Destaque, Notícias › 14/12/2018

Terceiro Domingo do Advento

O combustível que não deixa o coração enguiçar

Frei Gustavo Medella

De vez quando a polícia fecha um posto de combustível porque vendia gasolina, álcool ou diesel adulterado. Quando um destes combustíveis entra no tanque do veículo, quase sempre o problema não é notado na hora. O carro liga, dá a partida e arranca com certa normalidade. É no uso prolongado que os defeitos começam a aparecer. Falta força para vencer aquela subida mais acentuada, a aceleração não responde conforme o esperado, o motor passa a engasgar até que o veículo morre, para de funcionar e não religa mais. Aí, só esvaziando o tanque para abastecer com combustível do bom.

Na primeira leitura deste 3º Domingo do Advento, o Profeta Sofonias afirma que Deus se move por amor (Cf, Sf 3,17b). Desejando repartir-Se com a humanidade, o Senhor espera que seus filhos e filhas também sejam movidos pelo mesmo combustível que O faz sair de si para vir ao encontro dos seus. O tanque do coração humano está preparado para receber a dose suficiente deste combustível que dá força e segurança para a pessoa percorrer as estradas da vida. Deus o oferece gratuitamente e ele não está sujeito à oscilação do dólar ou a outras variáveis econômicas.

No entanto, no uso de sua liberdade, que também é Dom de Deus, nem sempre o ser humano sabe onde deve buscar este combustível vital e acaba enganando-se nos primeiros postos de esquina que aparecem à sua frente. Busca abastecer-se na ilusão do acúmulo de bens materiais, na falsa segurança do status social, nos relacionamentos superficiais baseados em interesses mesquinhos. Por um certo tempo a vida anda – e até parece andar bem. No entanto, com o passar do tempo, diante das crises e dificuldades, os defeitos começam a aparecer. O combustível adulterado do coração mostra que não é capaz de levar muito longe quem por ele se move.

O desafio deste 3º Domingo, chamado de Domingo da Alegria é, portanto, que busquemos sempre abastecer o nosso coração de um combustível bom e confiável, o amor que Deus generosamente dispõe para nós. Este sim é capaz de nos mover em direção a uma alegria duradoura, forte o bastante para superar os desafios do caminho. É o combustível que nos tira do isolamento e nos conduz à comunhão, que nos desloca da ambição em direção à partilha generosa, que nos leva ao encontro revigorante com o Menino de Belém cuja vinda se aproxima.


Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Sofonias 3,14-18

14Canta de alegria, cidade de Sião; rejubila, povo de Israel! Alegra-te e exulta de todo o coração, cidade de Jerusalém! 15O Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos. O rei de Israel é o Senhor, ele está no meio de ti, nunca mais temerás o mal. 16Naquele dia se dirá a Jerusalém: “Não temas, Sião; não te deixes levar pelo desânimo! 17O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, o valente guerreiro que te salva; ele exultará de alegria por ti, movido por amor; exultará por ti, entre louvores, 18como nos dias de festa”. – Palavra do Senhor.

Salmo Responsorial: Is 12

R. Exultai, cantando alegres, habitantes de Sião, / porque é grande em vosso meio o Deus santo de Israel!

Eis o Deus, meu salvador, eu confio e nada temo; / o Senhor é minha força, meu louvor e salvação. / Com alegria bebereis no manancial da salvação / e direis naquele dia: “Dai louvores ao Senhor. – R.
Invocai seu santo nome, anunciai suas maravilhas, / entre os povos proclamai que seu nome é o mais sublime. – R.
Louvai, cantando, ao nosso Deus, que fez prodígios e portentos, / publicai em toda a terra suas grandes maravilhas! / Exultai, cantando alegres, habitantes de Sião, / porque é grande em vosso meio o Deus santo de Israel!” – R.

Segunda Leitura: Filipenses 4,4-7

– Irmãos, 4 alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos. 5 Que a vossa bondade seja conhecida de todos os homens! O Senhor está próximo! 6 Não vos inquieteis com coisa alguma, mas apresentai as vossas necessidades a Deus, em orações e súplicas, acompanhadas de ação de graças. 7 E a paz de Deus, que ultrapassa todo o entendimento, guardará os vossos corações e pensamento em Cristo Jesus. – Palavra do Senhor.

