Destaque, Notícias › 24/01/2020

Terceiro domingo do Tempo Comum

Novas redes, novos peixes, nova vida…

Frei Gustavo Medella

Apesar de relativamente curto – apenas doze versículos – o trecho do Evangelho que compõe a liturgia deste 3º domingo do Tempo Comum (Mt 4,12-23) é denso em conteúdo e amplo na quantidade de temáticas que aborda. Revelação, missão, conversão, vocação e discipulado são temas profundamente interligados que devem se fazer presentes no dia a dia da caminhada cristã porque foram propostos e plenamente assumidos por Jesus.

No convite aos primeiros apóstolos – Pedro e André – chama atenção o fato de Jesus não exigir que abandonassem sua atividade cotidiana, mas que mudassem o foco de sua ação: passariam a ser pescadores de homens. Eles mesmos chegaram à conclusão que, para atender ao chamado do Mestre, deveriam descobrir novas redes. No caso de Tiago e João, Filhos de Zebedeu, precisaram da coragem e da ousadia de se desinstalar, deixando para trás as garantias que tinham até então: a segurança que lhes era oferecida pelo barco e pelo pai.

Curioso é que Jesus convida e segue. Sua vida é movimento. Sempre caminhando e fazendo o bem. A itinerância do Mestre também é abraçada pelos que decidem segui-Lo. Pedro e André têm de reaprender o ofício ao qual sempre se dedicaram: novos métodos, novas prioridades e novos desafios. Tiago e João percebem que, atendendo ao convite que lhes fora feito, deveriam se reinventar para dar respostas aos riscos e desafios desta nova empreitada que assumiam.

À medida que percorriam o caminho, os apóstolos e discípulos foram percebendo que a resposta positiva à convocação de Jesus deveria ser construída no decorrer da missão. O próprio Mestre tinha plena convicção de que estava convocando pessoas comuns, sujeitas a erros e acertos e que a partir dos altos e baixos inerentes à história humana é que o anúncio e a construção do Reino iriam acontecer.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011


Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: Is 8,23b-9,3

23bNo tempo passado o Senhor humilhou a terra de Zabulon e a terra de Neftali; mas recentemente cobriu de glória o caminho do mar, do além-Jordão e da Galileia das nações.

9,1O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu.

2Fizeste crescer a alegria, e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença como alegres ceifeiros na colheita, ou como exaltados guerreiros ao dividirem os despojos. 3Pois o jugo que oprimia o povo, — a carga sobre os ombros, o orgulho dos fiscais — tu os abateste como na jornada de Madiã.


Salmo Responsorial: Sl 26

— O Senhor é minha luz e salvação./ O Senhor é a proteção da minha vida.

— O Senhor é minha luz e salvação./ O Senhor é a proteção da minha vida.

— O Senhor é minha luz e salvação;/ de quem eu terei medo?/ O Senhor é a proteção da minha vida;/ perante quem eu tremerei?

— Ao Senhor eu peço apenas uma coisa,/ e é só isto que eu desejo:/ habitar no santuário do Senhor/ por toda a minha vida;/ saborear a suavidade do Senhor/ e contemplá-lo no seu templo.

— Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver/ na terra dos viventes./ Espera no Senhor e tem coragem,/ espera no Senhor!


Segunda Leitura: 1Cor 1,10-13.17

10Irmãos, eu vos exorto, pelo nome do Senhor nosso, Jesus Cristo, a que sejais todos concordes uns com os outros e não admitais divisões entre vós. Pelo contrário, sede bem unidos e concordes no pensar e no falar. 11Com efeito, pessoas da família de Cloé informaram-me a vosso respeito, meus irmãos, que está havendo contendas entre vós.

12Digo isso, porque cada um de vós afirma: “Eu sou de Paulo”; ou: “Eu sou de Apolo”; ou: “Eu sou de Cefas”; ou: “Eu sou de Cristo!”

13Será que Cristo está dividido? Acaso Paulo é que foi crucificado por amor de vós? Ou é no nome de Paulo que fostes batizados?

17De fato, Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar a boa nova da salvação, sem me valer dos recursos da oratória, para não privar a cruz de Cristo da sua força própria.


A esperança começa na Galileia

Evangelho: Mt 4, 12-23

-* 12 Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia. 13 Deixou Nazaré, e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, nos confins de Zabulon e Neftali, 14 para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: 15 «Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos que não são judeus! 16 O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; e uma luz brilhou para os que viviam na região escura da morte.»

