Destaque, Notícias › 26/06/2020

Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo

A festa de dois homens completos

Frei Gustavo Medella

Pedro e Paulo. Eis que estamos diante de dois homens inteiros, pessoas realizadas. A maturidade e a plenitude que encontraram ao abraçar o seguimento de Jesus Cristo transparecem em afirmações apresentadas nas leituras da Solenidade que neste domingo celebramos. Ambos sentem, no profundo do coração, a suave sensação do dever cumprido, não por seus próprios méritos, mas tendo como referência o Senhor e tudo aquilo que Ele foi capaz de sofrer por amor.

Nos Atos dos Apóstolos, o humilde pescador a quem Jesus entregou a condução da Igreja, constata: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!” (At 12,11). A convicção de Pedro é fruto de um discernimento que ocorre no desenrolar da vida, de um espírito valente de adesão e entrega que se fortalece no decorrer da caminhada, tanto que, quando ainda preso, durante a ação do anjo, chegou a pensar que a ação de Deus em favor dele pudesse ser uma visão (Cf. At 12,9).

Na Carta que escreve a Timóteo, Paulo, o Apóstolo dos Gentios, contempla o passado com gratidão, vive o presente com paixão e lança-se ao futuro com esperança, tornando-se capaz de afirmar: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7).

Pedro e Paulo foram martirizados. Conservaram até o fim a fidelidade ao Amor pelo qual um dia se sentiram atraídos. Sobre a Solenidade de São Pedro e São Paulo, escreve Santos Agostinho: “Num só dia celebramos o martírio dos dois apóstolos. Na realidade, os dois eram como um só. Embora tenham sido martirizados em dias diferentes, deram o mesmo testemunho. Pedro foi à frente; Paulo o seguiu. Celebramos o dia festivo consagrado para nós pelo sangue dos apóstolos. Amemos a fé, a vida, os trabalhos, os sofrimentos, os testemunhos e a pregação destes dois apóstolos” (Dos Sermões de Santo Agostinho).


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: At 12,1-11

Naqueles dias, 1 o rei Herodes prendeu alguns membros da Igreja, para torturá-los. 2 Mandou matar à espada Tiago, irmão de João. 3 E, vendo que isso agradava aos judeus, mandou também prender a Pedro. Eram os dias dos Pães ázimos. 4 Depois de prender Pedro, Herodes colocou-o na prisão, guardado por quatro grupos de soldados, com quatro soldados cada um. Herodes tinha a intenção de apresentá-lo ao povo, depois da festa da Páscoa.

5 Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele. 6 Herodes estava para apresentá-lo. Naquela mesma noite, Pedro dormia entre dois soldados, preso com duas correntes; e os guardas vigiavam a porta da prisão.

7 Eis que apareceu o anjo do Senhor e uma luz iluminou a cela. O anjo tocou o ombro de Pedro, acordou-o e disse: “Levanta-te depressa!” As correntes caíram-lhe das mãos. 8 O anjo continuou: “Coloca o cinto e calça tuas sandálias!” Pedro obedeceu e o anjo lhe disse: “Põe tua capa e vem comigo!”

9 Pedro acompanhou-o, e não sabia que era realidade o que estava acontecendo por meio do anjo, pois pensava que aquilo era uma visão. 10 Depois de passarem pela primeira e segunda guarda, chegaram ao portão de ferro que dava para a cidade. O portão abriu-se sozinho. Eles saíram, caminharam por uma rua e logo depois o anjo o deixou. 11 Então Pedro caiu em si e disse: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de tudo o que o povo judeu esperava!”


Salmo Responsorial: Sl 33

— De todos os temores/ me livrou o Senhor Deus.

— De todos os temores/ me livrou o Senhor Deus.

— Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo,/ seu louvor estará sempre em minha boca./ Minha alma se gloria no Senhor;/ que ouçam os humildes e se alegrem!

— Comigo engrandecei ao Senhor Deus,/ exaltemos todos juntos o seu nome!/ Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu,/ e de todos os temores me livrou.

— Contemplai a sua face e alegrai-vos,/ e vosso rosto não se cubra de vergonha!/ Este infeliz gritou a Deus, e foi ouvido,/ e o Senhor o libertou de toda angústia.

— O anjo do Senhor vem acampar/ ao redor dos que o temem, e os salva./ Provai e vede quão suave é o Senhor!/ Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!