“Não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele”

Evangelho: Lc 3,10-18

10 As multidões perguntavam a João: «O que é que devemos fazer?» 11 Ele respondia: «Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem. E quem tiver comida, faça a mesma coisa.» 12 Alguns cobradores de impostos também foram para ser batizados, e perguntaram: «Mestre, o que devemos fazer?» 13 João respondeu: «Não cobrem nada além da taxa estabelecida.» 14 Alguns soldados também perguntaram: «E nós, o que devemos fazer?» Ele respondeu: «Não maltratem ninguém; não façam acusações falsas, e fiquem contentes com o salário de vocês.»

15 O povo estava esperando o Messias. E todos perguntavam a si mesmos se João não seria o Messias. 16 Por isso, João declarou a todos: «Eu batizo vocês com água. Mas vai chegar alguém mais forte do que eu. E eu não sou digno nem sequer de desamarrar a correia das sandálias dele. Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo. 17 Ele terá na mão uma pá; vai limpar sua eira, e recolher o trigo no seu celeiro; mas a palha ele vai queimar no fogo que não se apaga.»

18 João anunciava a Boa Notícia ao povo de muitos outros modos.

* 3,1-20: A datação histórica (vv. 1-2) mostra que Lucas coloca os reis terrestres e as autoridades religiosas em contraste com a soberania e a autoridade de Jesus: o movimento profundo da história não se desenvolve no plano das aparências da história oficial. É Jesus quem realiza o destino do mundo, dando à história o verdadeiro sentido. João Batista convida todos à mudança radical de vida, porque a nova história vai transformar pela raiz as relações entre os homens. É o tempo do julgamento, e nada vale ter fé teórica, pois o julgamento se baseia sobre as opções e atitudes concretas que cada um assume.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Comentários de Frei Ludovico Garmus


3º Domingo do Advento, ano C2018

 Frei Ludovico Garmus, OFM

Oração: “Ó Deus de bondade, que vedes vosso povo esperando fervoroso o natal do Senhor, dai chegarmos às alegrias da Salvação e celebrá-las sempre com intenso júbilo na solene liturgia”.

  1. Primeira leitura: Sf 3,14-18a

O Senhor, teu Deus, exultará por ti, entre louvores.

A primeira leitura é tirada do profeta Sofonias, que profetizou durante o início do reinado de Josias (640-609 a.C.). Durante seu reinado, Judá consegue livrar-se do domínio da Assíria, enfraquecida por problemas internos. O profeta convoca Jerusalém, símbolo do povo, a alegrar-se pela salvação que Deus lhe trouxe, libertando Israel do jugo assírio. Logo no primeiro verso percebe-se o tom alegre, dominante do texto: canta de alegria, rejubila, alegra-te e exulta. O motivo desta alegria é duplo. Por um lado, “o Senhor revogou a sentença contra ti, afastou teus inimigos”. O rei da Assíria deixou de oprimir o povo de Israel; o povo não precisa mais temê-lo. Por outro lado, pode confiar sempre no Senhor, o rei de Israel. Deus não é um rei distante, que domina com exércitos, mas é um rei salvador, que traz segurança porque está presente “no meio de ti” (v. 15.17). Ele não só causa alegria a Jerusalém e a seu povo. O mesmo Senhor se alegra com Jerusalém, como um noivo movido por amor a Israel, sua noiva. E ela lhe responde jubilosa, com cantos de louvor e gratidão.

Salmo responsorial: Is 12

Exultai contando alegres, habitantes de Sião,

porque é grande em vosso meio o Deus Santo de Israel!

  1. Segunda leitura: Fl 4,4-7

O Senhor está próximo.

Em Filipos, Paulo fundou a primeira comunidade cristã na Europa. Ali, num lugar fora dos muros da cidade, reunia-se em oração um grupo de mulheres de religião judaica (At 16,6-15). Junto com Paulo e Silas, Paulo foi bem acolhido por essa comunidade, que recebeu com grande alegria o anúncio da boa-nova de Jesus Cristo. Esta mesma alegria torna-se visível na exortação que Paul dirige aos cristãos de Filipos. É uma alegria que brota da fé na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Não foram apenas as palavras dos apóstolos que contagiaram os filipenses, mas, sobretudo, o testemunho de amor e de alegria dado por eles. Por isso, Paulo escreve: “Alegrai-vos sempre no Senhor”! E convida os cristãos a testemunharem o amor e a bondade do Senhor diante de todas as pessoas, porque “o Senhor está próximo” (v. 5). Paulo pensava que a segunda vinda do Senhor era iminente (2Ts 2,2). No entanto, os cristãos não deveriam inquietar-se com isso e, sim, apresentar suas necessidades a Deus nas orações, nas súplicas e na ação de graças. – Quem coloca o foco de sua vida em Deus estará preparado para o encontro com o Senhor que vem.