17 Daí em diante, Jesus começou a pregar, dizendo: «Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo.»

Seguir a Jesus é comprometer-se -* 18 Jesus andava à beira do mar da Galileia, quando viu dois irmãos: Simão, também chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores. 19 Jesus disse para eles: «Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens.» 20 Eles deixaram imediatamente as redes, e seguiram a Jesus. 21 Indo mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca com seu pai Zebedeu, consertando as redes. E Jesus os chamou. 22 Eles deixaram imediatamente a barca e o pai, e seguiram a Jesus. * 23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino, e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo.


* 12-25: Jesus começa sua atividade na Galiléia, região distante do centro econômico, político e religioso do seu país. A esperança da salvação se inicia justamente numa região da qual nada se espera. A pregação de Jesus tem a mesma radicalidade que a de João Batista: é preciso total mudança de vida, porque o Reino do Céu está próximo.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral


Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, dirigi a nossa vida segundo o vosso amor, para que possamos, em nome do vosso Filho, frutificar em boas obras”.

1. Primeira leitura: Is 8,23b–9,3
Na Galileia, o povo viu brilhar uma grande luz.

Em 732 a.C. a região de Zabulon e Neftali, ao norte do reino de Israel, havia sido ocupada pelas tropas da Assíria, que destruíram a capital Samaria. Isaías, embora fosse profeta do reino de Judá acompanhou com tristeza a tragédia de Israel. Parte da população foi levada para o exílio na Assíria; outra parte se refugiou no reino de Judá ou nos países da redondeza; outros foram simplesmente mortos em combate ou quando a cidade foi tomada. Mais tarde, Isaías ou um discípulo seu, numa linguagem poética anuncia a salvação para os que sobreviveram ao massacre. A destruição de Samaria, o fim do reino de Israel e o consequente exílio são representados como escuridão e trevas. A salvação prometida é comparada a uma brilhante Luz, que resplandece sobre o povo jogado nas sombras da morte. A morte dará novamente lugar à vida; daí a expressão “dar à luz”. As lâmpadas voltarão a brilhar nas casas destruídas ou desabitadas. A luz do Senhor, isto é, a presença de Deus no meio de seu povo, faz crescer a alegria e aumenta a felicidade. Os soldados trazem os despojos, pois a guerra terminou e o inimigo foi derrotado. Todos agora podem viver alegres na presença do Senhor com suas fartas colheitas, sem pagar tributo ao opressor.

Salmo responsorial: Sl 26
O Senhor é minha luz e salvação
O Senhor é a proteção da minha vida.
2. Segunda leitura: 1Cor 1,10-13.17
Sede todos concordes uns com os outros
e não admitais divisões entre vós.

Desde o início de sua Carta aos Coríntios (2º Domingo), Paulo insiste no tema da unidade da Igreja de Deus. Todos nós fomos santificados em Cristo Jesus e chamados a ser santos. Invocamos o mesmo nome de “nosso Senhor Jesus Cristo” e chamamos a Deus, nosso Pai. Na leitura de hoje, Paulo toma posição diante dos conflitos na comunidade de Corinto, que lhe foram comunicados. Paulo foi o primeiro a pregar o Evangelho em Corinto, onde fundou a primeira comunidade cristã e acompanhou-a durante um ano e meio. O motivo da discórdia era a divisão da comunidade em clubes de fãs dos missionários que por ali passavam. Havia os que diziam: “Eu sou de Paulo”; ou: “Eu sou de Apolo”; ou: “Eu sou de Cefas” e, por fim, os que diziam: “Eu sou de Cristo”. Por graça de Deus, como sábio arquiteto, Paulo lançou o único e verdadeiro fundamento sobre o qual se pode edificar a Igreja de Deus, que é Jesus Cristo (1Cor 3,10-12). Depois veio Apolo, um pagão convertido e excelente orador, que fez crescer a comunidade; por último, veio Cefas (Pedro), o pescador da Galileia e discípulo de Jesus na sua vida pública, que confirmou a comunidade na fé. Paulo critica os que se diziam fãs de Paulo, de Apolo ou de Cefas. A Igreja não é de Paulo, nem de Apolo, nem de Cefas. É Igreja de Deus. E esta tem como fundamento o próprio Cristo Jesus. Em seu nome todos somos batizados.
Problemas parecidos podem surgir também em nossas comunidades. Podemos ser fãs desse ou daquele sacerdote ou pastor. Mas quem nos salva é Cristo Jesus. Foi Ele que nos revelou o amor do Pai e por nós morreu.