Segunda Leitura: 2Tm 4,6-8.17-18

Caríssimo: 6 Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. 7 Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. 8 Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que esperam com amor a sua manifestação gloriosa.

17 Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças, ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão. 18 O Senhor me libertará de todo mal e me salvará para o seu Reino celeste. A ele a glória, pelos séculos dos séculos! Amém.


Evangelho: Mt 16,13-19

Jesus é o Messias

-* 13 Jesus chegou à região de Cesareia de Filipe, e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» 14 Eles responderam: «Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas.» 15 Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» 16 Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.» 17 Jesus disse: «Você é feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que lhe revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. 18 Por isso eu lhe digo: você é Pedro, e sobre essa pedra construirei a minha Igreja, e o poder da morte nunca poderá vencê-la. 19 Eu lhe darei as chaves do Reino do Céu, e o que você ligar na terra será ligado no céu, e o que você desligar na terra será desligado no céu.»

* 13-23: Cf. nota em Mc 8,27-33. Pedro é estabelecido como o fundamento da comunidade que Jesus está organizando e que deverá continuar no futuro. Jesus concede a Pedro o exercício da autoridade sobre essa comunidade, autoridade de ensinar e de excluir ou introduzir os homens nela. Para que Pedro possa exercer tal função, a condição fundamental é ele admitir que Jesus não é messias triunfalista e nacionalista, mas o Messias que sofrerá e morrerá na mão das autoridades do seu tempo. Caso contrário, ele deixa de ser Pedro para ser Satanás. Pedro será verdadeiro chefe, se estiver convicto de que os princípios que regem a comunidade de Jesus são totalmente diferentes daqueles em que se baseiam as autoridades religiosas do seu tempo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


 

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

São Pedro e São Paulo

 Oração: “Ó Deus, que hoje nos concedeis a alegria de festejar São Pedro e São Paulo, concedei à vossa Igreja observar em tudo os ensinamentos destes Apóstolos que nos deram as primícias fé”.

  1. Primeira leitura: At 12,1-11

Agora sei que o Senhor enviou o seu anjo

para me libertar do poder de Herodes.

 Em At 1,8, ao se despedir de seus discípulos antes da Ascensão, Jesus traça-lhes o roteiro para a futura missão: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria, até os confins do mundo”. Durante sua vida pública e depois da ressurreição Jesus preparou seus discípulos para esta missão. Escolheu doze, entre os discípulos, e os chamou de apóstolos. Entre os escolhidos destaca-se a figura de Pedro, como líder deles. Depois da última ceia anuncia que todos o abandonariam, até mesmo Pedro que lhe jura fidelidade, embora Jesus lhe dissesse que, naquela noite, haveria de negá-lo três vezes… Mas Jesus rezou por Pedro: “… eu orei por ti, para que tua fé não falhe; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). De fato, quando Jesus era condenado pelo Sinédrio Pedro negou três vezes que o conhecia. Pedro, porém, logo se arrependeu e “chorou amargamente”. E Jesus, após sua ressurreição, lhe confirma a missão, antes prometida (evangelho), de apascentar seu rebanho: “Apascenta minhas ovelhas, apascenta meus cordeiros”.

O texto que ouvimos, fecha a 1ª parte dos Atos, dedicada mais à missão de Pedro como testemunha de Jesus Cristo. Logo depois da ascensão de Jesus ao céu e da vinda do Espírito Santo, Pedro deu testemunho de Cristo em Jerusalém, na Judeia e na Samaria. Agora está preso e Herodes Agripa planeja executá-lo, como havia feito com Tiago, irmão de João. Mas é libertado milagrosamente da prisão por um anjo, para continuar testemunhando a fé em Cristo e anunciando seu evangelho. É libertado porque “enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente por ele” (At 12,5). Pedro foi libertado das correntes pois a palavra do Evangelho não podia estar acorrentada. Havia ainda uma longa missão a cumprir. Sabemos através de Paulo que Pedro esteve pregando em Antioquia da Síria e em Corinto. Segundo a tradição, Pedro e Paulo sofreram o martírio em Roma durante a perseguição aos cristãos promovida pelo Imperador Nero.

O Papa Francisco pede que rezemos sempre por ele, a fim de que o Espírito Santo ilumine e possa cumprir fielmente sua missão de confirmar os fiéis na fé cristã.

Salmo responsorial: Sl 31

De todos os temores me livrou o Senhor Deus.