Aclamação ao Evangelho

O Espírito do Senhor sobre mim fez a sua unção;

            enviou-me aos empobrecidos a fazer feliz proclamação.

  1. Evangelho: Lc 3,10-18

O que devemos fazer?

Na liturgia

O 3º Domingo do Advento é conhecido na liturgia como o domingo da alegria (em latim, Gaudete), por causa da proximidade do Nascimento de Jesus Cristo. Nesse domingo acende-se a terceira vela da coroa, cor rosa. Duas festas marianas já anteciparam o domingo da alegria do Natal: A festa da Imaculada Conceição de Maria (08 de dezembro) – a mulher que esmaga a cabeça da serpente (Gn 3,15) com seu Filho Jesus, o Salvador – e a festa de Nossa Senhora de Guadalupe (12 de dezembro), vestida como mulher indígena grávida.

Nesse contesto de preparação para o Natal, a liturgia nos apresente agora a figura de João Batista, o precursor de Jesus na vida pública. Ele aponta a futura vida pública de Jesus e nos conclama no presente: “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas estradas” (Lc 3,4). Preparar o caminho do Senhor não é apenas vestir-se bem para acolher uma visita importante. Na língua hebraica e aramaica, caminho do Senhor indica a conduta correta que leva a observar os mandamentos de Deus, no relacionamento em família e na sociedade. João anunciava o perdão dos pecados, condicionando-o à conversão das pessoas. Significa abandonar os caminhos injustos e perversos no relacionamento humano e adotar o caminho da justiça e da solidariedade com os mais pobres. É mudar de vida e adotar uma nova conduta. As pessoas que vinham escutar João Batista e batizar-se por ele, sem dúvida, entendiam sua mensagem. As multidões lhe perguntavam: “Que devemos fazer”? E João apontava o caminho do amor solidário com os pobres: “Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo”! São recomendações válidas para todos nós.

Também grupos que detinham certo poder diante do povo se questionam diante de João. Os cobradores de impostos lhe perguntavam: “Mestre, que devemos fazer”? E João recomendava que não cobrassem mais do que o estabelecido (Zaqueu: Lc 19,1-10). Aos soldados que perguntavam “o que devemos fazer”? João recomendava não usar a força para cobrar propina ou fazer acusações falsas, mas contentar-se com seu salário.

Muitos se perguntavam se João não seria o Messias esperado. E João deixa claro que não era o Messias. Ele batizava apenas com água, em sinal do perdão dos pecados. Depois deve viria alguém mais forte do que ele, isto é, Jesus de Nazaré (Lc 3,21-22). Esse, sim, purificará de verdade o povo de todos os pecados: “Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (v. 16).

A pergunta dos ouvintes de João “que devemos fazer” e as respostas que lhes dá nos indicam como devemos nos preparar para acolher de coração aberto a Jesus Salvador.


“Alegria, simplesmente alegria”, Frei Almir Guimarães

Frei Almir Guimarães

Há uma genuína e transbordante alegria por aquilo que Deus faz acontecer em nós: a revitalização surpreendente e pascal de nossa vida. A alegria não é, no entanto, um aparato exterior, mas nós mesmos nos tornamos motivo de alegria uns para com os outros, alegria sentida não apenas na terra, mas que invade os próprios céus.
José Tolentino Mendonça

>> O terceiro domingo do Advento é conhecido como o Domingo da Alegria. A oração do dia já aborda o tema: “Dai, Senhor, chegarmos às alegrias da salvação e celebrá-las sempre com imenso júbilo na solene liturgia”. Sofonias: “Não temas, Sião, não te deixes levar pelo desânimo!O Senhor Deus está no teu meio… ele exultará de alegria por ti”. Paulo aos Filipenses lembra e exorta: “Não vos inquieteis com coisa alguma… alegrai-vos sempre no Senhor”

>> Verdade que neste domingo encontramo-nos com o rude profeta João Batista. Ele tem palavras quase ásperas a nos dizer. No fundo, o que ele intenta e levar-nos à conversão de nosso interior e quando estamos ou estivermos unidos ao Senhor a partir da verdade de nós mesmos viveremos na atmosfera de um alegria que ninguém nos haverá de tirar. Há essa pergunta dos ouvintes do Batista que é nossa no tempo do Advento: O que devemos fazer?

_ Levar uma vida simples, despojada, que se contente com o necessário, vida não ansiosa pelo máximo, pelo usufruir egoistamente.

_ Interesse uns pelos outros e não indiferença.

_ Atenção carinhosa pelos mais abandonados dentro de nossa casa, na vizinhança, nos presídios, homens e mulheres retos pendurados nos morros em frágeis barracos e tanta gente que precisa de uma simples atenção.