Aclamação ao Evangelho
Pois do Reino a Boa Nova Jesus Cristo anunciava
e as dores do seu povo, com poder Jesus curava.

3. Evangelho: Mt 4,12-23

Foi morar em Cafarnaum,
para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías.

Hoje começamos a ler o Evangelho de Mateus, que nos acompanhará nos domingos durante do ano A, até o final de novembro. Após ser batizado por João Batista, Jesus passou quarenta dias no deserto da Judeia, em jejum e oração, onde venceu as tentações do diabo. Ao saber que João Batista foi preso, Jesus volta para a Galileia, deixa Nazaré e se estabelece em Cafarnaum, uma das principais cidades à beira do Lago de Genesaré, pertencente ao território de Zabulon e Neftali. O Evangelho de Mateus foi, provavelmente, escrito na Síria que faz fronteira com Zabulon e Neftali. É em Nazaré da Galileia que José, Maria e o menino Jesus foram morar. É na Galileia que Jesus aparece aos discípulos após a ressurreição. É da Galileia que envia seus discípulos a pregar o evangelho até os confins da terra (Mt 28,16-20). Na Galileia havia uma grande presença de pagãos. Por isso, o início da pregação de Jesus é apresentado como uma grande luz que brilha na “Galileia dos pagãos”, confirmando a realização da profecia de Isaías (1ª leitura).

No início da pregação, Jesus retoma as palavras de João Batista: “Convertei-vos porque o Reino dos Céus está próximo”. Em Mateus, “Reino dos Céus” equivale a “Reino de Deus” em Marcos e Lucas. Fazer parte do Reino de Deus exige mudança de vida, conversão e ruptura. Jesus chamou Pedro e seu irmão André e, depois, Tiago e João, filhos de Zebedeu, e lhes disse: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles imediatamente largaram suas barcas e redes e começaram a seguir a Jesus.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.


Enquadrado em realidades terrenas, Jesus vem envolto em realidade divina

Frei Clarêncio Neotti

O Evangelho de hoje é extraordinariamente rico em indicações, insinuações e ideias em torno do programa salvador de Jesus. Como os quatro evangelistas são muito sintéticos ao contar os fatos e como muitas vezes usam símbolos e figuras,
devemos sempre estar atentos ao que há por trás das palavras. Logo no início, temos uma afirmação histórica: a prisão de João Batista. Mas, por trás do texto, há mais que prisão. O texto original diz que João ‘foi entregue’, e essa expressão sugere duas coisas: que João era inocente e sua prisão, vontade de Deus. O mesmo vocábulo Mateus o empregará mais tarde em relação a Jesus (20,18s e 26,2). Mateus está insinuando que tudo quanto ocorrerá a Jesus, a partir do momento em que começa a sua vida pública, é vontade do Pai.

Ao dizer que Jesus ‘voltou para a Galileia’, Mateus está sugerindo que Jesus estava em alguma parte do deserto da Judeia (cf. o episódio das tentações, 4,8) e, ao saber da prisão de Batista, ou fugiu para a Galileia, a fim de aguardar sua hora, ou viu na prisão de João o sinal para começar. Ou, ainda, seria uma forma estilística de acentuar o lado humano de Jesus, condicionado ao lugar de criação (Nazaré), a um ambiente de trabalho (Cafarnaum), para dizer que, embora enquadrado em realidades terrenas, ele envolverá verdades e realidades divinas. De fato, os evangelistas sempre acentuaram o lado humano, para que ninguém pensasse um Jesus-fantasma, Jesus-lenda, Jesus-mito. Mas sempre acentuaram também sua origem divina e sua missão salvadora. Mateus coleta inúmeras profecias do Antigo Testamento e as mostra acontecidas em Jesus de Nazaré. A profecia de hoje se realiza perfeitamente: fixa o tempo e o espaço (lado humano) e a missão salvadora (luz, lado divino).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.


Chamados para construir um mundo novo

Frei Almir Guimarães

A coisa mais terrível que pode acontecer a um homem é sentir-se acabado.
Roger Garaudy

♦ Continuamos a aprofundar nossa fé em Cristo Jesus. Temos plena convicção de que ele vive e continua a convocar amigos e seguidores a realizarem a empreitada de viver em seu seguimento e tentar construir com outros, com muitos outros, um novo diferente mundo, mundo de entendimento, bondade e misericórdia, um mundo segundo o coração do Pai.

♦ Isaías nos fala do tema da luz que se reflete, de modo particular no Cristo e nos cristãos: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu”. O brilho da estrela do presépio continua a nos acompanhar.