  1. Segunda leitura: 2Tm 4,6-8.17-18

Agora está reservada para mim a coroa da justiça.

São Paulo, nas suas cartas, gosta de usar a linguagem do esporte e da guerra, ao falar de sua ação missionária e da vida cristã. Exemplos não faltam. Hoje ele nos fala que “deu tudo de si” para cumprir sua missão e por isso aguarda a recompensa que lhe está reservada. Paulo está preso. Tem presente a perspectiva do martírio que se aproxima e faz uma avaliação de sua vida missionária. Sua vida foi guiada pela fé, pela esperança e pela caridade (amor). A vida cristã é também um combate, animado pela esperança de vitória, pela fidelidade e amor a Cristo e aos irmãos de fé. É preciso “amor à camisa” (Jesus Cristo), amor ao time (a Igreja). É preciso “suar a camisa” e esperar a recompensa, a coroa da justiça, para que possamos dizer como Paulo: “missão cumprida”.

Aclamação ao Evangelho

Tu és Pedro e sobre esta pedra eu irei construir minha Igreja;

            E as portas do inferno não irão derrotá-la.

  1. Evangelho: Mt 16,13-19

Tu és Pedro e eu te darei as chaves do Reino dos Céus.

 Pedro, como outros discípulos, largou tudo para seguir a Jesus. Tornou-se um entusiasta por Jesus e se destacou pela sua liderança entre os apóstolos. Quando Jesus lhe pergunta: “Quem dizeis que eu sou?” É Pedro que toma a iniciativa e diz: “Tu és o Messias (Cristo), o Filho do Deus vivo”. Os outros discípulos haviam trazido as opiniões colhidas entre o povo: Jesus seria um novo João Batista, ou Elias, ou Jeremias, ou mesmo, algum dos antigos profetas. Pedro deu a resposta mais precisa. Mas não era uma simples opinião pessoal (carne e sangue). Era o próprio Pai do céu que revelou isso a Pedro. Esta confissão de fé tornou-se a pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo, como lhe prometeu Jesus: “Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. Nesta Igreja de Cristo Pedro recebe as chaves do Reino dos Céus (= Deus); isto é, o poder de “ligar a desligar” (Mt 16,19) e de apascentar as ovelhas e os cordeiros (Jo 21,15-17). Exige dele apenas que o ame e seja fiel à sua missão. Pedro, em nome de Jesus, conduzirá a Igreja de Cristo, mas quem vai construí-la é o próprio Jesus. Pedro é um homem como nós, frágil, humano e pecador; mas foi escolhido por Jesus para guiar a sua Igreja. Jura que será sempre fiel a Jesus, mas o nega três vezes. Jesus o conhecia e mesmo assim o escolheu e prometeu rezar por ele para que confirmasse seus irmãos na fé. Eis a missão de Pedro e dos Papas, homens frágeis e pecadores como Pedro. Rezemos sempre pelo Papa Francisco, como ele próprio nos pediu. Que o Espírito Santo ilumine nosso Papa, a fim de que nos confirme na fé e possa conduzir, com segurança, a Igreja na construção do Reino de Deus.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.


Pedro pecador, apóstolo da esperança

Frei Clarêncio Neotti

Pedro representa a pessoa humana, pecadora e santa, ao mesmo tempo, com uma sede incontida de Deus e capaz de pesadas traições. Cada um de nós tem essa experiência. O Apóstolo Paulo expressa isso em uma de suas cartas: “Em mim mora o pecado. Não faço o bem que quero e sim o mal que detesto” (Rm 7,17-19). As fraquezas e grandezas de Pedro podem servir-nos de consolo e estímulo. Deus não fundou a Igreja sobre anjos, mas sobre uma pessoa de carne pecadora
e espírito possuído de grande amor e esperança.

Mesmo depois de Pentecostes, Pedro mostrou-se fraco e inconstante (Gl 2,ll). Mas o amor lhe era maior que o pecado: “O amor cobre a multidão dos pecados” (lPd 4,8). A esperança é superior ao desânimo. E foi pelo caminho da esperança
que andou, contrariamente a Judas, que preferiu o desespero. Por três vezes na primeira Carta, Pedro refere-se à esperança: “Nosso Senhor Jesus Cristo, em sua grande misericórdia, regenerou-nos para uma viva esperança” (1,3); “Ponho toda a esperança na graça” (1,13); “Nossa esperança esteja em Deus” (1,21). Judas e Pedro pecaram gravemente. A um o desespero levou à forca (Mt 27,5). A outro a esperança levou à “glória imarcescível do céu” (lPd 1,4).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.