_ Trabalhar pela nossa transformação pessoal para termos o mais possível em nosso semblante os traços de Cristo Jesus, sobretudo daquele que sendo tão grande não hesitou em tomar a condição de servo.

>> Domingo da alegria. Não é tão fácil abordar o tema da alegria. Há muitas manifestações ruidosas regadas pela bebida e perfumada com o “odor das drogas” que não podem ser consideradas manifestações de verdadeira alegria. Os que ai mergulham estão fugindo da vida. O que fazem é dopar seu medo de viver.

>> Há uma alegria muito serena que pode tomar conta de nós: não somos obras do acaso, mas objeto do amor do Senhor que nos criou e que nos deu Jesus para ser companheiro de vida. Somos resultado de um plano de amor e esse amor não acaba. Manifestou-se de maneira clara no rosto do Menino das Palhas e ficou evidenciado na cena do alto do Gólgota. Não existe maior amor do que dar a vida pelos seus.

>> Há essa alegria do abraço do Pai quando batemos à porta de seu coração. Ele não nos expulsa, mas nos estreita junto ao seu peito e faz festa: veste-nos com traje de gala e nos convida para um banquete. Sim, temos já em mãos o convite para o banquete da glória. É apenas questão de tempo. Há uma alegria que vem da certeza que nosso destino último não é a terra do cemitério nem poeira depois da cremação.

>> E há muitas alegrias que aparentemente pequenas são maravilhosamente belas:

_ O dia do domingo: estar de graça com quem amamos, o almoço festivo, o encontro com pessoas que comungam da mesma fé na missa.

_ Alegria de cumprir nosso dever com simplicidade, sem nariza arrebitado. Alegria dos servos inúteis, mas que fazem o que precisa ser feito.

_ Alegria da consciência tranquila.

_ Alegria com uma visita que fazemos ou que recebemos.

_ Alegria pela coragem de termos abandonado um apego que nos destruía.

_ Alegria de estar em nossa casa, por mais simples que seja, pés no chão, tomando um copo de leite e olhando os pássaros voar, sem mais…

_ Alegria de uma vida sem tempos mortos e vazios.

_ Alegria estampada no semblante da velha senhora que, com seu avental, descasca goiabas para fazer a geleia que seu neto mais velho tanto aprecia.

_ Alegria do homem que depois de uma longa internação hospitalar volta à casa com direito a vasos floridos e um brinde com champanhe.

>> Um pensamento de Santa Teresa de Calcutá: “A alegria é oração, a alegria é fortaleza, a alegria é amor, a alegria é uma rede de amor com a qual podeis chegar às almas. Deus ama a quem dá com alegria. Dá mais, quem dá com alegria. O melhor caminho para mostrar nossa gratidão a Deus e às pessoas é aceitar tudo com alegria. Um coração contente é resultado de um coração que sarde de amor. Não deixeis entrar em vós nada de triste que possa fazer-vos esquecer da alegria do Cristo ressuscitado”.

>> Vem aí o Natal. Nosso coração, uma vez mais exula de alegria. Os joelhos debilitados serão reconfortados, os cegos passam a enxergar e estéril dá à luz.

Oração

Quando meu pecado me desanimar,
ajuda-me a crer que não me deixas nunca
de semear no barro de minha mediocridade.
Quando o sofrimento me deixar sem forças,
ajuda-me a crer que estás semeando em mim
uma secreta fecundidade.
Quando a morte próxima me causar medo,
ajuda-me a crer que o grão que morre
é semente de uma espiga dourada.
Quando a desgraça dos oprimidos me entristecer,
ajuda-me a crer que nosso amor solidário
é semente de justiça e de liberdade.
Quando vir teus seguidores infiéis à sua missão,
ajuda-me a crer que Tu semeias
no coração de nossas contradições.

(Inspirada em Michel Hubaut)


“Repartir com quem não tem”, José Pagola

José Antonio Pagola

A palavra do Batista tocou o coração das pessoas. Seu apelo à conversão para iniciar uma vida mais fiel a Deus despertou em muitos uma pergunta concreta: o que devemos fazer? É a pergunta que brota em nós quando ouvimos um chamado radical e não sabemos como concretizar nossa resposta.

O Batista não lhes propõe ritos sagrados, nem normas, nem preceitos. A primeira coisa a fazer não é cumprir melhor os deveres religiosos, mas viver de forma mais humana, reavivar algo que já está em nosso coração: o desejo de uma vida mais justa, digna e fraterna.