♦ No evangelho há uma convocação, um chamamento, um convite a que pescadores aceitem esse chamado e deixem seus pequenos e tacanhos universos. Tudo é precedido a um convite à conversão. Os que são chamados, tanto ontem como hoje, são orientados para que mudem seu jeito de viver, se convertam, olhem com o olhar de Deus, não centrem a vida em seu pequeno e limitado universo. Deixem morrer o homem velho e renasçam para uma novidade de vida: transparência, sede de Deus, vontade de respirar o ar da fraternidade, tentativa de perdoar até o fim. Ser cristão é entrar num processo de conversão que nunca termina.

♦ Vem então o seguimento. Andar atrás daquele que nos fascinou. Não basta ter nascido numa família cristã, ter sido batizado e dizer-se católico por ocasião da resposta a certas perguntas que nos são feitas. Necessário uma alegre resposta pessoal. Esse chamamento requer presteza, perseverança, audácia de ir fazendo com que nosso olhar seja o olhar de Cristo, nossas alegrias as alegrias de Cristo, nossos sonhos sejam os sonhos de Cristo. Isto significa cumplicidade de vida entre o Mestre e o discípulo. Continuamos a vida de todos os dias: nascemos, crescemos, somos homem ou mulher, na vida profissional, na vivência familiar, na luta pela justiça, na saúde e na doença. Será preciso receber esse convite pessoalmente e pessoalmente responde-lo. Colocar os pés nos pés do Senhor.

♦ Os apóstolos foram convidados no meio da vida, no trabalho a não serem mais pescadores de peixes para se tornarem pescadores de homens. Sair, ir pelo mundo pode querer dizer ir para regiões próximas ou longínquas, cuidar das crianças doentes, dos presos sem advogados, dos mal casados, do que estão de mal com a vida, dos que levantam a hipótese de porem termo à vida. Os discípulos de Jesus são missionários e colaboram com a instauração do Reino. “São esses os traços principais deste reino: uma vida de irmãos e irmãs, alentado com a compaixão que o Pai do céu tem para com todos; um mundo no qual se busca a justiça e a dignidade para todo ser humano a começar pelos últimos; no qual se cuida da vida libertando as pessoas e a sociedade inteira de toda escravidão desumanizadora, no qual a religião está a serviço das pessoas, sobretudo das mais esquecidas; no qual se vive acolhendo o perdão e dando graças por seu amor insondável de Pai” (Pagola, Voltar a Jesus, Vozes, p. 69).

♦ Não estamos acabados… a construção da vida continua.

Dois pensamentos que podem nos tonificar:

>> Quantos homens e mulheres se instalam na mediocridade renunciando às aspirações mais nobres e generosas que despertam em seu coração! Não caminham. Sua existência fica paralisada. Vivem de apegos ao mínimo necessário para viver, sem olhos para conhecer aquilo que poderia dar nova luz à sua vida. É possível reagir quando alguém se instalou na rotina ou na indiferença? Pode alguém libertar-se dessa vida “programada” para a comodidade e o bem estar? Esta é a boa notícia de Jesus: dentro de cada um de nós existe uma fé que pode levar-nos a reagir e colocar-nos novamente no caminho verdadeiro”
Pagola, Marcos, Vozes, p.220

>> A Igreja deve sempre ser capaz de surpreender, anunciando a todos que Jesus venceu a morte, que os braços de Deus estão sempre abertos, que sua paciência está sempre nos aguardando para curar-nos e perdoar-nos. É para essa missão que Jesus ressuscitado deu seu Espírito à Igreja. Atenção: se a Igreja está viva, deve sempre surpreender. Uma Igreja sem a capacidade de surpreender é uma Igreja fraca, doente, moribunda e de ser trata numa UTI o quanto antes.
Para Francisco
Regina Coeli, 8 de junho de 2014

Oração

Tu estás perto, Senhor.
Estás sempre oferecendo teu amor.
Perdão por nossa falta de fé.
Respeitas nossa liberdade, caminhas conosco,
sustentas nossa vida e não nos damos conta.
Perdão por nossa mediocridade.
Tu nos ajudar a conhecer-nos,
nos falas como a filhos,
nos animas a viver, e não te escutamos.
Perdão por nossa falta de acolhida.
Tu nos amas com ternura,
queres o melhor para nós,
e não te escutamos.
Perdão por nossa ingratidão.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.


Nunca é tarde

José Antonio Pagola

Não gostamos de falar de conversão. Quase instintivamente pensamos em algo triste, penoso, muito ligado à penitência, à mortificação e à ascese. Um esforço quase impossível para o qual não nos sentimos dispostos nem com forças.