O apóstolo Pedro e o Papa Francisco

Frei Almir Guimarães

Estamos a comemorar a festa solene dos santos apóstolos Pedro e Paulo. Uma vez mais, não muito longe de 29 de junho, a Igreja coloca diante de nossos olhos esse Pedro original e apaixonado e esse enérgico e vigoroso Paulo. Fixamos hoje nossa atenção em Simão Pedro.

Simão, pescador, homem de reações espontâneas e vivas. Foi discípulo de Jesus desde a primeira hora. Andou se encantando com o Mestre. Ouviu suas palavras, saboreou suas parábolas, caminhou com ele pelas estradas. Tinha tudo para ser o responsável pelo grupo que, depois da ressurreição do Mestre. Homem feito de entusiasmo e de arroubos. Quer tirar da espada para matar os que não mostram afeto por seu Mestre. Ao mesmo tempo é frágil. Refaz em sua vida a história de tantos homens frágeis: nega o mestre. Depois arrepende-se e chora amargamente na noite da paixão do Senhor. Converte-se. Volta e chora seu pecado e do Ressuscitado recebe a missão de confirmar a fé dos irmãos. Ele confirma a fé dos irmãos.

Olhamos sempre com muito carinho e respeito para a figura do Bispo de Roma, o Papa Francisco, sucessor de Pedro e sinal de unidade da Igreja. Acompanhamos suas celebrações e ouvimos suas palavras nesse tempo da pandemia. Sua figura solitária na Basílica de São Pedro. Nesta festa do Apóstolo Pedro queremos transcrever algumas palavras fortes de nosso Papa Francisco:

♦ “A primeira motivação para evangelizar é o amor que recebemos de Jesus, aquela experiência de sermos salvos por ele, que nos impele a amá-lo cada vez mais. Um amor que não sentisse necessidade de falar da pessoa amada, de apresenta-la, de torna-la conhecida, que amor seria? Se não sentimos o desejo intenso de comunicar Jesus, precisamos nos deter em oração para lhe pedir que volte a cativar-nos (…). A melhor motivação para se decidir a comunicar o Evangelho é contempla-lo com amor, é deter-se nas suas páginas e lê-lo com o coração. Se o abordamos dessa maneira, sua beleza deslumbra-nos, volta a nos cativar constantemente. Por isso, é urgente recuperar o espírito contemplativo que nos permita redescobrir, a cada dia, que somos depositários de um bem que humaniza e ajuda a levar uma vida nova. Não há nada melhor para transmitir aos outros” (A alegria do Evangelho, n. 264).

♦ “O amor de Jesus Cristo dura para sempre, jamais terá fim, porque é a própria vida de Deus. Este amor vence o pecado e dá forças para voltar e levantar-se e começar, porque, com o perdão, o coração se renova e rejuvenesce. Todos sabemos disso: nosso Pai nos espera sempre, não apenas nos deixa a porta aberta, mas também fica nos esperando. Ele toma parte nessa espera pelos filhos. Esse pai não se cansa de amar o outro filho que, inclusive permanecendo sempre em casa com ele, não é participe de sua misericórdia, de sua compaixão ( Homilia da celebração do rito para a reconciliação – Basílica do Vaticano, 28 de março de 2014).

♦ “A arquitrave que sustenta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deveria estar em envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. A Igreja vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia. Talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar o caminho da misericórdia. Por um lado, a tentação de pretender sempre e só a justiça faz esquecer que esta é apenas o primeiro passo, necessário e indispensável, mas a Igreja precisa ir além e alcançar meta mais alta e mais significativa. Por outro lado, é triste ver como a experiência do perdão na nossa cultura vai rareando cada vez mais. Em certos momentos, até a própria palavra parece desaparecer. Todavia, sem o testemunho do perdão resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se se vivesse num deserto desolador. Chegou, de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo do regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades de nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança” (O rosto da misericórdia, n.10).