O mais decisivo é abrir nosso coração a Deus, olhando atentamente para as necessidades dos que sofrem. O Batista resume sua resposta numa fórmula genial por sua simplicidade e verdade: “Quem tiver duas túnicas, reparta-as com quem não tem; e quem tiver comida faça o mesmo”.

O que podemos dizer diante destas palavras nós que habitamos num mundo onde mais de um terço da humanidade vive na miséria, lutando cada dia para sobreviver, enquanto nós continuamos enchendo nossos armários com todo tipo de túnicas e temos nossas geladeiras abarrotadas de alimentos?

E o que podemos dizer dos seguidores de Jesus diante deste apelo tão simples e tão humano? Não devemos começar por abrir os olhos de nosso coração para tomar consciência de que vivemos submetidos a um bem-estar que nos impede de ser mais humanos?

Nós cristãos não nos damos conta de que vivemos “cativos de uma religião burguesa” (Johann Baptist Metz). O cristianismo, tal como nós o praticamos, não tem força para transformar a sociedade do bem-estar. Pelo contrário, é ela que está esvaziando nosso seguimento de Jesus de valores tão genuínos como a solidariedade, a defesa dos pobres, a compaixão ou a justiça.

Por isso, precisamos agradecer o esforço de tantas pessoas que se rebelam contra esse “cativeiro”, comprometendo-se em gestos concretos de solidariedade e cultivando um estilo de vida mais simples, austero e humano. Elas nos recordam o caminho que é preciso seguir.


“Alegria e exigência de mudança”, Johan Konings

Pe. Johan Konings

Nossa sociedade perdeu a dignidade. A injustiça e a violência andam soltas. Sentimos indignação, desejamos o fim do reino do “vale tudo”. Não é “terrorismo moral” dizer às pessoas que devem mudar, tanto na vida pessoal como na social. Mas a exigência de mudança deve ser inspirada pela esperança e pela alegria pelo bem que Deus sempre nos proporciona. A conversão dos indivíduos e da sociedade será o reverso de uma mensagem de alegria e esperança.

Como no domingo passado, também hoje o evangelho apresenta João Batista, o profeta e porta-voz de Deus, que exige nossa conversão para podermos encarar a vinda do Reino de Deus e do Messias (Lc 3, 10-18). Para isso, devemos deixar de lado toda injustiça, mesmo aquela que faz parte dos costumes de nossa sociedade, como sejam o ágio, a extorsão, os subsídios ilegais etc. Se fosse hoje, João Batista ensinaria certamente a pagar imposto e taxas sociais … Tudo isso faz parte da conversão para receber, com Jesus, o Reino de Deus.

Tal exortação exigente é, na realidade, parte integrante de uma mensagem de alegria: a mensagem da salvação que vem de Deus. “Deus estará no meio de ti”, anuncia o profeta Sofonias à cidade de Jerusalém (1ª leitura). Por isso, convém alegrar-nos e demonstrarmos nossa alegria na retidão e bondade de nosso proceder (2ª leitura).

No fim do evangelho ouvimos palavras fortes. Aquele que vem, o Messias, vai limpar a poeira, vai separar, no terreiro, a palha do trigo. E a palha será queimada … João ainda não conhecia a pedagogia de Jesus. Na linha dos antigos profetas, pretendia converter as pessoas mediante ameaças. Jesus converte com o dom da própria vida. A intenção de João Batista é que preparemos nossa vida para a alegria de ter Deus no meio de nós. A presença de Deus significa bondade, harmonia, paz … Para que a alegria de Deus possa chegar até nós, o profeta exige conversão pessoal e conversão da sociedade. Os exemplos propostos por João Batista são significativos: os que têm reservas estocadas devem repartir com os indigentes; os funcionários do imposto imperial devem deixar de exigir comissão para si; os soldados devem contentar-se com seu soldo e não praticar extorsão contra a população. Não se tratava de comportamentos meramente pessoais. Todos praticavam esses abusos (como ainda hoje), e para não agir assim, era preciso que o mundo fosse outro. Ninguém pode ser virtuoso e piedoso sem modificar também os costumes das pessoas e os procedimentos da sociedade na qual vive. Ser santo sozinho é ilusão.

A alegria da proximidade de Deus nos faz viver de um jeito mais limpo, mais radiante. Mas isso só tem sentido, se tornarmos mais limpo também o mundo em que vivemos, isto é, se tornarmos suas estruturas mais de acordo com o evangelho e o Reino. Senão, voltaremos a nos envolver na sujeira, como porco lavado que volta ao lamaçal.

 

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