No entanto, se nos detivermos diante da mensagem de Jesus, vamos escutar, antes de mais nada, um apelo alentador para mudar nosso coração e aprender a viver de uma maneira mais humana, porque Deus está perto e quer sanar nossa vida.

A conversão de que fala Jesus não é algo forçado. É uma mudança que vai crescendo em nós à medida que vamos tomando consciência de que Deus é alguém que quer fazer nossa vida mais humana e feliz.

Porque converter-se não é, antes de tudo, tentar fazer tudo melhor, mas saber que nos encontramos com esse Deus que nos quer melhores e mais humanos. Não se trata só de “tornar-se uma boa pessoa” mas de voltar àquele que é bom conosco.

Por isso, a conversão não é algo triste, mas a descoberta da verdadeira alegria. Não é deixar de viver, mas sentir-nos mais vivos do que nunca. Descobrir para onde temos de viver. Começar a intuir tudo o que significa viver.

Converter-se é algo prazeroso. É limpar nossa mente de egoísmos e interesses que minimizam nosso viver cotidiano. Libertar o coração de angústias e complicações criadas por nosso afã de poder e possuir. Libertar-nos de objetos dos quais não precisamos e viver para pessoas que precisam de nós.

Alguém começa a converter-se quando descobre que o importante não é perguntar-se como posso ganhar mais dinheiro, mas como posso ser mais humano; não como posso chegar a conseguir algo, mas como posso chegar a ser eu mesmo.

Quando ouvimos o apelo de Jesus: “Convertei-vos, porque está próximo o Reino de Deus’: pensemos que nunca é tarde para converter-nos, porque nunca é tarde para amar, nunca é tarde para ser mais feliz, nunca é tarde demais para deixar-nos ser perdoados e renovados por Deus.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.


Evangelizar com palavras e ações

Pe. Johan Konings

Para ver melhor, vamos recuar um pouco… Sete séculos antes de Cristo, duas tribos de Israel – Zabulon e Neftali – foram deportadas para a Assíria, e povos pagãos tomaram seu lugar. A região ficou conhecida como “Galileia dos pagãos”. Naquele mesmo tempo, o profeta Isaías anunciou que o novo rei de Judá poderia ser uma luz para as populações oprimidas (1ª leitura). Sete séculos depois, Jesus começa sua atividade exatamente naquela região, a Galileia dos pagãos. Realiza-se, de modo bem mais pleno, o que Isaías anunciara. É o que nos ensina o evangelho de hoje.

Jesus anuncia a chegada do Reino de Deus. Mas não o faz sozinho. Do meio do povo, chama os seus colaboradores. Dos pescadores do Lago da Galileia ele faz “pescadores de homens”. Eles deixam seus afazeres, para se dedicarem à missão de Jesus: anunciar a boa-nova, a libertação de seu povo oprimido. Esse anúncio não acontece somente por palavras, mas também por ações. Jesus e os discípulos curam enfermos, expulsam demônios… Anunciar o reino implica aliviar o sofrimento, pois é a realização do plano de amor de Deus.

Nosso povo anda muito oprimido pelas doenças físicas, mas sobretudo pelas doenças da sociedade: a exploração, o empobrecimento dos trabalhadores etc. Deus é sua última esperança. O povo entenderá o que Jesus pregou (justiça, amor etc.) como boa-nova à medida que se; realize algum sinal disso em sua vida (alívio de sofrimento pessoal e social). Um desafio para nós.

Jesus chama seus colaboradores do meio do povo. Ora, na Igreja, como tradicionalmente a conhecemos, os anunciadores tornaram-se um grupo separado, um clero, uma casta, enquanto Jesus se dirigiu a simples pescadores que trabalhavam ali na beira do lago. Ensinou-lhes uma outra maneira de pescar: pescar gente. Onde estão hoje os pescadores de homens, agricultores de fiéis, operários do Reino – chamados do meio do povo? Por que só os intelectuais podem ser chamados, para, munidos de prolongados estudos, ocuparem “cargos”eclesiásticos, à distância do povo? Não é ruim estudar; oxalá os pescadores e operários também pudessem fazer. Mas importa observar que a evangelização, o anúncio do Reino, puxar gente para a comunidade de Jesus, não é tarefa reservada a gente com diploma. E a Igreja como um todo deve voltar a uma simplicidade que possibilite que pessoas do povo levem o anúncio aos seus irmãos e assumam a responsabilidade que isso implica.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

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