♦ “Convido às comunidades cristãs a reconhecerem que é um bem para elas mesmas acompanhar o caminho de amor dos noivos. Como justamente disseram os bispos da Itália, aqueles que se casam são, para as comunidades cristãs, “um recurso precioso, porque, esforçando-se sinceramente por crescer no amor e no dom recíproco, podem contribuir para renovar o próprio tecido de todo o corpo eclesial: a forma particular de amizade que vivem pode tornar-se contagiosa, fazendo crescer na amizade e na fraternidade, a comunidade cristã de que fazem parte”. Há várias maneiras legítimas de organizar a preparação próxima para o matrimônio e cada igreja particular discernirá o que for melhor, procurando uma formação adequada que, ao mesmo tempo, não afaste os jovens do sacramento. Não se trata de lhes administrar o Catecismo inteiro nem de os saturar com demasiados temas, sendo válido também aqui que não é muito saber que enche e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear interiormente as coisas. Interessa mais a qualidade do que a quantidade, devendo-se dar prioridade – juntamente com um renovado anúncio do querigma – àqueles conteúdos que, comunicados de forma atraente e cordial, os ajudem a comprometer-se em um percurso de vida toda “com ânimo grande e liberalidade”. Trata-se de uma espécie de “iniciação” ao sacramento do matrimônio, que lhes forneça os elementos necessários para poderem recebe-los com as melhores disposições e iniciar com uma certa solidez a vida familiar” (A alegria do amor. Sobre o amor na família, n. 207).

♦ “Vejo com clareza que aquilo que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de tudo o resto (…). Como estamos a tratar o Povo de Deus? Sonho com uma Igreja mãe e pastora. Os ministros da Igreja devem ser misericordiosos, tomar a seu cargo as pessoas, acompanhando-as como o bom samaritano, que lava, limpa, levanta o seu próximo. Isto é o Evangelho puro. Deus é maior que o pecado. As reformas organizativas e estruturais são secundárias, isto é, vêm depois. A primeira reforma deve ser a da atitude. Os ministros do Evangelho devem ser capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão sem se perder. O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos do Estado. Os bispos, em particular, devem suportar com paciência os passos de Deus no seu povo de tal modo que ninguém fique para trás mas também para acompanhar o rebanho que tem o faro para encontrar novos caminhos” (Entrevista do Papa Francisco concedida às revistas da Companhia de Jesus, in Brotéria, agosto-setembro 2013, p. 127-128).

♦ Aos religiosos: “Não vos fecheis em vós mesmos, não vos deixeis asfixiar por pequenas brigas de casa, não fiqueis prisioneiros de vossos problemas. Estes resolver-se-ão se sairdes para ajudar os outros a resolverem os seus problemas anunciando-lhes a Boa Nova. Encontrareis a vida dando a vida, a esperança dando esperança, o amor amando. De vós espero gestos concretos de acolhimento dos refugiados, de solidariedade com os pobres, de criatividade na catequese, no anúncio do Evangelho, na iniciação à vida de oração” (Às pessoas consagradas).


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.


Nossa imagem de Jesus

José Antonio Pagola

A pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” continua pedindo ainda uma resposta aos crentes do nosso tempo. Nem todos temos a mesma imagem de Jesus. E isto não só pelo caráter inesgotável de sua personalidade, mas, sobretudo, porque cada um de nós vai elaborando sua imagem de Jesus a partir de seus interesses e preocupações, condicionado por sua psicologia pessoal e pelo meio social ao qual pertence, e marcado pela formação religiosa que recebeu.

E, não obstante, a imagem que nos fazemos de Cristo tem importância decisiva para nossa vida, pois condiciona nossa maneira de entender e viver a fé. Uma imagem empobrecida, unilateral, parcial ou falsa de Jesus nos conduzirá a uma vivência empobrecida, unilateral, parcial ou falsa da fé. Daí a importância de evitar possíveis deformações de nossa visão de Jesus e de purificar nossa adesão a Ele.

Por outro lado, é pura ilusão pensar que alguém crê em Jesus Cristo porque “crê” em um dogma, ou porque está disposto a crer “no que a Santa Madre Igreja crê”. Na realidade, cada crente crê no que ele crê, isto é, no que pessoalmente vai descobrindo em seu seguimento a Jesus Cristo, ainda que, naturalmente, o faça dentro da comunidade cristã.

Infelizmente, não são poucos os cristãos que entendem e vivem sua religião de tal maneira que, provavelmente, nunca poderão ter uma experiência um pouco viva do que é encontrar-se pessoalmente com Cristo.

