do campo, são testemunhas disso. Constatam a verdade daquilo que o anjo lhes tinha anunciado. Contam-no a Maria, e esta guarda em seu coração as palavras dessa gente humilde. Eles, voltando, louvam e glorificam a Deus. O anúncio dos anjos faz dos humildes pastores – gente que dorme ao relento nas frias noites de invemo da Palestina – as primeiras testemunhas da realização do projeto de Deus: o projeto de mandar a nós quem nos liberte de verdade. Eles verificam o sinal que o anjo lhes deu: o menino é pobre como eles, está deitado numa manjedoura. Eles, os pobres, serão também os primeiros destinatários do grito de libertação de Jesus: “Felizes vós, os pobres … ” (Lc 6,20). Existe entre Jesus, Maria e os pastores uma solidariedade visceral, que até causa inveja a quem se julga importante.

Prefigura-se assim o que deverá ser a vida cristã. O “estilo cristão” é o estilo desses pobres – os pastores, os pais de Jesus – que o evangelho apresenta: simplicidade, honestidade, transparência, ternura; pois Deus mesmo mostrou sua ternura para conosco. Por outro lado, este estilo inclui também a consciência da missão de anunciar ao mundo a manifestação do carinho de Deus.

A semelhança com as comunidades eclesiais dos pobres é contundente. Enquanto nas igrejas dos bairros ricos cada iniciativa e cada celebração custam esforço enorme para conseguir alguma participação e para não ferir os privilégios e preferências tradicionais, nas capelas da periferia ressoa a alegria espontânea de quem se sabe agraciado por Deus. Parece necessário mesmo que a mensagem alegre do Natal passe pelos humildes, pois estes são especialistas em receber e partilhar.

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