Já numa época bem cedo de sua vida se fizeram uma ideia infantil de Jesus, quando talvez ainda não se tinham feito, com suficiente lucidez, as questões e perguntas que Cristo pode responder.

Mais tarde não voltaram mais a repensar sua fé em Jesus Cristo, ou porque a consideram algo trivial e sem importância para sua vida, ou porque não se atrevem a examiná-la com seriedade e rigor, ou ainda porque se contentam em conservá-la de maneira indiferente e apática, sem eco algum em seu ser.

Infelizmente, não suspeitam o que Jesus poderia ser para eles. Marcel Légaut escrevia esta frase dura, mas talvez bem real: “Esses cristãos ignoram quem é Jesus e estão condenados por sua própria religião a não descobri-lo jamais”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.


O Papa, o missionário e a comunidade

Pe. Johan Konings

Popularmente, a festa de hoje é chamada o Dia do Papa, sucessor de Pedro. Mas não podemos esquecer que ao lado de Pedro é celebrado também Paulo, o Apóstolo, ou seja, missionário, por excelência. No evangelho, o apóstolo Simão responde pela fé de seus irmãos. Por isso, Jesus lhe dá o nome de Pedro. Este nome é uma vocação: Simão deve ser a “pedra” (rocha) que deve dar solidez à comunidade de Jesus (cf. Lc 22,32). Esta “nomeação”vai acompanhada de uma promessa: as “portas” (cidade, reino) do inferno não poderão nada contra a Igreja, que é uma realização do reino “dos Céus” (= de Deus). A 1ª leitura ilustra essa promessa: Pedro é libertado da prisão pelo anjo do Senhor. Pedro aparece, assim, como o fundamento institucional da Igreja.

Paulo aparece mais na qualidade de fundador carismático. Sua vocação se dá na visão de Cristo no caminho de Damasco: de perseguidor, ele se transforma em apóstolo e realiza, mais do que os outros apóstolos inclusive, a missão que Cristo lhes deixou, de serem suas testemunhas até os extremos da terra (At 1,8). Apóstolo dos pagãos, Paulo torna realidade a universalidade da Igreja, da qual Pedro é o guardião. A 2ª leitura é o resumo de sua vida de plena dedicação à evangelização entre os pagãos, nas circunstâncias mais difíceis: a palavra tinha que ser ouvida por todas as nações (v. 17). Não esconder a luz de Cristo para ninguém! O mundo em que Paulo se movimentava estava dividido entre a religiosidade rígida dos judeus farisaicos e o mundo pagão, cambaleando entre a dissolução moral e o fanatismo religioso. Neste contexto, o apóstolo anunciou o Cristo Crucificado como sendo a salvação: loucura para os gregos, escândalo para os judeus, mas alegria verdadeira para quem nele crê. Missão difícil. No fim de sua vida, Paulo pode dizer que “combateu o bom combate e conservou a fé/fidelidade”, a sua e a dos fiéis que ele ganhou. Como Cristo – o bom pastor – não deixa as ovelhas se perderem, assim também o apóstolo – o enviado de Cristo – conserva-lhes a fidelidade.

Pedro e Paulo representam duas dimensões da vocação apostólica, diferentes mas complementares. As duas foram necessárias, para que pudéssemos comemorar hoje os fundadores da Igreja universal. Esta complementariedade dos carismas de Pedro e Paulo continua atual na Igreja hoje: a responsabilidade institucional e a criatividade missionária. Pode até provocar tensões, por exemplo, uma teologia “romana”versus uma teologia latino-americana. Mas é uma tensão fecunda. Hoje, sabemos que o pastoreio dos fiéis – a pastoral – não é monopólio dos “pastores constituídos”como tais, a hierarquia. Todos fiéis são um pouco pastores uns para com os outros. Devemos conservar a fidelidade a Cristo – a nossa e a dos nossos irmãos – na solidariedade do “bom combate”.

E qual será, hoje, o bom combate? Como no tempo de Pedro e Paulo, uma luta pela justiça e a verdade em meio a abusos, contradições e deformações. Por um lado, a exploração desavergonhada, que até se serve dos símbolos da nossa religião; por outro, a tentação de largar tudo e de dizer que a religião é um obstáculo para a libertação. Nossa luta é, precisamente, assumir a libertação em nome de Jesus, sendo fiéis a ele; pois, na sua morte, ele realizou a solidariedade mais radical que podemos imaginar.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com